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Rumos 2013-2014: Do heavy metal à paixão pela música instrumental brasileira

16 de outubro de 2014

obra: Seminário Brasileiro de Improvisação Musical
selecionado: Leandro Fortes

Leandro Fortes tinha 17 anos quando viu pela primeira vez um guitarrista tocando jazz na sua frente. Ele simplesmente enlouqueceu com o exercício de improvisação que o músico Leo Garcia exibia bem diante de seus olhos. “Eu ficava me perguntando: meu Deus, o que é isso, esse cara, de onde ele está tirando essas ideias, o que são essas frases (musicais)?”, relembra. O jovem, que passou a adolescência dedicado ao virtuosismo da guitarra elétrica do heavy metal, estava completamente fascinado. Vivia ali uma espécie de catarse.

Ao mesmo tempo, na faculdade de música da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Leandro era apresentado à obra de Hermeto Pascoal e de Egberto Gismonti e, mais uma vez, se impressionava. “Foi um tapa na cara total. Sabe quando você tem aquela sensação de ‘eu quero entender isso’? Por que a música deles é assim? Por que é tão diferente, por que é tão expressiva, por que é tão forte?”

Essas experiências marcantes geraram uma inquietação em Leandro, que passou a desenvolver a sua pesquisa e a sua carreira em cima disso: improvisação e música instrumental brasileira. Ainda na faculdade, ele notou que o jazz está muito presente na improvisação realizada por músicos daqui, mesmo quando eles estão tocando um samba ou um baião. “Na hora do improviso ficava bem jazzístico”, frisa.

Por outro lado, Leandro também identificou instrumentistas, como o pianista André Marques, o saxofonista Vinícius Dorin e o guitarrista Heraldo do Monte, que conseguiam algo diferente, mais ligado à música brasileira. “Você via (nas improvisações) que eles tinham a base, os elementos jazzísticos, mas soavam mais coerentes com o contexto rítmico brasileiro que estavam tocando, no qual estavam inseridos”, revela.

A partir daí, o estudante passou a questionar: “Será que não existe um jeito, na hora de improvisar, de sair um pouco daquele fraseado mais linear, mais jazzístico, e procurar explorar outros elementos que sejam mais interessantes?”. Essa reflexão virou o seu trabalho de conclusão de curso da faculdade, em 2007, e, embora não dê uma resposta pronta e acabada, aponta alguns caminhos.

Ficou claro para ele, por exemplo, que os músicos que propõem um improviso com sotaque mais brasileiro são aqueles que conseguem internalizar muito mais a música tradicional e, assim, ela surge naturalmente na improvisação. Nesse ponto, há também todo um contexto socioeconômico e político em que se discute o que é o Brasil, o que é a música brasileira. “Nós somos um povo que teve uma mistura muito forte e, de certa maneira, isso se reflete na improvisação”, pontua.

Desde que concluiu o seu TCC, Leandro o transformou em workshop e passou a apresentá-lo em diversos locais. No ano passado, chegou a fazer isso até na Filadélfia, nos Estados Unidos.

A pesquisa de Leandro Fortes continua. Interessa para ele conseguir também uma discussão que envolva os diferentes profissionais de música. No cenário atual, o pessoal que toca na noite não sabe o que se passa na academia e vice-versa, segundo ele. “Seria muito interessante para os dois lados, porque a prática instrumental da música popular ainda é muito carente dentro do meio acadêmico. Você vê brasileiro indo para fora estudar jazz, improvisação.”

Pensar e fazer música são dois lados que, como defende Leandro, não precisam estar dissociados. E é justamente para juntar esses profissionais e fomentar a reflexão que ele propõe o Seminário Brasileiro de Improvisação Musical, selecionado pelo Rumos.

O evento acontecerá em 2015, em Florianópolis, e vai reunir instrumentistas, críticos musicais e pesquisadores da área acadêmica. “Vamos botar o pessoal para discutir, dar a sua opinião”, frisa.

A proposta, argumenta ele, é importante também como forma de reafirmar uma música que não é comercial, que não está no rádio ou na TV, mas que propõe algo mais introspectivo. “Faz as pessoas olharem para dentro de si em vez de só esquecerem do problema momentaneamente.”

É isso que o leva a remar contra a maré e a idealizar um evento como o seminário. Assim como a ser professor, compositor, trabalhar como arranjador e a tocar ao lado de conjuntos como o Quarteto Rio Vermelho ou o seu próprio, Leandro Fortes Sexteto. “É um processo muito intuitivo compor esse tipo de música, tocar e querer levar algo diferente para as pessoas neste mundo tão doido. Eu acho que o Brasil precisa olhar mais para si mesmo. Esse processo de construção do país não acaba nunca. E acho que, talvez, a música possa ajudar nisso”, finaliza.

Conheça mais sobre o trabalho de improvisação de Leandro em suas apresentações com o Quarteto Rio Vermelho.

 

 

Neste vídeo, ele interpreta “Valsinha”, de Chico Buarque.

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