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poesia ordena o caos
outubro 2004
O poeta e professor Frederico Barbosa (foto), integrante do grupo Viva Voz e responsável pela série de recitais Poesia Viva, em cartaz no Jogo de Idéias, fala de literatura em entrevista ao site do Itaú Cultural.

O que é o Viva Voz?

Frederico Barbosa - O Viva Voz conta com Clenir Bellezi de Oliveira, também professora, e os músicos Tobias Luz e Marcelo Ferretti, que tiveram os destinos cruzados conosco em sala de aula.

Os recitais passaram por um longo período de gestação. Os versos já foram ouvidos num centro de cultura anarquista, passearam pelo extinto restaurante Joana Francesa, até explodirem na livraria Cortez. Tínhamos tudo agendado, mas cancelamos as apresentações. A casa não comportava o público.

Foi aí que começou o nosso relacionamento com o Centro Cultural São Paulo. Lá havia bastante espaço, e recebemos um apoio inestimável do pessoal da biblioteca para fazermos quatro recitais, que reuniram bastante gente.

No Itaú Cultural encontramos meios para desenvolver o trabalho da forma como imaginamos. Durante o recital, contamos com o apoio de um telão no qual se identifica o poema e seu autor. Assim, a apresentação não perde a dinâmica.

Geralmente, quando se pensa em recital, imagina-se uma coisa amadora e maçante, mas procuramos produzir tudo com bastante profissionalismo, da fundamental escolha dos poemas à música e à iluminação, com a intenção de fazer do sarau um espetáculo nada cansativo. É uma apresentação de uma hora com poetas brasileiros surgidos a partir da década de 1980.

Como definir a poesia?

Frederico Barbosa - Se alguém definir a poesia em poucas palavras, ou está louco ou está enganando você. Tenho, no entanto, absoluta convicção de que a poesia que interessa procura sempre reinventar o mundo e a si mesma. Escrever poesia é trabalhar muito duro, e não tem nada dessa invenção romântica chamada dom. Os poetas que dizem ter o dom em geral são os mais medíocres, incapazes de refletir criticamente sobre o que fazem.

Nossos recitais procuram mostrar precisamente esse trabalho meticuloso e atento que o poeta desenvolve com a linguagem. Por meio da leitura dos textos, procuramos reforçar aos jogos de idéias e de sonoridade que marcam cada poema.

Poesia nunca é dom?

Frederico Barbosa - Arte é ordem. Uma forma de colocar ordem no caos. Poesia não é dom. É invenção, criação consciente de um efeito na mente do leitor.

Arte não é feita só da exposição de emoção ou sentimento, mas de provocação, inovação, ordem, e muito trabalho. Não é só falar sobre o que está sentindo. É fazer com que o leitor sinta o mesmo que você, que entenda o que você está sentindo.

Como reconhecer os bons poetas?

Frederico Barbosa - O que é um bom poeta é muito relativo. Depende muito, é claro, do seu conceito de poesia. Se você tiver um conceito bem sólido e justificado do que é a boa poesia, fica bastante fácil identificá-los. Essa constatação da qualidade passa longe daqueles que são celebrados pela mídia, que não costuma ter critério estético nenhum.

É bom lembrar que durante algumas décadas, em que estavam em plena produção Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e João Cabral, entre outros, o milionário editor Augusto Frederico Schimdt é que era considerado pela maioria como o "maior poeta do Brasil". Quem o lê hoje?

A coisa continua igual. Sei que muita coisa boa está sendo feita nos subterrâneos, enquanto triunfam os medíocres, os endinheirados, os poderosos de ocasião, os bajuladores, os poetas que são críticos de encomenda com suas idéias de aluguel. Mas o futuro escolherá o que vai ler. A idéia desses recitais é exatamente mostrar poetas novos, de qualidade, que muitas vezes não têm a chance de aparecer.

O que mais o incomoda na poesia?

Frederico Barbosa - Duas vertentes poéticas muito comuns no Brasil contemporâneo me incomodam bastante: a poesia bem-comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso e a gratuidade retratista, ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores.

Há algo de errado em toda a vida cultural brasileira, eu creio. Há uma síndrome do retrocesso pairando no ar. Tornou-se mais fácil retroceder do que continuar a experimentar, quando a arte chegou ao ponto de radicalização da experimentação.

Poetas advogam hoje o retorno ao verso parnasiano ou romântico, por se sentirem incapazes de carregar o fardo da busca de formas novas... Eu aposto na continuidade do projeto modernista, na manutenção do espírito revolucionário permanente. Só isso fará com que a arte siga em frente de maneira significativa.

E o ato de recitar poesia?

Frederico Barbosa - Recitar poesia não é gritar, pular, como se a expressão viesse do exagero. O teatro brasileiro foi muito influenciado pelo dramalhão português. Falta um pouco de sutileza. É isso que pretendemos colocar em prática nos nossos recitais: através da leitura atenta, revelar as sutilezas da poesia. E, assim, ajudar as pessoas a ler a poesia de forma mais refinada.

Em que categoria da poesia você se enquadra?

Frederico Barbosa - "Enquadrar" é sempre reducionista e muito perigoso. Há muita "crítica de orelhada" no Brasil, como as dos que insistem em dizer que faço poesia concreta. A influência dos concretos na minha poesia é clara e muito me orgulho dela. Mas dizer que escrevo poesia concreta é um absurdo.

Tenho seis livros publicados e um no prelo. Neles, o número de poemas remotamente semelhantes a qualquer coisa da poesia concreta é ínfimo. Mas como sempre elogiei o trabalho de Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, a crítica já lê meus poemas partindo do princípio distorcido de que sou concretista. Seria bom a crítica brasileira ler de fato os poemas e não se contentar com as declarações dos poetas.

Mas a arte sempre esteve à frente da crítica. Os grandes artistas são exatamente os que desnorteiam os críticos. Garrinchas. Se a poesia brasileira atual não consegue agradar a críticos medíocres e reacionários, ela está no caminho certo. Vamos em frente, driblando sempre. E nossos recitais pretendem mostrar esses dribles da nova poesia brasileira a todos os interessados.

Próximo recital:

quarta 3 novembro 19h30 aos predadores da utopia
No último recital, serão apresentados poemas contemporâneos brasileiros que representam odes à liberdade: política, social, sexual, existencial.