Não há como escapar: seja você quem for, a vida, traiçoeira como é, não dá trégua – num piscar, muda tudo, altera até o mais conservador dos seres. Neste Fim de Semana em Família, a programação volta-se para manifestações artísticas que, de modos distintos, aguçam sensibilidade atenta àquilo que se modifica: a oficina com base na obra Pablo e o Ciclo da Água estimula as crianças a pensar sobre os ciclos naturais do planeta; já o espetáculo Família Formigueiro traz ao palco a aventura de três amigos que, juntos, se colocam diante da pluralidade do termo “família”.

O despertar pela beleza

Neve que vira mar, mar que vira nuvem, nuvem que vira neve. Sequência assim, que sempre recomeça, marca o tema de Pablo e o Ciclo da Água, escrito por Raquel Ribeiro e cujas ilustrações são de Andréia Vieira. O livro, título da Editora Bambolê, apresenta personagens que passam por mudanças físicas, e, no posto de protagonista, imperam a natureza e suas metamorfoses próprias.

Tamanha imbricação de fases é mote para uma inquietude saudável no leitor, sensação que fascinou Andréia e a fez dar contornos à história. “Vivemos nos desmanchando, nos reerguendo, nos reconstruindo e, por vezes, com a ajuda de outros semelhantes”, reflete a desenhista.

As figuras elaboradas por ela exibem cuidado no que tange à recepção do público infantil: não há, por exemplo, criaturas enfeitadas com elementos que possam poluir a biocenose circundante – cachecol ou chapéu. Os adereços têm raiz em componentes que carregam a característica da reabsorção inata: folhas, pedrinhas, barras de chocolate. A região da Sierra Nevada, na Espanha, também foi um ponto de preocupação, já que o cenário da narrativa, aliado a uma boa dose de poesia, carrega substância particular formada por brancura sem fim, montanhas que embaralham a vista e gencianas azuis, flores de tom firme, vibrante.

Imbuída de sua experiência criativa, bem como de um querer contribuir na estruturação de uma mentalidade ecossistêmica naqueles que nasceram há pouco, a ilustradora preparou uma oficina, em que orienta os pequenos a fazer bonecos como Pablo. Para que o projeto tomasse concretude, a mediadora optou pelo uso de massinha, produto que remete à meninice de pronto e, concomitantemente, possui um caráter efêmero. “Essa ferramenta pode ser moldada e desmoldada. Muitas crianças sentem prazer em desmanchar os feitos, especialmente as menores, o que é para os adultos uma lição linda de desapego e liberdade”, pondera Andréia. Além de massinha, galhos e sementes são itens dessa empreitada, os quais se ligam ao estofo ambiental do trabalho.

O despertar pela diversidade

Responda rápido: o que é família? Definição fechada, sem brecha, não veste palavra que pretende significar mil e uma alternativas. Encontra-se uma possível resposta aqui, outra ali, mais uma adiante – mas, na verdade, elo afetivo não é coisa que se coloque em caixinhas de julgamento. O desassossego com esse tópico surgiu em Mariana Vaz há quase dez anos, em meados de 2009. O estopim se deu devido a adesivos colados em traseiras de carros. Ao observar as figuras presas em automóveis, a diretora teatral começou a questionar tais composições: pai, mãe, filhinhos. Fim. Sem espaço para opções diferentes, sem respiro em uma pretensa regra.

O incômodo, então, instalou-se em Mariana. Ocupar local desconfortável é premissa para a arte e, desse modo, o rebuliço interior desabrochou em atitude: passou a fotografar veículos que sustentavam as etiquetas, mesmo que, por ora, não soubesse o que sairia disso. Registrou, registrou. Até que não quis mais ficar sozinha com esse martelar e dividiu a tese com o pOleirO do bandO, grupo de teatro do qual é integrante. O repartir, discutido e rediscutido, gerou a peça Família Formigueiro, o primeiro trabalho infantojuvenil da equipe.
 

Espetáculo Família Formigueiro | foto: Cac Bernardes

O espetáculo exibe as peripécias de Bica, Dedé e Fê, trio que reside em um mesmo condomínio. Por causa de uma tarefa escolar, eles percorrem uma morada de formigas e, nesse subterrâneo, são expostos à multiplicidade de arranjos familiares. “Se estamos perturbados com valores colocados socialmente, precisamos conversar com as crianças. Procuramos montar algo não dogmático, não cheio de verdades, mas, sim, uma oportunidade de diálogo”, diz Marina, que assina o texto. Os atores participaram de uma residência na Escola Municipal de Iniciação Artística (Emia), onde entrevistaram meninos e meninas e descobriram o que pensam acerca da pergunta-eixo.

O toque brincante do contexto também se liga ao todo: será que um formigueiro é uma família? A interrogação amplia-se, abre-se para que os pequenos percebam que a diversidade de combinações unidas por afeto é enorme. “Queremos que as crianças de agora cresçam não fechadas em ideias unívocas. Pelo contrário”, pontua a diretora.

Homenageada do Cantinho

O Fim de Semana em Família oferece o Cantinho da Leitura, que em maio homenageia a escritora Ana Maria Machado. No espaço, as crianças têm acesso à Feirinha de Troca, onde os visitantes podem trocar um livro, um gibi ou um DVD em bom estado por outro da nossa estante, e a obras infantojuvenis. Neste mês, metade delas são da autora homenageada, com destaque para as obras O Elfo e a Sereia e O Gato Massamê e Aquilo que Ele Vê. Os dois espaços ficam no piso térreo do Itaú Cultural e funcionam das 11h às 16h30.


Oficina de Massinha com base no livro Pablo e o Ciclo da Água [acessível em Libras]
sábado 12 e domingo 13 de maio de 2018
às 14h
[duração aproximada: 90 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 30 crianças com 1 acompanhante cada uma

Entrada gratuita [inscrição com meia hora de antecedência]

[livre para todos os públicos]

Espetáculo Família Formigueiro [acessível em Libras]
sábado 12 e domingo 13 de maio de 2018
às 16h
[duração aproximada: 60 minutos]
Sala Multiuso (piso 2) – 70 lugares

Entrada gratuita [distribuição de ingressos a partir das 14h]

[livre para todos os públicos]

Clique aqui para saber mais sobre a distribuição de ingressos 

Cantinho da Leitura e Feirinha de Troca
sábado 12 e domingo 13 de maio de 2018
das 11h30 às 16h30
piso térreo

Entrada gratuita

[livre para todos os públicos]

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