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Rumos 2013-2014: Diários de uma cineasta da experimentação

13 de outubro de 2014

obra: Diário de Férias
selecionado: Juliana Serfaty

Juliana Serfaty não sabia que caminho profissional seguir, mas de duas coisas ela tinha certeza: não seria jornalista nem publicitária. Depois de ela cumprir dois anos da grade curricular de comunicação social, a faculdade lhe cobrava uma decisão. Graças a esses “não quereres”, surgiu a possibilidade de pensar: e o cinema? O cenário era nebuloso. Se por um lado ela cultivava uma paixão por filmes e, em especial, pelo trabalho do japonês Yasujiro Ozu, por outro a sétima arte parecia muito distante de sua realidade.

 


 

“O cinema é algo fechado, não é tão popular, não é todo mundo que faz, e de alguma forma fazer cinema é se colocar sempre em risco. Ao mesmo tempo, tinha alguma coisa que me motivava e eu não consigo dizer o que é”, rememora. A decisão pendeu para o lado mais intuitivo e, aos 20 e poucos anos, Jo, como é mais conhecida, trancava a faculdade de comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) para fazer um curso de cinema de seis meses em Nova York. Voltou de lá não sabendo se tinha talento para a coisa, mas muito feliz.

Narrativas lineares nunca fizeram a cabeça dela, seja em seus filmes ou em sua própria trajetória. É do tipo mais afeita a experimentações. Dessa forma, Jo foi trilhando sua história por curvas sinuosas. Já desenvolveu pequenos filmes mais conceituais e artísticos,  dirigiu videoclipe, realizou mostra. Ao lado da amiga Marina Kaufman, assinou o documentário Confete, que pode ser visto aqui. Ela dirigiu também o curta de ficção Sobre a Mesa. É sócia da Fagulha Filmes e finalizou com o amigo Diogo Oliveira outro curta, Peixe.

No meio de tanta criação, Jo ainda encontrou tempo para dar aulas de cinema no projeto Imagens em Movimentos. Uma escola pública da comunidade de Rio das Pedras foi um dos pontos em que ela atuou como professora por um ano. E foi nesse lugar que nasceu a ideia de Diário de Férias, projeto selecionado pelo Rumos.

Proposta

Foi em Rio das Pedras que a cineasta conheceu quatro adolescentes “incríveis”. Estephanie, Ronaldo, Karolaynne e Natalia apresentam personalidades muito diferentes, mas possuem em comum a autenticidade e uma força que os permite resistir em suas diferenças.

Professora e alunos extrapolaram o contato para além da sala de aula. Começou a fervilhar na cabeça de Jo a ideia de um filme. Não seria, porém, a visão dela sobre aqueles personagens. Mas uma criação coletiva, em que os jovens mais do que simplesmente atores de suas próprias histórias também pudessem optar pela forma como gostariam que isso fosse contado.

Em paralelo, enquanto ainda dava aulas na comunidade, Jo voltou das férias empolgada para saber o que os alunos tinham feito no período. A resposta, porém, surpreendeu a cineasta. As férias tinham outro significado para eles. Eram, na verdade, meses em que eles não tinham histórias para contar, porque passavam muito tempo dentro de casa, várias vezes cumprindo tarefas domésticas. “Criou outra conotação ali pra mim, de clausura, de isolamento, de não encontro com o outro”, relata.

Essa imagem de tédio ficou rondando a cabeça de Jo e se uniu àquela outra ideia de trabalhar com Estephanie, Ronaldo, Karolaynne e Natalia. O resultado culminou em Diário de Férias, proposta que começa a sair do papel em janeiro.

Semanalmente, Jo e artistas convidados irão apresentar propostas criativas aos quatro adolescentes. Com base nisso, os jovens irão produzir fragmentos artísticos que serão postados em um blog ou tumblr. O projeto não se restringe ao cinema, mas abrangerá outras atividades artísticas, como dança, artes plásticas e teatro.

Esse formato livre tem a ver com a própria formação de Jo, sempre pautada pela liberdade de experimentar, tentar, errar e acertar. “A ideia não é aula. Esses jovens têm muito potencial, são muito curiosos. A proposta é que seja enriquecedor para os dois lados”, conclui.

Neste vídeo, a cineasta conversa com Ronaldo, Karolaynne e Natalia.

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