.: cena de aristocrata
novo patamar

Brasil 3X4 marca um novo patamar no apoio à produção audiovisual pelo Itaú Cultural, dentro do projeto Rumos Cinema e Video. São dois os motivos básicos, necessariamente interligados: o aprimoramento do processo de seleção e produção e o consequente salto em qualidade das próprias obras realizadas.

Tive o privilégio de participar do processo, ao lado de Carlos Nader e Renato Barbieri. Cumprimos um papel que foi muito além do convite inicial para jurados de seleção. Dada a abertura do Itaú Cultural para nossas sugestões, o envolvimento de nós três, previsto originalmente para tão somente as duas etapas de seleção, uma de garimpagem de dez títulos dentre as centenas de inscritos, outra de discussão dos escolhidos com os próprios proponentes para a fixação dos cinco vitoriosos,  estendeu-se até a entrega da versão final dos documentários.

De jurados vimo-nos transformados em virtuais "commission editors" da série. O cargo, infelizmente inexistente como tal nas televisões brasileiras, mas essenciais em emissoras pelo mundo afora, cumpre o papel de consciência crítica externa dos produtores e realizadores de cada obra, propondo mudanças de edição, novas filmagens, comentando opções estilísticas, tudo em nome do melhor desenvolvimento do documentário com base nos rumos inicialmente traçados.

Talvez valha a pena registrar algumas de nossas preocupações básicas. Motivou-nos, no processo inicial de seleção, a escolha de projetos de documentários que nos pareciam apresentar com maior definição o tratamento com que se pretendia abordar um tema - e quanto mais original este, melhor. Idéias fortes não nos bastavam se não havia foco quanto à forma com que viriam a ser apresentadas.

O título da série, Brasil 3 X 4, foi interpretado sob chave ampla, libertando-nos da baia dos retratos ortodoxos. Preocupou-nos mais o Brasil do que o 3 X 4, isto é, a mais abrangente representação regional foi buscada na escolha final, com base nas limitações próprias ao universo de inscritos.

Confiança essencial - Em retrospecto, o momento crucial de todo processo parece-me ter sido o seminário realizado por dois dias com os dez pré-selecionados. Sua primeira parte reuniu-nos a todos para conhecimento mútuo e para discussões genéricas sobre nossas visões do documentário como gênero. A segunda metade foi dedicada ao debate pormenorizado de cada um dos dez projetos, visando tanto destacar os pontos fortes que os diferenciavam dos demais quanto propor a correção de equívocos, distorções e insuficiências de qualquer ordem. Não sei se estivemos à altura do desafio, encarado por nós três com toda responsabilidade, mas foi impressionante a maturidade dos produtores e realizadores frente a nossos comentários. Sedimentou-se ali a confiança essencial para o longo processo que se seguiu.

Foi com genuíno orgulho que, convidados meses depois, já em 2004, a acompanhar a produção e a finalização dos cinco documentários, vimos tornarem-se sons e imagens quentes as letras frias das quais partiram aqueles projetos. O mito de que um documentário não se planeja mas sim se faz, ditado livremente pelas forças do acaso, ruiu por terra. É claro que o confronto com o real no processo de filmagem pode alterar processos, frustrar expectativas e adicionar elementos imprevisíveis -e assim também aconteceu com a série. Mas em essência as cinco obras acabadas não trazem grandes surpresas ou maiores rupturas frente aos projetos.

Brasil 3X4 remete inevitavelmente às duas séries desenvolvidas pela Caranava Farkas, de meados dos anos 60 a início dos 70: Brasil Verdade e A Condição Brasileira. Muito as distingue, sobretudo em seus modos e processos de produção, uma gerada por encomenda para realizadores de origem variada, outra realizada independentemente por um grupo coeso liderado por um produtor visionário (Thomas Farkas). Aproxima-as, porém, tanto a abrangência quanto a variedade de seus enfoques.


Conceito de contrastes - Impôs-se cedo no processo a certeza de que contraste era o conceito básico que alinhava os cinco episódios da série, para além das imensas diferenças temáticas e estilísticas.

Aristocrata Clube recupera a memória do pioneiro clube paulistano para negros, desenvolvido a partir dos modelos dos elitistas e discricionários clubes de "brancos". Carrapateira Não Tem Mais Ciúmes da Apolo 11 opõe, entre tantas coisas, as promessas do progresso e as amarras da miséria numa cidades mais carentes do Nordeste brasileiro. O abismo entre as classes sociais brasileiras evidencia-se sutilmente nas jovens de São Paulo e do Rio que protagonizam Garota Zona Sul. Tradição e ruptura na Belém contemporânea, traduzidas pela febre juvenil dos blogs: eis Invisíveis Prazeres Cotidianos. Já Sertão de Acrílico Azul Piscina reafirma o incrível poder mutante e acumulador da cultura nordestina, em que, numa combinação original de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade, a tradição revigora-se ao alimentar-se do novo.

Neste momento extraordinário da cultura do documentário entre nós, a série Brasil 3 X 4 destaca-se desde logo como processo e pelo resultado. Um novo patamar foi alcançado. É hora de celebrá-lo - até mesmo para preparar sua superação.

amir labaki, 41, da comissão julgadora do rumos cinema e vídeo, é diretor-fundador do é tudo verdade - festival internacional de documentários e diretor do museu da imagem e do som de são paulo.

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