detalhe da obra neon organic 2, de marius watz
uma tradição nada fictícia
set 2006
por Thiago Rosenberg
Embora ocupe uma posição marginal no mercado editorial brasileiro, a ficção científica conta com uma longa e consistente presença na literatura nacional. Datam de meados do século XIX as primeiras obras do gênero produzidas no país - caso de O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar -, e nomes relevantes da literatura clássica brasileira, como Machado de Assis, Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, já enveredaram suas letras a tal categoria. De qualquer forma, ontem e hoje, as obras de ficção científica constituem uma eficaz ferramenta para se entender a mentalidade do brasileiro não apenas em relação aos avanços da tecnologia, mas também aos diversos contextos sociais e políticos em que foram concebidas.
Autor do estudo Ficção Científica, Horror e Fantasia no Brasil, o editor, ilustrador, ensaísta e ficcionista Roberto Causo é um dos principais nomes no que diz respeito à pesquisa e produção de ficção científica no país. Retomando a expressão da acadêmica americana Andrea L. Bell, ele aponta o ano de 1958 - o ano seguinte ao lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial - como o ponto de partida da "primeira onda" da ficção científica brasileira. Uma data significativa, marcada pelo lançamento de dois títulos importantes: Maravilhas da Ficção Científica, a primeira antologia do gênero organizada no Brasil - embora contasse apenas com textos de autores estrangeiros -, e O Homem que viu o Disco Voador, de Rubens Teixeira Scavone.
A primeira antologia de ficção científica propriamente brasileira seria lançada em 1960, sob a organização de Gumercindo Rocha Dorea. A coletânea, que reunia trabalhos de autores consagrados e iniciantes, como Gerônymo Monteiro e André Carneiro, deu um novo impulso à produção do gênero e possibilitou um certo destaque a alguns dos autores que viriam a constituir a chamada Geração GRD (de Gumercindo Rocha Dorea). Causo afirma que essa "primeira onda" é caracterizada pela defesa de ideais humanistas, tão em voga na época, e que embora muitos desses autores não dominassem profundamente o gênero, utilizavam-no para veicular tais idéias.
Passada a "primeira onda", muito mudou durante as últimas décadas. E, como todas as grandes escolas literárias, a ficção científica brasileira estabeleceu uma rica heterogeneidade. Mas permanece relegada a segundo plano pelo mercado editorial. Nesse aspecto, Causo lembra a atuação de duas editoras nacionais empenhadas em fomentar e difundir a produção de ficção científica no Brasil: a Devir, de São Paulo, e a Novo Século, de Osasco. E o futuro, à ficção científica pertence.