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Rumos 2013-2014: De volta ao Pará para contar a história de 12 guerrilheiras do Araguaia

23 de abril de 2015

Obra: Guerrilheiras
Selecionado: Gabriela Carneiro Cunha

Gabriela Carneiro da Cunha tinha 19 anos e trabalhava na Companhia Vale do Rio Doce quando viajou a Carajás, no Pará, acompanhando investidores. Agora, aos 32, ela volta à região com uma missão completamente diferente: contar a história de 12 mulheres que atuaram e morreram na Guerrilha do Araguaia.

Nesses 13 anos que separam os dois momentos distintos, Gabriela teve a vida completamente transformada. Formada em administração de empresas, largou o emprego na Vale para se dedicar à carreira de atriz. A mudança aconteceu ao acaso e aos poucos. Tudo começou com o convite de um amigo para fazer um curso de teatro de férias na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), famosa no Rio de Janeiro. Ela gostou e resolveu continuar o aprendizado em um curso maior, com Daniel Herz. Em pouco tempo, estreava em uma peça dirigida por ele, A Vida como Ela É, de Nelson Rodrigues. O palco? O teatro Sesi, ironicamente, em frente ao prédio da Vale, no Rio. “Foi ali que me mordeu o bichinho do teatro”, conta.

Já são dez anos de carreira artística, mais de 20 peças encenadas, uma companhia de teatro fundada, a Pangeia, estágio no renomado Théâtre du Soleil, em Paris, e participação em novelas. Gabriela também está no cinema como Moema, no filme O Duelo, de Marcos Jorge.

Em meio a tanto trabalho, começou a sentir a necessidade de um projeto autoral. Fascinada pela época da ditadura militar – “tão próxima e tão distante da gente” –, resolveu buscar a história dos que desapareceram nas mãos do regime. Chegou à Guerrilha do Araguaia, levante organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que “pretendia desencadear uma revolução política e social no país, partindo do campo para a conquista das cidades”.

“Tinha ouvido falar, mas nunca soube profundamente. Fui pesquisando e me apaixonando cada vez mais pelo tema”, relata. É nesse momento que conhece Maria Lucia Petit, Helenira Resende, Lucia Maria de Sousa, Dinaelza Santana Coqueiro, Maria Célia Correa, Jana Moroni Barroso, Dinalva Oliveira Teixeira, Walkiria Afonso Costa, Suely Kanayama, Luiza Garlippe, Telma Regina Corrêa e Áurea Valadão. As 12 guerrilheiras que morreram no Araguaia.

Projeto

A ideia de Gabriela é criar e apresentar uma peça sobre elas. “O espetáculo trabalhará não só com a história pessoal dessas mulheres e sua participação na guerrilha, mas também iluminará esse importante episódio da história brasileira recente, ainda tão nebuloso”, justifica.

Toda a proposta é de uma criação compartilhada por Gabriela, pelas outras atrizes que darão vida às personagens (Mafalda Pequenino, Daniela Carmona, Sara Antunes, Carol Virguez, Fernanda D’umbra), pela diretora Georgette Fadel, pela assistente de direção Julia Ariani, pela dramaturga Grace Passô e pelas produtoras Gabi Gonçalves e Aline Mohamad. Agora em maio, elas irão refazer a viagem feita pelas guerrilheiras há quase 40 anos e se instalarão em Xambioá, no Tocantins, e nas cidades de São Geraldo do Araguaia, São Domingos do Araguaia e Marabá, no Pará.

Além de realizar ensaios, conversarão com pessoas da região. “Suas vidas diárias, suas recordações e o que ouviram falar da guerrilha. Como conheceram e quais detalhes pessoais lembram de cada guerrilheira. Como veem a história de si mesmas e do país hoje em relação ao passado”, explica Gabriela.

Todo o trabalho será acompanhado por uma equipe de filmagem pequena, comandada pelo diretor Eryk Rocha, que fará registros audiovisuais do processo.

Para a criação da linguagem e dramaturgia da peça, o grupo tem como base o livro Primeiras Cantigas do Araguaia, caderno de poesias escrito de próprio punho pelos guerrilheiros e que pode ser acessado aqui.

Guerrilheiras [nome ainda provisório] já tem data de estreia: 6 de agosto, no Espaço Sesc, em Copacabana. Ficará um mês em cartaz no Rio de Janeiro e depois seguirá para São Paulo. A vontade é conseguir apoio para que o espetáculo seja apresentado também na região retratada.

Diante do atual momento político conturbado em que o Brasil vive, Gabriela acredita que a peça ganha um significado ainda maior. “Esse projeto me devolveu o entendimento do meu papel político como brasileira jovem, artista. A ditadura fez o grande desserviço de retirar isso da pauta do brasileiro, esse sonho de grande parte da geração dos anos 1960 de transformar o mundo. Este momento está nos devolvendo isso e espero que o espetáculo também contribua, promovendo, pelo menos, a possibilidade do gesto revolucionário.”

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