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Rumos 2013-2014: As Histórias Incríveis de uma Infância Repleta de Personagens da Ficção e da Vida Real

12 de fevereiro de 2015

obra: Na Tela Rútila das Pálpebras
selecionado: Josely Vianna Baptista

O Brasil não sabia, mas nos anos 1960 perdeu uma trapezista e ganhou uma tradutora, escritora e poeta. Era Josely Vianna Baptista, que chegou a cogitar também a possibilidade de ser mergulhadora ou “turista”. Tudo isso ainda na infância, porque já no início da adolescência ela passou a se interessar em fazer a “ponte entre as línguas” ao ter contato com livros e revistas estrangeiros e com pessoas que falavam outros idiomas.

Parece até ficção, mas Josely descreve alguns personagens da vida real que atravessaram seu caminho quando criança “como um misterioso marinheiro holandês, Bosch, que desceu de um navio no Brasil e foi morar na cidadezinha onde cresci, chamada Primeiro de Maio (PR), ou como os meninos parecidíssimos com Lorca, de belos olhos negros, mirada oblíqua e pele azeitonada, que vieram de algum lugar de la España direto para lá, ou meus amigos alemães, netos da dona Emma da granja, ou o japonês da quitanda que mal falava português, ou ainda a mãe da minha amiga Neia, boia-fria, que só xingava em castelhano castiço”.

Verdade seja dita, Júlio Verne também teve importante papel na sua incursão literária. Josely tinha 9, 10 anos, quando ganhou uma coleção do escritor francês e, desde então, seu prazer pela leitura e pela “escritura” ficariam associados ao cheiro das capas de couro vermelho daqueles livros. Pronto. Ela já estava capturada para sempre pela agradável sensação de passar tardes inteiras lendo na rede. Traduzir, vislumbrou ela, seria a oportunidade de “continuar na rede”.

Assim, aos 11 anos, foi estudar em Curitiba, no Sacré Coeur de Jesus, onde se dedicou ao francês. No Colégio Sion fez o curso de tradutor e intérprete em língua inglesa. Já na Universidade Federal do Paraná (UFPR) cursou língua e literatura espanhola e hispano-americana, fez pós em semiótica e estudou um pouco de guarani. Sim, porque na infância Josely também teve contato com uma comunidade isolada de guaranis. “Lembro-me até hoje do arenoso chão batido daquela picada estreita por onde andamos até avistar as palhoças e ouvir aquela algaravia de sons nunca dantes escutados. Eu estava num filme. Tempos depois um velho índio, provavelmente um pajé, passou uns tempos vendendo ervas que espalhava sobre um pedaço de couro. Aquilo representava um mundo de mistérios para uma menina que via Os Flintstones na TV e espiava as fotos da revista Life e, mais tarde, lia na rede romances clássicos.”

Profissionalmente, foi um anúncio de jornal que deu a senha para a concretização do desejo de infância. Era 1985. Ao ler que a Editora Brasiliense buscava tradutores, Josely se candidatou e no mesmo ano assinava o primeiro de quase uma centena de livros de poesia, prosa, história, mitologia que traduziria nas próximas três décadas. A obra? Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier.

Em cada trabalho, uma experiência. Sentiu-se transfigurada com o lirismo zen de Cortázar, em Os Autonautas da Cosmopista (escrito em parceria com a mulher Carol Dunlop). Em Lamê, lembra como foi legal discutir detidamente com Néstor Perlongher, por meio de inúmeras cartas. Recorda também do privilégio de trazer ao português alguns livros de Augusto Roa Bastos. De Jorge Luis Borges, entre outros trabalhos, Josely integrou o corpo de tradutores de suas Obras Completas, que ganhou um Prêmio Jabuti.

“Memorável” é a palavra que ela usa para descrever o processo de tradução de Paradiso, de Lezama Lima, aos 20 e poucos anos, essencial para que se aventurasse em outros mares, o de escritora e poeta. “Sua noção das eras imaginárias, do acaso concorrente, da história tecida pela imagem, toda sua visão de mundo e sua escritura singulares lançaram semillas al voleo (jogaram sementes) na terra virgem de minha linguagem”, comenta.

Foi dessa mistura de experiências da infância, profissionais e acadêmicas que ela chegou a Ar, seu primeiro livro, publicado em 1991. “Nem sei bem como isso se deu. Eu gostava de escrever meio ao léu, tinha cadernos de caligrafia, daqueles antigos, onde estudava japonês para traduzir um único haikai de Bashô, anotava fieiras esgarçadas de palavras em que eu sentia alguma imantação, e pensava muito por ‘concreções imagéticas’, como definiu certa vez Haroldo de Campos. Como eu não pensava em publicar, não havia nenhuma dificuldade…”, conta.

Depois vieram Corpografia, Sol sobre Nuvens, Roça Barroca, o infantil e premiado A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo e muitos outros.

Projeto

Dentre seus novos projetos está Na Tela Rútila das Pálpebras. A partir de um sentimento de olhar estrangeiro em sua própria terra, Josely se motivou a planejar uma expedição aos Campos Gerais do Paraná, onde, dez gerações atrás, chegaram seus antepassados. É a partir dessa incursão que surgirá a obra com textos escritos por ela e uma série de desenhos produzidos pelo artista plástico Guilherme Zamoner, seu parceiro nesta experimentação poético-visual. O grande diferencial de Na Tela Rútila das Pálpebras é que a publicação será digital multimídia, organizada por ela e por Zamoner.

Josely diz que ainda não sabe muito bem o que essa viagem lhe reserva. Para expressar o que sente, ela cita uma frase de Bob Wilson, diretor do espetáculo The Old Woman: “Se você sabe do que se trata, qual o sentido em fazê-lo?”. Uma coisa, porém, a escritora já adianta: o projeto não termina aí. “Sei que será a primeira de uma série de obras multimídia que pretendo desenvolver a partir de expedições a caminhos históricos do interior do Brasil.”

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