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Rumos 2013-2014: Protocolo Elefante

23 de julho de 2015

obra: Protocolo Elefante
selecionado: Cena 11

Comemorando 20 anos de trajetória, a companhia de dança Cena 11 repensa sua forma de se organizar e existir como grupo no espetáculo Protocolo Elefante.

Segundo a companhia, o projeto parte dos mitos de que o elefante se afasta da manada para morrer, enquanto na realidade ele é impossibilitado de acompanhá-la, e de que ele só fica sozinho porque existe um “estar junto”. A partir disso, o grupo, que soma duas décadas de trabalho, questiona: por que precisamos continuar? É preciso finalizar essa trajetória agora? Para responder a essas perguntas, realiza uma pesquisa de autoconhecimento. A proposta é que, por meio do repensar a existência da companhia, o grupo faça uma análise sobre o que é a continuidade sob vestígio para além da experiência do Cena 11.

Alejandro Ahmed, diretor e um dos fundadores do Cena 11, explica que os questionamentos que movem esse trabalho tiveram início ao pensar a questão do tempo e do envelhecimento da companhia, que, apesar de ter alguns integrantes jovens, carrega em sua história um longo percurso como um todo. Ele conta ainda que, “de uns tempos para cá, estar em grupo dessa maneira não é algo tão atual. No entanto, para nossas questões estéticas, estar atual significa poder evoluir tecnicamente dentro de nossos preceitos. Nossa dança depende de um condicionamento técnico específico que necessita de convívio diário, não sendo possível simplesmente reunir um grupo de pessoas e criar”.

O diretor fala ainda das dificuldades de manter o grupo em Florianópolis (SC), cidade em que surgiu e onde quis continuar, e que agora vem questionar essa permanência no trabalho. Ele conta que, apesar de ter pensado em sair da capital catarinense, o grupo escolheu ficar e relembra que o lado positivo é a ausência de distrações observadas em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, resultando em uma espécie de isolamento positivo para o trabalho. No entanto, editais e políticas públicas precárias, com investimentos mais focados no turismo, foram pontos negativos da permanência em Florianópolis.

O projeto consiste em cinco etapas diferentes de trabalho, sendo elas: autorretrato e espelho, que já aconteceram, êxodo/solilóquio, reencontro/acontecimento e residência/criação, que serão realizadas nos próximos meses.

Sobre a etapa inicial, Ahmed conta que “o autorretrato é um lugar onde estamos nos perguntando quem somos e, de certa forma, reivindicando quais são as origens do que a gente faz”. A proposta, nesse momento, foi fazer uma análise e um autorretrato coletivo do que e de quem o grupo é quando junto, reunindo a companhia durante quatro meses no estúdio para elaborar uma forma de autorreferência como um todo. Ele diz ainda que essa é uma etapa constante, que se mantém o tempo inteiro, pois, para continuar existindo, você precisa saber quem é sempre, e não é possível restringir isso e carregar por toda a vida.

Em espelho, segunda etapa do trabalho, o Cena 11 se encontrou, em diferentes momentos, com três artistas – Eduardo Fukushima, Michele Moura e Wagner Schwartz –, dando a eles total liberdade de análise no trabalho do grupo. O diretor conta que a proposta nessa etapa foi “ver quem você é para aquele que não é você, perguntar a outra pessoa quem ela pensa que você é. Assim, ela pode tanto revelar coisas que estão adormecidas em sua percepção quanto retificar outras que você percebe”. Para isso, cada convidado aplicou o que quis durante dez dias na rotina normal da companhia, com conversas, ações performativas e pesquisas sobre o modo de treinamento do grupo.

O Cena 11, que tem seu trabalho quase completo voltado para a pesquisa, procurou pessoas que tivessem relação com sua área de investigação, muito ligada à questão do design de movimento e à construção do discurso com base nele. Ahmed conta que, apesar de os três artistas já terem sido selecionados pelo Rumos Dança, esse fator não influenciou na escolha deles para o projeto, mas reforça que a escolha não foi coincidência. “Percebemos assim a importância do Rumos, pois conhecemos os artistas pelo programa do qual estamos participando agora, formando-se uma rede que aconteceu naturalmente.”

O êxodo/solilóquio é a etapa que propõe uma aproximação da premissa do projeto, o afastamento do elefante. Nesse momento, os artistas, após analisarem sua existência atual como grupo, se isolam em diferentes partes do mundo para uma conversa consigo mesmos, em convivência com uma cultura e com uma rotina diferentes daquelas em grupo. A proposta é de autoinvestigação por meio de uma imersão solitária, para que assim venham à superfície os vestígios pessoais do que foi construído em grupo. Para essa etapa, cada membro escolheu aonde iria e levou a proposta para ser discutida em conjunto.

Na quarta etapa, reencontro/acontecimento, a companhia se reúne novamente como grupo para discutir o isolamento, reunindo os conflitos das mudanças irreversíveis. Será uma partilha de experiências aberta ao público, acontecendo uma única vez.

Finalizando o trabalho, na residência/criação, o grupo vai para Kyoto, no Japão. A ideia é que, por meio desse grande deslocamento cultural e geográfico, eles passem a repensar a existência da companhia, analisando o que aconteceu durante todo o processo para, assim, finalizar a obra. Nessa residência, o grupo encontrará artistas de lá para uma experiência parecida com a da etapa do espelho, com a troca de informações e experiências, porém com pessoas de uma cultura muito diferente daquela a que está acostumado. Sobre esse momento, Ahmed diz que existe a proposta ainda de revisitar alguns trabalhos já concluídos, para pensá-los a partir de questões diferentes. “Você vai envelhecendo e começa a ver as mesmas coisas de outra forma, então isso fica muito claro quando você traz um trabalho de volta em um momento diferente. Ele ao mesmo tempo se renova, o renova e renova a ideia de por que ele existiu naquela outra época.”

Sobre o que vem depois, com a conclusão das etapas, Ahmed diz que “o projeto se estabiliza em uma obra, que terá sua estreia em 2016. A ideia é que, se a gente descobrir que essa continuidade não tem relevância hoje ou que ela precisa existir de outra maneira, façamos a construção dessa outra maneira para dar essa resposta. E a resposta tem de estar ali dentro; nós não podemos ter medo de revelar que algo precisa acontecer de forma diferente ou que o Cena 11 não pode mais ter esse formato. Se precisarmos dissolver a companhia como a conhecemos hoje, o vestígio que isso deixará é muito mais potente do que seria se continuássemos num formato que talvez já seja precário, e nós precisamos ter a coragem de assumir isso”.

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