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Rumos 2013-2014: Do Mercado Financeiro para o Cinema, a Trajetória de Carlos Peralta

21 de agosto de 2014

obra: Descobrindo o Acervo Musical de Octávio Dutra
selecionado: Carlos Peralta

O que explica um administrador de empresas de 35 anos largar uma bem-sucedida carreira no mercado financeiro para virar produtor de cinema? O que explica esse mesmo administrador, mais de 22 anos depois, ser o idealizador de um filme e de um projeto que recupera a vida e a obra de um gênio esquecido da música brasileira? Vontade, acaso, coincidência, sorte, estudo? Estas são algumas das peças que ajudam a contar um pouco da trajetória profissional do gaúcho Carlos Eugênio Duarte Peralta, autor do projeto Descobrindo o Acervo Musical de Octávio Dutra.

“Eu estava chegando à meia-idade, essa história de dar uma guinada na vida e tal. Eu tinha me separado, fiz uma reflexão e percebi que não estava muito feliz… e eu queria ser feliz”, conta. Corria o ano de 1992. Em dezembro, marca o início do que ficou conhecido como retomada do cinema brasileiro, quando o governo federal começou a criar mecanismos para viabilizar financeiramente a produção de filmes. É nesse momento que Peralta entra em cena. Primeiro, usando seu conhecimento do mercado financeiro e o contato com as empresas para captar recursos. Para, somente algum tempo depois, virar produtor executivo.

A paixão pela sétima arte, no entanto, foi instantânea. “Quanto eu entrei pela primeira vez em um set de filmagem, aquilo me captou, me fez pensar e refletir. Naquele momento soube: achei o meu caminho.”

Nestas mais de duas décadas da nova carreira, Carlos Peralta procurou se especializar fazendo cursos no Brasil e no exterior. Em 2006, fundou sua própria produtora, a Guarujá Produções. É por meio dela que viabiliza filmes, documentários, séries – e até já se arrisca a escrever. Ele assina, ao lado de Saturnino Rocha (diretor), o roteiro de Tango, uma Paixão, que mostra a força da dança portenha em Porto Alegre.

O filme é importante para Peralta não apenas por ser o primeiro longa da sua produtora, mas também por ter sido durante as gravações dele que se iniciou a segunda história deste texto, o projeto de resgatar um gênio brasileiro. Foi lá que o produtor conheceu a obra do músico Octávio Dutra (1884-1937), um dos precursores do chorinho no Brasil.

“Eu recebi do maestro Hardy Vedana (1928-2009) um livreto em que ele aborda a história da música de Porto Alegre. E ele destacou o maestro Octávio Dutra, que tinha sido uma figura importante, mas que estava esquecida. Eu dei uma olhada e falei: podemos fazer um filme.”

E fizeram. O documentário Espia Só foi lançado em 2012 e exibido na capital gaúcha, em São Paulo, em Brasília, no Rio de Janeiro e em outras cidades. Para Carlos Peralta, no entanto, ainda era possível, e preciso, fazer mais. A família do maestro tinha cedido para o desenvolvimento do filme todo o acervo da obra de Octávio Dutra. “Mais de 500 músicas. Esse material tinha de ser catalogado, tinha de ser digitalizado e disponibilizado para o público”, frisa.

Com sua experiência de captador de recursos, o produtor foi atrás de parceiros na iniciativa privada. Não conseguiu. E é aí que uma coincidência, ou sincronicidade, como prefere nomear, surgiu para dar uma ajuda essencial à proposta.

O produtor não conhecia o Rumos, mas estava na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, justamente no dia em que acontecia no local um evento para falar do projeto do Itaú Cultural. “Eu entrei casualmente, mal sabia do programa. Estava lotado, encontrei uns amigos e pensei: já que estou aqui, vou dar uma olhadinha. Saí de lá com a certeza de que eu iria inscrever a iniciativa e de que seria contemplado. Não é uma coisa minha, mas mesmo com 15 mil inscritos, eu sempre tive a convicção de que o projeto seria selecionado pela importância da obra de Octávio Dutra para a música brasileira”, conta. Ele estava certo.

A proposta de Descobrindo o Acervo Musical de Octávio Dutra é restaurar, catalogar, digitalizar e disponibilizar gratuitamente o acervo do maestro. O projeto também prevê exposições itinerantes, exibição do filme Espia Só em espaços públicos e distribuição de DVDs, CDs, catálogos impressos e livros de partituras musicais para escolas e faculdades de música do país.

Após duas décadas como produtor cultural, cabe perguntar a Carlos Peralta: Você se arrepende da decisão de investir no cinema? “Ganho muito menos dinheiro do que ganhava no mercado financeiro, mas sou bem mais feliz. E isso por si só já me dá uma certeza: vou morrer fazendo isso.”

Veja o trailer de Espia Só.

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