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Rumos 2013–2014 – Sim, Somos Bizarras!

1 de outubro de 2015

obra: Sim, Somos Bizarras!
selecionado: Ricardo Marinelli

Contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2013-2014, o projeto idealizado por Ricardo Marinelli surgiu do interesse de construir conexões entre as trajetórias de diversos artistas brasileiros que têm o gênero e a sexualidade como questões essenciais em seus trabalhos.

O fio condutor do projeto, encontrado já no nome, é afirmar e aceitar o “bizarro” como maneira de viver, fugindo dos padrões de corpo e comportamento impostos por nossa sociedade. Segundo Gustavo Bitencourt, que com Ricardo cuida da coordenação artística, o projeto trata de “ações que afirmam a existência desses corpos e pensamentos que, de alguma maneira, afrontam o que é visto como normal e aceitável e que, nesse espaço de convivência, se afirmam como criadores, cidadãos e pessoas”.

No trabalho, os artistas propagam o exercício de abraçar essa condição, vista como anormal e marginal, construindo com base nisso sua arte. Sua resistência e seu questionamento se iniciam no título, que, ironicamente, se apropria do discurso conservador que rotula os corpos dos artistas participantes deste projeto como bizarros. “Se ser bizarra é questionar a necessidade de adequar nossa forma de existir a um modelo de interesse branco-ocidental-cristão-machista-heterossexual-generificado, sim, somos bizarras e vamos muito bem, obrigada!”

O projeto conta com performances, mesas performáticas de debates e festas performativas para problematizar a violência de gênero, a lesbofobia, a homofobia e a transfobia, dividindo-se em três etapas, cada uma em uma cidade brasileira: Curitiba e Natal – fases já realizadas – e Porto Alegre – com início previsto para 6 de outubro de 2015.

Começando em Curitiba, o evento contou com a apresentação de duas performances de Ricardo, Jaula Cabaré e Família dos Batráquios, uma intervenção artística de Gustavo e o lançamento do livro Manifesto Contrassexual, de Paul B. Preciado (escritor transgênero), com uma conversa com o professor Jamil Cabral Sierra sobre o tema abordado na publicação.

Em seguida, o grupo visitou Natal, onde foi realizada uma mostra de dois dias com artistas da cidade. Gustavo conta que as ações dessa etapa ficaram centradas em um espaço chamado A Bo.ca, localizado na Ribeira, bairro que carrega uma história ligada à prostituição e à marginalidade, mas hoje abriga vários espaços culturais que resistem ali numa tentativa de revitalização da região.

A capital do Rio Grande do Norte contou com diversas ações, iniciando com uma mesa performática com André Masseno e Jota Mombaça, uma fala-performance de André na qual ele compartilhou com o público um pouco do processo de criação de seu solo Confete da Índia e uma ação de Jota em que o artista falou sobre seu conceito de monstruosidade. Em seguida, Erivelto Viana apresentou sua performance Transfigura #1 e André Masseno um trabalho que integra os desdobramentos de seu Confete da Índia.

O último dia de atividades “teve uma cara mais de show”, segundo Gustavo. Ele deu início ao evento com um número de comédia stand-up, por meio da personagem drag Dalvinha Brandão, e foi seguido por um número de dublagem de Cíntia Sapequara (personagem de Erivelto) e apresentações da Monstrx Erráticx e Solange Tô Aberta – projetos musicais de funk dos artistas Pêdra Costa e Jota Mombaça, respectivamente.

Para encerrar, o grupo apresentou uma transperformance que reuniu todos os artistas participantes das atividades nos encontros, além de Evaldo Pereira, Rodrigo Silbat, Raphael Dumaresq, Carol Piñeiro e Angelo Ayur. A performance contou com um trajeto em que o grupo mapeou e percorreu vários pontos significativos da cidade, desde a Ribeira até o Centro. Ao fim dessa atividade, foi organizada uma festa em parceria com o Gira Dança, espaço cultural situado na Ribeira, que acolheu os números de cabaré dos artistas em um evento que acontece periodicamente no espaço.

Gustavo acrescenta que em Porto Alegre os trabalhos não ficarão tão centralizados em um só lugar, passando por diversos espaços da cidade. Os artistas que se reunirão lá são o próprio Gustavo, Glamour Garcia, Veronica Valentino e Leonarda Glück. O encontro conta ainda com o produtor local Sandro Ka, que, além de participar da produção, é artista no projeto. Para finalizar, haverá também uma parceria com a festa Putêro, já conhecida na cidade, onde o grupo apresentará uma edição especial dedicada ao projeto.

Sobre o que é esperado desse trabalho, Gustavo reforça que o foco não é o resultado. Ele conta que “o mais importante são as relações que se estabelecem e que continuam acontecendo”. Um desdobramento importante do projeto foi a criação de um grupo fechado no Facebook com todos os artistas que participaram e participarão dos encontros, visando à manutenção dessas relações, à criação de diálogos e à troca de referências. Outro destaque levantado por Gustavo é que grande parte dos artistas de Sim, Somos Bizarr@s! não mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo, grandes capitais do país, o que aumenta o interesse em fortalecer essas redes de trabalho e em possibilitar o diálogo entre as cenas artísticas que estão fora desses centros.

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