O bairro da Ribeira é uma importante região de Natal (RN). Suas ruas constituem parte do centro histórico da capital potiguar, tombado como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). É nessa região, entre os muitos estabelecimentos que promovem programações culturais, que está instalado o Espaço Cultural Casa da Ribeira. Inaugurado em 2001, o local tem um importante papel na cidade, na medida em que recebe – como espaço – e fomenta – como instituição – a população artística regional.

Para conhecer melhor esse relevante projeto, conversamos com Gustavo Wanderley, um dos fundadores do espaço e atual diretor de planejamento e projetos. Nesta conversa, ele fala sobre sua trajetória na área cultural e sobre os desafios de gerir um espaço como a Casa da Ribeira.

Gustavo Wanderley (Foto: acervo pessoal)

Gustavo Wanderley é curador em artes visuais e arte-educação. Formado em Psicologia (UFRN) e especialista em Gestão Cultural (Universitat de Girona/Itaú Cultural) e Design de Serviços (EISE/SP), desenvolve desde 1999 projetos nas áreas das artes visuais, artes cênicas e educação. É diretor da Casa da Ribeira, foi secretário adjunto de Cultura do Natal/RN e diretor de Informação e Comunicação do Centro Cultural São Paulo.

Fale um pouco de sua trajetória até se tornar gestor de um local como a Casa da Ribeira.

Estou há quase 20 anos produzindo e trabalhando com cultura. Comecei como ator em um grupo chamado Clowns de Shakespeare. Um dos nossos objetivos era construir um teatro na cidade de Natal para montar e apresentar nossos espetáculos e oferecê-lo também a outros artistas. Éramos 11 pessoas que atuavam em várias áreas, como publicidade e jornalismo; eu mesmo sou formado em psicologia. Foi esse grupo que projetou o espaço cultural denominado Casa da Ribeira.

Fachada do prédio que abriga a Casa da Ribeira (Foto: divulgação)

A instituição está localizada na Ribeira, bairro histórico que mais guardou a memória do patrimônio material da cidade. Para construir esse espaço, nós precisamos passar por um processo de profissionalização da equipe em várias áreas, como na parte de marketing cultural, leis de incentivo e captação de recursos. A partir desse processo, fiquei muito à frente da área de gestão do grupo.

Não foi simples, mas depois de muita luta conseguimos ter um espaço, que é sediado num casarão de 1911 e comporta uma sala de exposições, um teatro e um café. Desde então temos trabalhado com o foco no acesso democrático de toda a programação do espaço cultural e no desenvolvimento da comunidade local por meio da arte. 

Vocês estão gerindo, há mais de 20 anos, um espaço independente que precisa de recursos para manter os projetos. Quais foram os desafios?

No início do projeto, nós recorremos às leis de incentivo à cultura para a captação de recursos necessários para a construção do espaço. Nesse processo, percebemos o que é a realidade do Brasil até os dias atuais: há uma grande concentração de investimento nas cidades que pertencem aos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foi só com o sancionamento da lei que regulamenta o Programa Estadual de Incentivo à Cultura (Lei Câmara Cascudo) que pudemos ter um aporte um pouco maior para a gestão da Casa da Ribeira. Quando inauguramos, tínhamos feito a previsão de uma temporada com vários grupos da cidade para conseguir um espaço próprio que se sustente com o próprio aluguel.

Estrutura montade no espaço público (Foto: divulgação)

O interessante é que a Casa da Ribeira está no final de uma rede produtiva. Imagine a realidade de um grupo de teatro, por exemplo: precisa ensaiar, comprar materiais que serão usados na produção do espetáculo, precisa confeccionar elementos como figurino e cenário, e precisa fazer uma série de procedimentos para a montagem. Só depois disso chega à Casa da Ribeira.

Como há uma ausência de políticas públicas de cultura, de fontes de recursos e de investimento, a Casa da Ribeira permanece somente no final do processo dessa rede produtiva e, consequentemente, fica com um espaço ocioso durante o período de produção da programação. Com essa consciência, começamos a elaborar uma série de projetos para todas as áreas artísticas: música, dança, teatro, artes visuais etc. Assim, nos estabelecemos como um centro cultural pequeno, mas completo no sentido de amplitude de ações. Buscamos na iniciativa privada, por meio das leis de incentivo, fazer um pouco (ou muito) do papel que deveria caber ao Estado.

Hoje, recorremos aos poucos recursos que temos disponíveis. Apesar da crise, temos investido em alguns poucos setores, como o teatro, embora faltem recursos para outras áreas, como as artes visuais.

Sala de Arte Contemporânea. Instalação da artista Rochelle Costi - 2003 (Foto: divulgação)

Vocês se propõem a trabalhar com uma variada gama de expressões artísticas. Não à toa, o seu espaço comporta um teatro, uma sala de exposições e um café que funciona também como ponto de leitura. Fale sobre essa pluralidade presente na Casa da Ribeira e sobre os desafios de gerir espaços tão distintos.

Nós temos um espaço independente com pluralidades no que diz respeito a expressões culturais e artísticas. É por isso que buscamos desenvolver projetos nas mais variadas áreas. A própria arquitetura do nosso espaço, que possibilita essa característica, nos comunica o que podemos incentivar.

Alugamos os espaços na tentativa de haver sustentabilidade do centro cultural. Temos também os programas de acesso. Por meio deles, subsidiamos os projetos e os eventos que serão exibidos na casa. Dessa maneira, com patrocínio, conseguimos diminuir o valor de um ingresso de 50 para 20 reais, por exemplo.

O cenário atual é um dos mais difíceis desde a inauguração. Não há projetos de manutenção de espaço promovidos pelos governos federal e estadual. Centros culturais independentes usam uma série de artifícios e potencialidades que fazem com que os maiores, geridos pelo Poder Público, se sintam impelidos a promover modificações.

Sala COSERN de Teatro (Foto: divulgação)

 

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