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Imagem Liane Iwahashi
As redes sociais, especialmente aquelas dedicadas ao relacionamento interpessoal, servem mais como instrumentos de reforço do caráter egocêntrico da personalidade de seus participantes do que como uma fonte de conteúdos relevantes ou de mobilização e discussão coletiva?
Sozinho na multidão Por Fábio Fernandes
Sim. Uma rede é composta de nós, mas essa metáfora é sempre muito deficiente quando falamos de seres humanos. Na verdade, não dialogamos, mas monologamos o tempo todo. Diálogos são invenções do romance, do folhetim do século XVIII. As tragédias gregas, as peças dos clássicos, são quase todas em monólogos que se entrecruzam, o que não é o mesmo que um diálogo.
Redes sociais servem para que pessoas se exibam e vejam outras se exibindo. Isso não é ruim, é um comportamento humano. Não é uma característica do mundo digital. Qualquer rave, qualquer vernissage, qualquer Fashion Week é a mesma coisa. Isso somos nós. Gostamos de viver na multidão, mas fazemos questão de ser sozinhos nela. Somos espumas flutuantes, para citar Castro Alves numa recombinação com o pensamento filosófico de Peter Sloterdijk.
Ao contrário do que muita gente pensa, o Twitter não existe necessariamente para você se comunicar com o outro, mas para você comunicar algo de si mesmo com quem quiser ler você. Ele é um monólogo interno, só que do lado de fora.
Contudo, por menos que as pessoas queiram responder umas às outras, por menos que elas queiram dialogar, elas certamente estão ali para pertencer. Então poderíamos dizer que o sentimento de pertencimento, ou de "pertença", como diz Janina Bauman, está na base do sucesso do Twitter.
Retomando a metáfora de "modernidade espumante", de Sloterdijk, vivemos em bolhas transparentes de espaço-tempo onde é confortável saber que não estamos sós - mas que não nos peçam para participar de nada.
O Twitter é para pseudogregários, aqueles que se sentem confortáveis sozinhos no meio da multidão. Isso não é um fenômeno moderno; apenas ocorre que esse microblog é a sua mais nova tradução.
Fábio Fernandes é doutor em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor dos livros Interface com o Vampiro (Writers, 2000) e A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006). É colunista do site Le Monde Diplomatique Brasil.
Potencialmente mobilizadoras Por Raquel Recuero
Não. Redes sociais são expressões de grupos na internet. Não são todas iguais e servem a valores e interesses diferentes. No entanto, possuem elementos em comum, como o uso de sites que facilitam ou tornam complexas as conexões sociais. Por causa dessas conexões, as redes tornaram-se caminho para fluxos de informações. Elas são repassadas entre os atores que fazem parte de uma mesma rede e atingem pessoas cada vez mais distantes. Assim, as redes sociais acabam por repartir o poder antes característico dos meios de comunicação de massa através de novas mediações. Se essas redes permitem, portanto, que outras pessoas sejam contatadas e que interesses comuns sejam divididos, é apenas natural que proporcionem, também, ações coletivas.
Várias dessas ações, nascidas prioritariamente nesses espaços, já tiveram repercussão na mídia e em espaços nacionais e internacionais. Recentemente, uma campanha pedindo a doação de sangue ficou entre as mensagens que mais circularam no Twitter por alguns dias. Outro exemplo foi a discussão em torno da proposta de lei do senador Eduardo Azeredo sobre crimes cibernéticos. Graças às redes sociais on-line, gerou-se grande debate em blogs, nas listas de discussão, no Twitter e até mesmo no Orkut. Com essa mobilização, o projeto passou a ser discutido em variadas instâncias da sociedade, com ampla cobertura da mídia e consequente reflexo no questionamento da lei no Congresso.
Nas redes sociais, portanto, está um potencial mobilizador gerado com a construção de um espaço de debate. Sites como o Orkut não têm apenas um papel conversacional, têm também uma função informativa, uma participação na inclusão digital. Precisamos superar o preconceito com relação a essas ferramentas e observar o potencial que a presença das pessoas e dos diversos segmentos da sociedade no ciberespaço possui.
Raquel Recuero é professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas e pesquisadora na área de comunicação mediada por computador, com foco no estudo das redes sociais na internet. É autora de Redes Sociais na Internet (Sulina, 2009).
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