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Rumos 2015-2016: Aldeia global

9 de fevereiro de 2017

por Adriana Ferreira Silva

Terminar o dia ouvindo histórias de mulheres que se transformam em seres fantásticos, de animais com poderes mágicos e outros contos da floresta era uma tradição entre os membros do povo Xavante que vivem na aldeia Etenhiritipá, aos pés da Serra do Roncador, em Mato Grosso. Mas essa rotina, que colocava os jovens em torno de seus pais e avós, atentos às narrativas que mais tarde eles próprios iriam reproduzir, se perdeu com a chegada da luz elétrica e, consequentemente, da televisão e de seus viciantes enredos de filmes e novelas.

Foi para evitar o desaparecimento desse legado da tradição oral que nasceu o projeto Histórias da Tradição, que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural 2015-2016. Idealizada pela jornalista Angela Pappiani e por suas filhas, a cientista social Inimá Lacerda e a historiadora Maíra Lacerda, trio por trás da produtora Ikorê, a iniciativa visa realizar um registro multimídia de relatos indígenas – séries de fotos, áudios e vídeos dos povos Xavante, de Mato Grosso, e Karajá, de Tocantins. Além de estar disponível no site historiasdatradicao.org, o material compõe os livros Ynyxiwè, que Trouxe o Sol e Outras Histórias do Povo Karajá e Aihö’ubuni Wasu’u o Lobo Guará e Outras Histórias do Povo Xavante; ambos lançados em 2014 com patrocínio da Petrobras.

Agora, com o apoio do Rumos, a equipe envereda pela região do Alto Xingu (MS) para realizar a terceira etapa do trabalho com o povo Mehinako. A previsão é de que o conteúdo fique pronto até o fim de 2017.

Em sua atual fase, apoiada pelo Rumos, o projeto Histórias da Tradição visa garantir a sobrevivência da cultura do povo Mehinako | Fotos: Helio Nobre

Em sua atual fase, apoiada pelo Rumos, o projeto Histórias da Tradição visa garantir a sobrevivência da cultura do povo Mehinako | Fotos: Helio Nobre

“Há quase 30 anos, o velho Wabuá Xavante disse que eu deveria ajudá-los a mostrar sua cultura para que fossem conhecidos e respeitados pelos warazu, como os Xavantes se referem aos brancos”, lembra Angela. “Segundo ele, ‘ninguém respeita aquilo que não conhece’. Na mídia, as notícias sobre as aldeias são em geral negativas. Não se fala sobre a beleza de sua arte e de seu pensamento”, acredita ela.

A jornalista – que foi casada com o militante e ambientalista Ailton Krenak, um dos mais importantes líderes indígenas do país – vem trabalhando com esses povos ao longo das últimas três décadas. Entre as atividades que desenvolveu estão a direção e produção de “Programa de Índio”, apresentado por Ailton Krenak e veiculado pela Rádio USP, de 1985 a 1991, e “Aldeias Sonoras”, transmitido pela Rádio Cultura, de 2012 a 2014.

“Quando os indígenas se organizaram, nos anos 1980, minha casa se transformou num quartel general”, relembra. “Minhas duas filhas sempre assumiram a identidade Krenak e convivem com suas tradições e sua espiritualidade”, descreve Angela. Tanto Inimá quanto Maíra atuaram no Instituto de Tradições Indígenas e no Núcleo de Cultura Indígena.

A jornalista reitera, no entanto, que não se trata de um projeto familiar. “Nossa equipe de colaboradores é formada por cerca de 20 pessoas, entre fotógrafos, videomakers, designers, produtores e engenheiros de áudio, indígenas e não indígenas”, diz ela.

Em campo, a trupe Ikorê atua como verdadeiros guerreiros. Para chegar até os Mehinako, por exemplo, são dois dias de viagem por ar, terra e água, finalizando com uma caminhada de aproximadamente 40 minutos, que leva até a região do Alto Xingu, onde vivem as cerca de 200 pessoas que formam essa etnia. Na temporada de chuvas, que começa em outubro, a cheia do rio inviabiliza o percurso e não é possível chegar até eles.

Localizada na região do Alto Xingu (MS), a aldeia dos Mehinaku se torna inacessível na temporada de chuvas. Foto: Helio Nobre

Localizada na região do Alto Xingu (MS), a aldeia dos Mehinaku se torna inacessível na temporada de chuvas. Foto: Helio Nobre

De frente para a câmera

Uma vez lá, tudo é feito em sintonia com os indígenas, que escolhem as histórias que serão narradas em texto, áudio e vídeo. São preservados todos os sons do entorno. A atividade, explica Angela, se transforma numa festa, com a participação de jovens, mulheres e crianças. “Quando termina deixa saudades.”

No livro, cujas ilustrações são feitas pelos indígenas, os contos são bilíngues, com tradução para o português, num sistema difícil e delicado para que as histórias não percam as diferentes interpretações do idioma na qual são descritas – auwê (Xavantes), inyrybe (Karajás) e mehinako. Prontas, as obras são vendidas em livrarias e também distribuídas em escolas da região, ainda que as narrativas não sejam necessariamente infantis. “É importante que os estudantes tenham acesso a esse conteúdo porque a alfabetização costuma chegar às aldeias de forma agressiva, com um material didático alheio à cultural local”, explica Angela.

Ao final, Histórias da Tradição cumpre a missão de espalhar a memória entre os warazu e de mantê-la viva entre os indígenas. “Esse registro valoriza os mais velhos. É importante ouvi-los enquanto estão vivos.” Dos Xavantes, diz Angela, foram mais de 50 relatos. “E eles querem fazer uma segunda edição com o que ficou de fora.”

Foto: Helio Nobre

Foto: Helio Nobre

A equipe agora seleciona o material em parceria com os Mehinako. Uma viagem de pré-produção foi realizada em julho de 2016 (a comunicação segue via Facebook). No roteiro, há temas como a criação do mundo, o surgimento dos Mehinako e a importância do lugar onde vivem. Todos, segundo Angela, podem ser interpretados de diferentes maneiras, com vários níveis filosóficos de leitura. “Quando eles começam a falar, é sempre uma surpresa. É um mundo que vai se revelando às vezes até para a própria comunidade.”

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