a literatura na periferia
qua 30 19h30
O escritor Sérgio Vaz é o convidado do Jogo de Idéias. Acompanhado de talentos da Cooperativa dos Artistas da Periferia, Cooperifa, ele conversa com o jornalista Claudiney Ferreira e o público sobre uma das mais concorridas manifestações artísticas dos subúrbios atualmente: o Sarau da Cooperifa.

Convidados por Vaz, os poetas José Neto, Mário Batista, Kennya, Helber, Pilar, Samanta, Jairo, Sandra, Valmir Vieira, os grupos de rap Versão Popular e 2HO e o grupo de teatro Manicômicos, se apresentam durante o bate-papo.

Organizadas há cerca de dois anos, as festas literárias ocorrem no bairro Jardim Guarujá - no bar Zé Batidão, rua Bartolomeu dos Santos, 797 -, toda quarta-feira, por volta das 20 horas. Artistas diversos se reúnem para trocar experiências, compartilhar a produção e festejar a vida. "É um quilombo cultural. Aos poucos fomos chamando a atenção da mídia, recebendo visitas, nos fortalecendo. Hoje, os jornais e a TV vêm até nós", comemora Vaz.

A razão do sucesso, acredita o escritor, está na sinceridade do movimento e no talento dos artistas. "Não pedimos esmolas. E não queremos abrir demais para a mídia, virar festa. A idéia é ser um foco de resistência e se consumir. O que fazemos é para a própria comunidade", relata.

Arte para a cidadania - Entre ilustres que já se apresentaram no local e freqüentam os saraus, Vaz cita Mano Brown (Racionais MC's), Zezé Motta e Lobão. E explica o que norteia a programação: "Produzimos arte para cidadania. Praticamos a evolução. E estamos sempre abertos para quem vier".

Os saraus, com entrada gratuita, recebem cerca de 150 pessoas por noite e estão inspirando eventos similares. Em Campo Limpo, toda segunda-feira, o poeta e artista plástico Binho reúne artistas para produzir arte e beber. Binho, um grande talento na opinião de Vaz, também freqüenta o bar Zé Batidão.

Apesar de liderar a Cooperifa, Vaz defende discurso contraditório, para alertar jovens que têm interesse nas artes. "Digo a todo mundo que têm que estudar para doutor. Médico, advogado. Ser artista neste país é muito sofrido. E até mesmo para ser canalha tem de ter educação."

Deuses inferiores - Em sua lírica simples, o escritor narra e reflete o cotidiano da perifeira. Seu quarto livro, A Poesia dos Deuses Inferiores, será lançado em julho, na quinta, 15, às 19h30, no Colégio Universitário - rodovia Régis Bittencourt, 181.

Com o subtítulo A Biografia Poética da Perifeira, o livro é, na opinião do autor, o representante em verso de livros como Cidade de Deus e os romances de Ferréz (Capão Pecado e Manual Prático do Ódio). Literatura de denúncia social. "Sem deslumbre, engajado na luta. O coro fica sempre mais bonito que uma voz pequena." Entre os poemas do livro, a biografia da mãe do poeta:

Maria das Dores

Filha de Saturnina
Maria nasceu em ladainha,
No intestino de Minas
Quase Bahia.
O nome Maria
Quem deu foi o pai,
Seu Firmino.
Das dores,
Sobrenome da agonia
Quem lhe deu
Foi o destino.
Na cidade grande
Vendeu cosméticos,
Roupas e sapatos.
Doméstica,
Varreu chão, lavou pratos,
Mas nunca foi domesticada.
Sorria,
Por desobediência
Por falta de instrução.
Por alegria?
Só se fosse
Descuido do coração.
Sob o disfarce
De mulher maravilha,
Morreu sem avisar.
Frágil,
Mas sem implorar.
Feito flor
Que rasteja,
Mas que a primavera
Não pode humilhar.

Maiores informações sobre a Cooperifa ou livros de Sérgio Vaz - poetavaz@ig.com.br


exibições na tv puc/sp [canais 11 da net e 71 da tva]
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