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Rumos 2015-2016: Histórias que Andei – Mestre do coco e Patrimônio Vivo de Pernambuco, Galo Preto lança seu primeiro disco aos 82 anos

12 de dezembro de 2016

Por Cristiane Batista

Cantador, repentista, coquista e embolador reconhecido em 2011 como Patrimônio Vivo de Pernambuco, Tomaz de Aquino Leão, o Galo Preto, comemora aos 82 anos – 72 de carreira – o lançamento de seu primeiro registro fonográfico, Histórias que Andei, álbum contemplado pelo programa Rumos 2015-2016.

Galo Preto tem 82 anos de vida e 72 anos de carreira. Foto: divulgação

Galo Preto tem 82 anos de vida e 72 anos de carreira. Foto: Eli D’Amore

Histórias e causos não faltam ao músico, nascido às 11h30 de 12 de março de 1934 no quilombo Rainha Isabel, em Bom Conselho de Papacaça, interior de Pernambuco. “No mesmo dia de Recife e Olinda, mas só me registraram em 10 de outubro, por isso, não tenho como provar”, lamenta.

Não foi a primeira peça que o destino lhe pregou. Caçula dos oito filhos de Celestina Cirilo da Silva, Galo Preto é fruto de uma visita do pai, que estava separado da mãe há cinco anos, e, como contava sua tia Emília, foi gerado sob um pé de laranjeira. Segundo ela, logo após seu nascimento, os irmãos o levaram para o mato e colocaram o bebê para mamar em uma cabra. “Então, sou parente de bode, né?”, brinca.

O apelido vem da infância, dizem que por apartar brigas, mas ele não confirma. De uma época em que tudo era motivo para dançar coco, de casamentos a idas e vindas de viagem de pessoas da comunidade, o menino cresceu ouvindo e participando de animadas rodas em que todos cantavam e desafiavam uns aos outros com versos de improviso. Vitrola era coisa para gente com dinheiro, mas, sempre que podia, Galo Preto dava um jeito de ouvir boleros, sambas-canção, valsas, música sacra e diferentes estilos de música nordestina – sua base e inspiração.

Acervo de composições de Galo Preto conta com mais de 300 letras que passeiam por sambas, cocos de roda, emboladas e forrós. Foto: divulgação

Acervo de composições de Galo Preto conta com mais de 300 letras que passeiam por sambas,
cocos de roda, emboladas e forrós. Foto: Eli D’Amore

Aos 9 anos, em Garanhuns, ele compôs “meio sem querer” seu primeiro coco, “A Pinta”, ao ver a mãe matar uma galinha para dar de comer à família. “Nunca vi uma pinta como aquela”, diz ele. “Minha mãe matou a pinta para fazer a cabidela.” Com 12, já no Recife, ajudando o irmão a vender batata-inglesa na rua, criou o pregão: “Batata-inglesa! Quer hoje, freguesa? É uma beleza, não dá pra pobreza, só dá pra riqueza. Batata-inglesa!”.

A trajetória profissional

A voz, o estilo e o suingue do garoto chamaram a atenção do promotor de uma rádio local, que o desafiou a fazer outras rimas. A convite da rádio, Galo Preto entrou em uma caravana e, de ônibus, foi de Pernambuco a Maranhão. Na volta, em vez do cachê prometido, tomou um calote. “Fazer o quê? Peguei meu pandeirinho e fui viver minha vida. Cantava em eventos de família, hotéis, bares e cruzeiros que passavam pelo Recife por 500 réis. Vi as casas grandes da praia de Boa Viagem serem substituídas pelos prédios”, conta.

Em 1967, num hotel no Rio de Janeiro, tocou ao lado de Nelson Cavaquinho, Jair Rodrigues, Nara Leão e do grupo MPB4. Entre as décadas de 1970 e 1980, apresentou-se em programas de TV populares, como Cassino do Chacrinha, Som Brasil e Flávio Cavalcanti. Em cena, além de por sua arte, destacava-se pela elegância com que desfilava, paramentado com calça, camisa, sapato, paletó e chapéu. “Troco as penas, mas só me sinto arrumado quando estou de branco”, diz ele.

O álbum Histórias que Andei também terá show de lançamento em São Paulo, em 17 de dezembro, na Sala Itaú Cultural. Foto: divulgação

O álbum Histórias que Andei também terá show de lançamento em São Paulo,
em 17 de dezembro, na Sala Itaú Cultural. Foto: Eli D’Amore

Charmoso, riso largo, pai de sete homens e sete mulheres, tem fama de namorador, mas nega: “Se gostava de alguém, conhecia, conquistava e namorava. Naquele tempo, morria gente por causa de virgindade. Preconceito, moral… isso é fruto do atraso, né? Mas eu só desvirginei a moça com quem me casei”.

Em 1992, uma calúnia o levou à cadeia. Acusaram Galo Preto de ser um matador do “esquadrão da morte” local. Ele ficou dois anos preso, até provar sua inocência. Na volta para casa, vieram a depressão e os 11 anos de anonimato, período em que acharam que ele tivesse morrido.

Passada a má fase, o triunfo. Galo Preto foi convidado para tocar em seu reduto, o eixo Recife-Olinda, onde fez fama. Emocionado, sem saber muito o que ia dizer, subiu ao palco e provou o talento que o distingue de outros cantadores, violeiros, emboladores e coquistas, improvisando na hora um: “Alô Recife e Olinda, Recife e Olinda, alô. Avisa Recife e Olinda, que o Galo Preto voltou!”.

De novo à ativa, Galo Preto passou a participar de coletâneas da cultura popular e de outros artistas até conseguir, com a ajuda do amigo e produtor Hugo Nascimento, gravar seu primeiro CD próprio. Difícil foi pinçar 12 faixas em um acervo que hoje conta com mais de 300 letras que passeiam por sambas, cocos de roda, emboladas e forrós. Como destaques, além do clássico A Pinta, há Bate o Pandeiro, Boi Ladrão, Coco de Mandinga e Pernambucana.

Ao lado de uma potente banda de apoio com oito músicos, o trabalho ganhou avant-première no Teatro Santa Isabel, no Recife, escolhido por ele “para que o coco entrasse na casa do luxo”. Empolgou também 11 artistas audiovisuais, que registraram o concerto para dar de presente ao mestre. Mesmo com ingressos gratuitos, o sucesso da apresentação surpreendeu, com lotação máxima de 570 pessoas em plena quarta-feira. O álbum Histórias que Andei também terá show de lançamento em São Paulo, em 17 de dezembro, na Sala Itaú Cultural. “Chegou em tempo! Agora não vou parar mais!”, promete.

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