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Rumos 2015-2016: “Antinomies I” – a peça de mil faces

19 de dezembro de 2016

por Jullyanna Salles

Antes de começar a explicar a dinâmica da peça “Antinomies”, composta por Rogério Duprat, o músico Itamar Vidal deixa claro: “Essa peça tem uma ambiguidade natural. É uma coisa muito organizada e bem pensada e ao mesmo tempo muito solta, livre e cheia de interação com o público”. Também compositor e arranjador, Vidal pretende – em seu projeto contemplado pelo programa Rumos 2015-2016 – executar e gravar a obra pela primeira vez.

Criada em 1962, a peça foi perdida por seu compositor em um metrô europeu. Trinta e duas esferas junto de triângulos em diferentes angulações formam uma partitura gráfica que é objeto de ódio e amor para Duprat. Vidal conta que o músico chegou a declarar alívio ao ter perdido o material, pois assim não precisaria mostrá-lo, mas que em outros momentos ele se gabava da composição e deixava claro que tinha grande admiração por ela.

O responsável por reencontrar a partitura é o também músico Ricardo Stuani, ao pesquisar o Grupo Música Nova, formado por Duprat, Damiano Cozzela, Julio Medaglia, Gilberto Mendes e Willy Correia de Oliveira. Quando Stuani mostrou o achado a Vidal, os dois decidiram buscar apoio para montar a peça, que nunca havia sido executada.

Quem foi Rogério Duprat

Nascido no Rio de Janeiro, Duprat mudou-se para a capital paulista ainda criança e, aos 17 anos, passou a receber uma educação musical formal. Fundou a Orquestra de Câmara de São Paulo e a Angelicum do Brasil e impulsionou uma nova visão sobre música com sua postura e suas composições. Vidal explica: “O irmão dele, Régis Duprat, diz que ele não tinha temperamento para ficar parado. É algo que vemos em certos compositores, uma inquietação. Ele sente uma ânsia de mudar, de trabalhar no mercado”.

Rogério Duprat morreu em 26 de outubro de 2006, aos 74 anos

Rogério Duprat morreu em 26 de outubro de 2006, aos 74 anos

Diferentemente do movimento de compositores de sua época, Rogério Duprat não se limitava ao academicismo e ao tradicional. Com o intuito de atingir um público amplo, explorou a música popular e trabalhou com Chico Buarque, Gilberto Gil, Os Mutantes e outros grandes nomes do período. Ao fazer o arranjo de “Domingo no Parque”, por exemplo, inseriu elementos incomuns, como ruídos, gravações e sobreposições. Dessa forma, ambientou a canção, fazendo uma produção com tendências audiovisuais.

A escrita grafista

Essa estética que explora imagens na música – comum nos anos 1960 – se amplia em “Antinomies I”. Nas partituras tradicionais, vários códigos e expressões, como com brio e andante, foram adquirindo um significado cristalizado entre os músicos, devido aos anos de prática musical ensinada em escolas e conservatórios.

Composições modernas como essas do Grupo Música Nova foram escritas em um período no qual a linguagem estava se modificando. “Duprat e outros compositores começam a perceber que a grafia musical, cartesiana, não vinha dando conta das ideias que eles estavam tendo – a densidade, as relações com outras mídias e referências”, conta Vidal.

Surgiram então elementos distintos nas partituras. Em vez de expressões clássicas, o compositor, por exemplo, desenhou um labirinto ou uma espiral nas instruções da peça, orientando o instrumentista a improvisar ou tocar de forma não tradicional. Esse tipo de intervenção aproxima a grafia de músicas das artes plásticas e visuais.

As 32 circunferências

A partitura de “Antinomies I” explora as artes gráficas a ponto de ser considerada uma obra de arte. São 32 unidades estruturais de música escritas sem pauta, ou seja, sem o conjunto de cinco linhas que suportam as notas, as durações e os compassos. Dentro dos círculos, angulações traduzem a proporção de tempo de cada instrumento.

