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Rumos 2013-2014: Cientista da computação descobre na técnica a ferramenta para criar arte

20 de outubro de 2014

obra: Sketchument – Ambiente de Experimentação para Criação de Instrumentos Musicais Digitais
selecionado: Filipe Calegario

Para muitas pessoas a escolha do curso que poderá determinar o futuro profissional é tarefa das mais difíceis, aos 17, 18 anos. Não foi assim para o pernambucano Filipe Calegario. Desde a infância, a sua grande inspiração morava literalmente ao lado. Era o primo 11 anos mais velho, Leonardo Menezes, que cursava ciências da computação.

Filipe cresceu vendo o primo trabalhar no computador, instalar Windows com disquetes, abrir a máquina quando dava algum defeito. Dúvidas, portanto, passaram longe da sua cabeça quando optou por prestar o vestibular para a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) exatamente na mesma área. Foi só já na metade da faculdade que ele percebeu, no entanto, que o seu interesse não era propriamente pela computação em si, por engenharia de software, banco de dados e afins. Descobriu que era um artista e que a computação poderia, na verdade, ser uma ferramenta para que ele expressasse a sua arte.

“Acho que muito do meu processo criativo e, por que não dizer artístico, vem de uma experiência com a técnica”, explica. Combinando, experimentando ideias, o então estudante foi notando que as escolhas de programação de código, por exemplo, não precisavam necessariamente ser apenas para conseguir um melhor desempenho da máquina. Elas poderiam também ser artísticas.  “Comecei a ter essa relação diferente com o código. Código não simplesmente como um amontoado de instruções para a máquina, mas uma forma de você ter um apelo artístico com o que você está escrevendo. Uma relação de poesia ”, exprime.

Ainda antes de se formar, Filipe estudou um ano fora do país, em Munique, na Alemanha, e lá viu como essa relação entre arte e tecnologia era muito valorizada. Nessa junção das duas áreas, ele ganhou também um parceiro importante, o amigo de faculdade Jerônimo Barbosa. “A gente trocava muito dessas inquietações. Em computação por computação a gente não era muito ligado não”, comenta, aos risos.

Mesmo distantes fisicamente, os dois começaram por skype a desenvolver um projeto, que foi finalizado quando Filipe voltou ao Brasil. É o Marvim Gainsbug, um software que produz poesia e música a partir de palavras selecionadas no Twitter. O usuário só precisa escolher um tema. Com a proposta, eles participaram de diversos festivais pelo Brasil e ganharam menção honrosa no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File), de 2010.

Em seu trabalho de graduação, Filipe Calegario desenvolveu um projeto que também misturava música e tecnologia. Dessa vez, a ferramenta utilizada para gerar melodia era o controle do Wii, videogame da Nintendo famoso na época.

Entusiasmado com o trabalho do seu orientando, o professor Geber Ramalho deu a dica: o aluno deveria fazer um mestrado também na área e começar a desenvolver outros projetos. A sugestão foi acatada e, ao lado de Geber, do amigo Jerônimo e do professor Giordano Cabral, ele formou o MusTIC – Música, Tecnologia, Interatividade e Criatividade. “Aí começamos a agregar várias pessoas que estavam sentido falta de uma área de coalisão entre tecnologia, música e interatividade”.

A partir das discussões geradas nesse grupo de pesquisa, Filipe chegou ao seu trabalho de mestrado: o Sketchument. O nome surgiu da aglutinação dos termos em inglês sketch your instrument, algo como esboce o seu instrumento. É exatamente do que se trata o projeto, que está sendo finalizado agora com o apoio do Rumos.

O aplicativo nasceu de uma reflexão sobre os avanços tecnológicos e as inúmeras possibilidades existentes hoje de criação de instrumentos musicais digitais. Há tantas opções, que o músico, o designer, o artista, todos ficam perdidos.

O Sketchument apresenta justamente um caminho mais fácil, que pode ser utilizado até por quem é leigo. “Combinando possibilidades diversas de forma simples e rápida, o usuário, por tentativa e erro, pode concretizar ideias de instrumentos que melhor se adequem à sua intenção e ao seu contexto de uso”, explica. Para uma primeira versão do produto, a plataforma escolhida foi o iPad. Neste vídeo, é possível saber mais sobre o protótipo.

O mestrado de Filipe Calegario já foi concluído e o avanço agora é para aprimorar o aplicativo e o seu layout. Para isso, ele conta com a ajuda do designer William Paiva. A ideia é que, quando pronto, o produto seja disponibilizado ao público por meio da Apple Store, como forma de aprofundar essa pesquisa a partir das críticas e sugestões dos usuários. O nome Sketchument também deverá ser alterado. “O meu interesse é fazer uma coisa que tenha relevância e seja usada de forma natural pelas pessoas”, conclui.

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