Por Cassiano Viana

Certa vez, enquanto caminhava pelas ruas de Santiago, no Chile, o artista visual Bernardo Oyarzún foi detido por policiais porque seus traços coincidiam com os de uma pessoa procurada como suspeita de participar de um assalto. Desse incidente nasceu a obra Bajo Sospecha, que apresenta um autorretrato e um retrato falado de Oyarzún – nos moldes do de um boletim de ocorrência policial –, além de fotos dos parentes do artista, ou la parentela, como a polícia do Chile se refere à família dos suspeitos, como se buscasse uma genealogia do crime e da delinquência.

O trabalho de Oyarzún explora a cultura baseada na aparência física, a facilidade de confundir identidades e a impossibilidade de a fotografia capturar plenamente a essência de uma pessoa. A obra, que faz parte do acervo do Museu de Arte Blanton, da Universidade do Texas em Austin (Estados Unidos), será exibida na exposição Arquivo Ex Machina: Identidade e Conflito na América Latina, que acontece no Itaú Cultural de 15 de junho a 7 de agosto. Com entrada gratuita, o evento integra o IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo (a ser realizado de 16 a 19 de junho).

O trabalho de Oyarzún explora a cultura baseada na aparência física
O trabalho de Oyarzún explora a cultura baseada na aparência física
O trabalho de Oyarzún explora a cultura baseada na aparência física

A mostra também apresenta trabalhos do colombiano Andrés Felipe Orjuela Castañeda, que coloriu fotografias em preto e branco originalmente publicadas na década de 1960 no jornal El Espacio, de Bogotá (Colômbia), e que registram uma operação para apreensão de uma quantidade significativa de maconha.

Outro destaque da exposição é a exótica coleção do boliviano Javier Nuñez de Arco, que traz, por exemplo, uma série de fotografias de anões e da poligamia na Bolívia, todas feitas no início do século XX. Integram ainda o evento as pesquisas dos curadores Coco Laso, Jorge Villacorta e Mayra Mendonza.

Javier Nuñez de Arco possui uma série de fotografias de anões
Javier Nuñez de Arco possui uma série de fotografias de anões
Javier Nuñez de Arco possui uma série de fotografias de anões

Fotógrafo e curador nascido na Bélgica, Coco Laso expõe imagens de seu bisavô, José Domingo Laso, considerado um dos principais expoentes da fotografia no Equador no início do século XX. O curador peruano Jorge Villacorta, por sua vez, apresenta fotografias de Rikio Sugano, intrépido aventureiro japonês que viajou o mundo inteiro e visitou o Peru entre 1923 e 1924.

Já Mayra Mendonza, curadora e subdiretora da Fototeca Nacional do México, faz um recorte do arquivo do fotógrafo alemão Hugo Brehme, que registrou a Revolução Mexicana (1910-1920), período que contou com uma ampla cobertura da imprensa na época e cuja iconografia transbordou as fronteiras do México – para além das Américas, chegando ao continente europeu.