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Rumos 2015-2016: Lotação Máxima

10 de julho de 2017

Por Fernanda Castello Branco

Depois de 20 anos morando em São Paulo, e se locomovendo na capital paulista de carro para todos os lugares, a mineira Constança Guimarães tomou duas decisões: voltar para Belo Horizonte e vender o carro. Há quatro anos ela vive novamente na terra natal e faz todos os seus trajetos de ônibus ou a pé.

Foi dessa experiência cotidiana que ela criou o projeto inicialmente batizado de Lotação Máxima: 39 Histórias de Coletivos, selecionado no Rumos Itaú Cultural 2015-2016. O produto final é um livro, A Sereia da Contorno e Outras Histórias, título alusivo à avenida que circunda a região central da capital mineira, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2017. Misturando ficção a histórias que ouviu em inúmeras linhas de ônibus, Constança criou contos que voltarão para o cenário onde começaram a nascer, já que, a princípio, o livro será distribuído em garagens para os profissionais dos coletivos.

>> Leia “É Campeã!”, um dos 25 contos que integram A Sereia da Contorno e Outras Histórias.

Conversamos com Constança sobre o que mudou no projeto original e sobre o processo de criação dele.

Como surgiu a ideia do projeto?

Eu e minha filha só andamos de ônibus ou a pé. Defendo muito que o ônibus dá uma autonomia para o cidadão. O carro parece que dá essa autonomia, mas na verdade ele não dá. Tem de ter o carro, investir nele, tem de conseguir estacionar. Morei 20 anos em São Paulo e passei esse tempo me deslocando de carro para todos os lados. Quando voltei para Belo Horizonte, vendi o carro, já fazendo essa aposta de que poderia me deslocar de ônibus. De ônibus ou a pé, você vai e pronto. Preciso confessar, no entanto, que tenho uma relação muito privilegiada. Moro não muito longe do meu trabalho, pego um ônibus só, não enfrento os horários de pico. Não tenho uma relação tensa com o ônibus e acho que ele é um transporte coletivo com políticas públicas pouco eficazes, mesmo sendo um universo muito rico: histórias boas, histórias tristes, gente com todos os humores e espíritos. Há também os profissionais que atendem a gente nos ônibus, que são muito desvalorizados. Todo mundo adora falar mal de motorista e cobrador, mas ninguém se coloca no lugar deles. Eles podem ser pessoas incríveis, mas estão ali em uma exaustão, sendo maltratados. Fiquei imaginando uma forma em que eu pudesse, por meio da literatura, transcrever esse ambiente com outro olhar, um olhar mais generoso. E devolver isso para eles.

Em que etapa do projeto você está?

O livro deve ficar pronto no final de julho. Ele vai ter tiragem inicial de mil exemplares, que serão distribuídos gratuitamente para motoristas e cobradores. Uma parte vai ser distribuída nas próprias garagens, nos horários de fluxo e troca de turno, e vai ter também um lançamento ao ar livre, em um lugar público que ainda estamos definindo.

O livro reúne quantas histórias? Você já coletou todas?

Ele vai se chamar A Sereia da Contorno e Outras Histórias, já está todo escrito e vai ter dez ilustrações feitas pelo artista plástico mineiro Wallison Gontijo. Todas as histórias, em algum momento, foram apreendidas dentro do ônibus ou no ponto. Algumas têm um pouco mais de ficção, outras têm mais da realidade, dependendo do tanto que consegui acompanhar de cada uma. Alguns textos juntam duas histórias. Fiquei sistematicamente três meses coletando histórias, mas depois, como eu ando de ônibus no meu dia a dia, apareceu mais coisa.

Uma das ilustrações que o artista Wallison Gontijo fez para o livro de Constança

Uma das ilustrações que o artista Wallison Gontijo fez para o livro de Constança

O que mudou da concepção inicial do projeto?

Eu pensava em escrever 39 histórias, que é o número de passageiros sentados, mas diminuí para 25. Duas pessoas fizeram a leitura crítica e uma fez a revisão. Fazendo um trocadilho, foi mesmo um processo “coletivo”. Chegamos à conclusão que os textos começaram a ficar repetitivos. Alguns também ficaram mais longos do que pensei inicialmente. Eu tinha em mente que as histórias seriam curtas, mas elas tinham fôlego e não deu para evitar.

Você gravava as histórias? Abordava as pessoas para uma espécie de entrevista ou apenas atuava como ouvinte camuflada no meio dos demais passageiros?

Não conversei com ninguém e nem tomei nota de nada na hora em que estava ouvindo as histórias. Quando eu chegava em casa ou no trabalho, tomava algumas notas. Porque não é um texto jornalístico nem um documentário. São histórias de ficção inspiradas naquele universo. A história que deu nome ao livro é inspirada em uma cobradora que vende cosméticos em uma bolsa de velcro que ela pendura do lado da cadeira. Ela fazia o maior sucesso, a abordagem dela era incrível. Peguei ônibus com ela três vezes, no mesmo horário, prestei bastante atenção, mas apenas me inspirei. Quando era história de passageiros que desciam no meio da história, eu inventava o resto. Mas como andei muito e fiz viagens só para isso, se a história de um passageiro me interessava muito e ele não descesse logo, eu poderia ficar até que ele descesse. Visitei linhas que não fazem parte do meu cotidiano especialmente para o projeto, porque precisava de um universo maior.

Além da história da cobradora que vendia cosméticos, alguma outra foi marcante para você?

Tem a história de um sujeito muito guloso que fingia que queria namorar as moças da garagem, mas o que ele queria mesmo era almoçar ou jantar na casa delas. Uma cobradora caiu no golpe dele e estava furiosa, tinha feito estrogonofe para ele e nada de ele assumir o namoro. Ele tinha uma caderneta onde dava notas para as comidas. Aumentei e coloquei um romance no meio, mas essa personagem existiu. Fiquei curiosíssima. A história é incrível. Ele usava o poder de sedução dele apenas porque queria comida boa.

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