Antinomies; Rogério Duprat; Itamar Vidal

Uma das circunferências que formam a partitura

Uma das orientações frequentes da peça é feita com a letra T, que significa “transformar”. Essa instrução exige que o músico faça alguma intervenção livre na hora de tocar. “Isso pode ser um vibrato, um ruído junto com a nota, bater com a mão no instrumento ou qualquer coisa que não seja a forma tradicional. Esses recursos já eram utilizados na época para romper com os padrões clássicos; são chamados de técnicas expandidas ou estendidas”, fala Vidal.

Duprat prevê algumas ordens para a execução das 32 circunferências, mas elas podem funcionar em outras, ressignificando o todo. A única sequência que não deve ser seguida é a linear. A formação da orquestra também é distinta. Composta para cerca de 15 músicos, a peça possui três grupos de quatro instrumentistas e um ou mais percussionistas, além do maestro – chamado por Duprat de diretor, reforçando ainda mais a relação com a dramaturgia. Vidal conta que a percussão não tem símbolo específico, podendo tocar a qualquer momento. Os quartetos possuem afinações necessariamente diferentes, o que vai de encontro a mais um dos conceitos de execução clássica de música.

A revolução

Além de tudo o que já foi explicado sobre o conceito revolucionário da peça, existem alguns elementos centrais e conceituais que deixam as intenções de Duprat mais claras. Segundo Vidal, “essa é uma peça que ele quer que seja motivo de discussão. Não é possível ser feita sem uma grande conversa entre os músicos. O maestro não pode ditar todas as regras, muita coisa está a cargo do instrumentista”. A leitura das orientações exige uma interpretação relativa; por isso, antes de tocar todos precisam entrar em consenso.

Outro fator relevante é a impossibilidade de a peça ser executada duas vezes exatamente iguais. As transformações de cada músico, a viabilidade de alteração na ordem das estruturas, a flexibilidade no número de instrumentistas ou mesmo a liberdade plena da percussão fazem de “Antinomies I” uma obra de inúmeras possibilidades e a tiram de qualquer padrão estático.

Por último – e conversando diretamente com as características ressaltadas acima –, a composição de Duprat está em processo de construção. É possível chamá-lo de meta-autor; afinal, tanto o diretor quanto os instrumentistas têm um papel na montagem da obra que vai além da simples execução.

A primeira execução

Para montar a peça, Itamar Vidal e Ricardo Stuani estudaram o material por anos. Nesse período, exploraram o potencial de adaptação a novas tecnologias que “Antinomies I” naturalmente possui. As circunferências foram transformadas em gráficos – e essa simplificação favorece não só os músicos, mas também o público.

“Se fosse em 1962, logo na criação da peça, os músicos precisariam estar com relógio, calculadora e seu instrumento para conseguir tocar. Seria muito difícil”, explica Vidal. Além disso, se não fossem exibidas, as esferas seriam basicamente um código entre o diretor e a orquestra. A equipe pretende projetar os desenhos para que a plateia acompanhe a execução da obra, promovendo uma interação.

O projeto também prevê um suporte na internet para “Antinomies I”. Como a peça será gravada, o intuito é que as estruturas fiquem disponíveis em um site com certo grau de interatividade com o usuário, permitindo, por exemplo, a alteração da sequência.

Para tocar a obra, Vidal buscou um time de grandes instrumentistas, entre eles o próprio Ricardo Stuani e Roberto Gava – ambos já estudam o legado de Duprat e conferem uma sustentação estética e histórica à montagem da peça. Atualmente, as gravações das esferas estão sendo finalizadas e a plataforma on-line está em processo de criação. A execução de estreia da obra está programada para o primeiro semestre de 2017, e a complexidade de “Antinomies I”, mesmo depois de tanta pesquisa, ainda é algo a ser conferido ao vivo. “Nós já estudamos muito sobre ela; não é algo que eu queria amarrar. Ninguém nunca tocou, é uma surpresa”, conclui Vidal.

Veja o teaser do espetáculo aqui.

 

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