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Por Augusto Paim
Em 1966, Chico Buarque ficou conhecido ao ganhar o Festival de Música Popular Brasileira, transmitido pela TV Record, com a canção A Banda. A ditadura militar contextualizava e dava sentido à letra dessa música.
No fim da década de 1960, a cantora francesa France Gall ficou conhecida na Alemanha com vários hits, entre eles uma versão alemã de A Banda. Chama-se Zwei Apfelsinen im Haar, traduzindo: "Duas laranjas no cabelo".
A versão, vertida para o português, inicia assim:
Duas laranjas no cabelo, e, no quadril, bananas, que até hoje ostenta Rosita, com um vestido de cocos.
E por aí vai. A sonoridade é parecida com a original, mas a letra... O exemplo serve para questionar: seria possível adaptar para outra cultura os significados e contextos de uma música? A que a tradução deveria ser mais fiel: à parte musical, ao significado poético ou ao contexto social, cultural e político? É possível realmente fazer uma versão digna da original?
Fugindo das clássicas versões de músicas da bossa nova já tão conhecidas pelo mundo afora (Girl from Ipanema, na voz de Sinatra, por exemplo) e das músicas bregas nacionais traduzidas para o espanhol, é possível encontrar casos inusitados que ilustram muito bem as dificuldades e dilemas que o ato de verter músicas implica.
 | De fora para dentro
Um tipo de versão diferente acontece quando artistas de outros países decidem cantar em português:
A japonesa Tomoko Nozawa canta várias músicas num português até certo ponto entendível. Caso de O Barquinho, da bossa nova.
Um exemplo de extremo é a islandesa Björk cantando em português a música Travessia, de Milton Nascimento. Poucas palavras podem ser compreendidas.
Mas há versões que alcançam o encanto do original, mesmo com os acentos. É o caso da diva alemã Marlene Dietrich cantando Luar do Sertão ao vivo no Rio de Janeiro, em 1959. |  |
A música brasileira lá fora O espetáculo de comédia musical gaúcho Tangos e Tragédias, com mais de 20 anos de apresentações, brinca durante os shows, vertendo letras de músicas brasileiras para outros idiomas. Eles fazem, por exemplo, uma versão em inglês para Trem das Onze, do grupo Demônios da Garoa. O Eleven's Train dos humoristas Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky tem a função declarada de comédia. Mas e quando a versão quer ser séria e acaba provocando graça?
O músico brasileiro Nei Lopes relata uma situação assim com seu samba Coisa da Antiga, composto em parceria com Wilson Moreira e gravado por Clara Nunes. A canção foi regravada nos anos 1980 em espanhol pela latino-americana Nancy Ramos. Virou uma cúmbia, com o título La Abuela. Compare a letra do original com a versão:
Na tina/ vovó lavou/ a roupa que mamãe vestiu /quando foi batizada
La abuela/ lavó y lavó...
Devido à semelhança entre a palavra "avô" em português e "lavó" em espanhol, fica parecendo que a avó lavou o avô. Como se a letra da versão fosse assim: "La abuela (avó) lavou o avô".
O músico Rodrigo Fonseca, formado em licenciatura para educação artística pela Faculdade Santa Marcelina (Fasm), traz outros exemplos. Um deles é a versão da cantora alemã Mary Roos para a música Mas que Nada. Em alemão, intitula-se Blauer Montag (Segunda-feira azul).
A música, cujo original é de Jorge Ben Jor, já foi vertida para vários idiomas. Outros exemplos podem ser vistos aqui. O cantor brasileiro tem, inclusive, uma versão de sua música reconhecida legalmente como plágio. A música é Taj Mahal e "inspirou" a canção Da Ya Think I'm Sexy?, de Rod Stewart. O que deixa no ar essa questão da diferença sutil entre versão e plágio.
Outro exemplo dado por Fonseca é Batucada Surgiu, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. A canção já foi vertida para vários idiomas, inclusive para o inglês, por Phil Moore III. Como se não bastasse, foi cantada em português por artistas estrangeiros (ver box).
Não é de hoje que a música brasileira tem suas versões pelo mundo afora. A Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, tem em seu acervo preciosidades como sambas cantados em japonês, a música Tico-Tico no Fubá (um choro) em inglês e O Guarani (uma ópera) em alemão.
A(s) música(s) brasileira(s) lá fora Falar em versões da música brasileira em outros idiomas é ainda mais complicado, pois já é difícil definir o que é música brasileira. Afinal, a pluralidade é tão grande e há tantos regionalismos que o mais correto seria falar em "músicas brasileiras."
Fato é que as músicas regionais acrescentam uma questão a mais quando são vertidas para outro idioma: como transportar a peculiaridade da cultura regional para a versão? Uma pergunta que talvez responda-se melhor na prática. Com essa ideia, o músico gaúcho Mauro Harff criou o projeto Alles Tchê. Ele fez versões em alemão de músicas célebres do regionalismo gaúcho (inclusive o hino sul-riograndense) e, em 2006, rodou pela Alemanha em turnê. O projeto incluía material explicando o processo, propondo, assim, uma aproximação entre as duas culturas. Apesar de parecer ingrata a tarefa de tentar reproduzir na cultura alemã as peculiaridades da música gaúcha, ajuda o fato de a versão alemã em muito se parecer com a música regional da Baviéria, diminuindo as distâncias.
Há outros casos curiosos. O músico gaúcho Vítor Ramil é aficcionado pelo gênero milonga, que tem origem na Argentina mas também faz parte dos ritmos que compõe a cultura musical do Rio Grande do Sul. Em 2000, ele lançou o CD Tambong, em espanhol e em português. Outro intercâmbio inusitado envolveu a dupla argentina Los Bustamantes, que regravou o chamamé Barranca e Fronteira, de autoria dos gaúchos Nico Fagundes e Luis Telles, com arranjos de Dorotéo Fagundes. Detalhe: o chamamé é um ritmo de origem argentina, ou seja, a dupla regravou na Argentina uma música feita num ritmo que é de lá e que foi parar no Rio Grande do Sul.
O Nordeste do Brasil também inspira versões. Asa Branca, de Gonzaga, tem versão em inglês, cantada por David Byrne. Não só Gonzaga, mas a música nordestina em geral inspira versões em outros idiomas. Como exemplo, a de Miho Hatori, que canta Paraíba em japonês. Tem inclusive participação brasileira.
Para finalizar, um exemplo extremo. A banda Carrapicho é conhecida por trabalhar em suas canções temas e ritmos da floresta amazônica. A música Bate Forte o Tambor é a mais famosa do grupo. Pois imagine essa música sendo cantada em russo. A sonoridade é muito parecida. Os versos da música, porém, dizem algo do tipo:
O rapaz quer ir para Tambov, você sabe tic-tic-tic-ta Mas hoje não parte nenhum avião e nem mesmo um trem sairá.
No clipe, a indumentária da floresta foi trocada por uma caracterização misturando Família Adams com clichês sobre a cultura brasileira.
Justo ou não, bem-feito ou deteriorado, é desse jeito que a música brasileira extrapola barreiras territoriais e chega, mesmo que transformada, aos ouvidos de pessoas que não estão acostumadas com a sonoridade e o significado do nosso idioma.
Colaboraram na pesquisa para essa reportagem: Airton Ortiz, Anderson Ribeiro, Assis Ângelo, Constanza Kabakian, Dorotéo Fagundes, Greta Lemos, Leonardo Foletto, Oliver Bartsch, Patrícia Degani, Ricardo Freire, Roberto Maxwell e Rodrigo Fonseca.
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