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Rumos 2013-2014: Entre ciência e arte, a sensibilidade de Cecilia Cipriano

7 de agosto de 2014

obra: O Corte
selecionado: Cecilia Cipriano

 

Qual é o ponto comum entre cientistas e artistas? A atuação de ambos se aproxima no ato de criar, em que a sensibilidade é a característica fundamental. Quem afirma é Cecilia Cipriano, autora do projeto O Corte, selecionado no Rumos 2013-2014. Ela tem propriedade para fazer tal observação; afinal, já atuou nas duas áreas. Antes de se dedicar aos estudos artísticos, Cecilia teve uma carreira universitária como professora e pesquisadora do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O que a levou a fazer essa transição? Cecilia Cipriano admite que é difícil apontar o momento exato em que isso aconteceu, mas desconfia que a sensibilidade tenha algo a ver com a escolha. “Na origem do ato criador, o cientista não se diferencia do artista, pois ambos se utilizam de entidades físicas, que parecem servir de elementos do pensamento. São certos signos e imagens que podem ser reproduzidos e combinados com mais liberdade do que a linguagem formal”, explica.

De forma prática, a transição de uma área para a outra começou quando Cecilia passou a frequentar cursos livres na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage. E se consolidou com o ingresso dela no curso de artes visuais – escultura da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ.

 

O projeto artístico O Corte nasceu em decorrência dos protestos realizados por moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro. Há três anos, a prefeitura municipal iniciou obras de revitalização da zona portuária da cidade. “A controvérsia maior se deu com a marcação das casas que deveriam ser desocupadas para posterior demolição. Comovida, mobilizei-me para tentar transformar a experiência em linguagem poética”, relata.

A maneira que ela encontrou para registrar, criticar e promover uma discussão sobre o processo de transformação do espaço urbano que é observado hoje na cidade carioca foi exatamente O Corte. É a chamada gentrificação. “Esse fenômeno de mão única é também conhecido como ‘limpeza social’, pois transforma espaços urbanos degradados e ocupados por populações carentes de grandes metrópoles em espaços atraentes ao grande capital.”

A intervenção artística já foi realizada em uma das casas do Morro da Providência, chamada de casa-objeto e escolhida para representar as centenas de moradias que passam ou passaram pelo mesmo processo. “O impulso artístico foi de criar cortes nas paredes de alvenaria para descortinar o olhar e romper limites, convidando o observador a apurar o olhar. Propor uma confrontação brutal que ressalta o caráter destrutivo no processo de transformação urbana: abrir, liberar, provocar desorientação, romper os limites entre os espaços [interior e exterior, privado e público]”, destaca.

Toda a intervenção artística foi filmada ao longo de nove dias de trabalho contínuo e parte desse material bruto já foi editado e deu origem a um vídeo. Clique aqui para ver.

Agora, o projeto continua com uma exposição sobre o tema, que reunirá vídeos e outras ações e materiais produzidos com base na intervenção artística.

“A reflexão contínua sobre o processo de ver aponta para um mundo cujo sentido deve ser buscado ou construído por cada um de nós, por meio do olhar. É um exercício fundamental de olhar para o outro, pois somente assim podemos formar uma imagem do espaço no qual nos encontramos. É um processo contínuo que não se esgota, é um estado de questionamento permanente”, finaliza Cecilia.

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