Dando continuidade à série Gestores Culturais em Foco, conversamos com Lenildo Gomes, coordenador de conhecimento e formação da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará e ex-aluno do curso de especialização em gestão e políticas culturais realizado pelo Itaú Cultural em parceria com a Cátedra Unesco de Políticas Culturais e Cooperação, da Universidade de Girona, na Espanha. Nesta conversa ele avalia o cenário atual da gestão e das políticas culturais, analisando tanto a situação nacional quanto a local.

Lenildo Gomes é gestor cultural, produtor, pesquisador em linguagens artísticas, sociólogo e professor. Mestre em sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com pesquisa na área de cinema; especialista em gestão e políticas culturais pelo Itaú Cultural/Universidade de Girona; dramaturgo pelo Instituto Dragão do Mar; e professor do ensino superior nas áreas de comunicação social, sociologia, ciência política, filosofia e economia política em faculdades cearenses e em diversos processos formais e informais de ensino. Possui experiência na gestão municipal e em instituições da sociedade civil, na parte de execução administrativa, pedagógica e financeira de projetos e em cursos na área de arte e cultura. Atualmente é também coordenador de conhecimento e formação da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

Qual a importância de compartilhar com outros gestores as suas experiências na área cultural? Como você vê essa troca?

O compartilhamento de informações, experiências e saberes é peça fundamental para a ação da gestão no campo cultural. Desses encontros nascem possibilidades concretas de colaboração e troca. A diversidade de lugares, formas de fazer e subjetividades envolvidas, o reconhecimento das potencialidades dessas misturas tem se tornado essencial, certamente fator definitivo para os tempos atuais. Não me parece ser possível desenvolver a atuação da gestão de forma conectada com seu tempo sem, minimamente, levar em consideração a força desses encontros e dessas trocas. É reconhecer na diversidade dos mundos o lugar por excelência da ação da cultura e das artes. No meu caso, a experiência do Itaú Cultural, por exemplo, foi e continua sendo um divisor de águas na minha ação como gestor.

Quais os desafios ou qual o maior desafio que um gestor/produtor cultural enfrenta hoje, no Brasil?

O Brasil, em si, enfrenta um enorme desafio de se perceber e se colocar de forma definitiva no século XXI. Em relação à gestão, não me parece ser diferente. Urge um reposicionamento, um crtl + f5 nas formas de agir e pensar no campo da gestão, um upload imediato de novas percepções e sensações acerca de uma política cultural que precisa dialogar e entender o seu tempo. Um tempo que radicaliza no campo da participação e da colaboração, no compartilhamento de ideias e tecnologias. O maior desafio para a gestão é assumir esse outro lugar, os deslocamentos possíveis, as identificações em processo de construção. Em caso de fracasso nessa tentativa, o resultado será a inevitável e inconveniente permanência em estruturas ultrapassadas pelo redimensionamento do tempo, da noção de território e da ideia da relação centro-periferia, realocadas em nossas subjetividades pelo voraz avanço das tecnologias e das estruturas computacionais que vivenciamos.

Em que consiste o trabalho do gestor/produtor cultural? Quais as habilidades e as competências necessárias para que um gestor/produtor cultural tenha êxito em sua atuação?

A ação da gestão cultural consiste na elaboração, na administração e na organização de processos que impliquem num constante redimensionamento das políticas de formação, difusão e incentivo à produção cultural e à criação artística, em todas as suas instâncias e estruturas. As habilidades essenciais e competências necessárias dizem respeito às possibilidades do gestor ou gestora de compreensão das dimensões e da diversidade do lugar, do tempo onde sua atuação esteja inserida. Torna-se cada vez mais importante, talvez essencial, a formação na área, a prática da leitura e da pesquisa que possam ampliar a visão e o pensar. Não me parece haver lugar, na contemporaneidade, para a ação meramente intuitiva ou baseada num tipo de experiência que seja fechada em modelos ultrapassados e pouco eficazes.

Como você avalia as políticas culturais praticadas na sua cidade?

Os problemas maiores começam na forma de condução dos processos de escolha dos cargos públicos a serem ocupados nos órgãos municipais que desenvolvem ações de política cultural. Em sua maioria, são ocupados por pessoas sem formação ou mesmo vivência no campo da cultura e das artes. Dessa forma, as dificuldades não são diferentes daquelas enfrentadas em outras cidades do Brasil. Falta de reconhecimento da importância da cultura, falta de recurso e, acima de tudo isso, desconhecimento da cena local e de como ela poderia se conectar com outros campos e lugares. Esse é um problema grave, possivelmente mortal, pois a cidade é o lugar, o ponto central da cultura, da criação artística. A cultura acontece no território, não fora dele. Se conecta a outros territórios e, sem essa conexão e esse lugar, talvez continue arquejando, tropeçando em suas próprias pernas.

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