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Por Eduardo Baszczyn | Ilustração Raquel Krügel
Pode ser pelo homem que me olha com cara estranha, descendo a rua por mais uma noite. Eu não desisto. Porque também pode ser pelo velho que passa na ambulância. Falta de ar, a caminho do hospital que nunca chega. Ou pela menina que atravessa a avenida com pressa. Pés, sem querer, na poça depois da chuva. Meias molhadas atrapalhando os passos no retorno para casa. Pode ser por qualquer um deles. Por um dos garotos dentro do carro em alta velocidade. Sinal vermelho ignorado, música no rádio, latas de cerveja, palavrões para quem está na calçada. Ou pela moça parada em frente à janela. Dúvida. Indecisão de horas sobre o pulo de um dos apartamentos acesos da cidade, enquanto o telefone toca para ninguém. Pode ser por ela. Ou pela mulher que sai da igreja. Arroz sobre a cabeça depois do sim. Buquê atirado por cima do ombro para as amigas solteiras. Por uma delas também pode ser. Ou pelo vigia sentado na portaria. Cochilo proibido, embalado pela voz chiada do pequeno rádio ecoando rimas pobres pelo corredor vazio. Amor com dor. Por isso, eu não desisto. Porque pode ser por qualquer um deles. Pela mulher parada no cruzamento. Vidro aberto pelo abafado depois da tempestade. Talão de cheques, cartão de crédito e fotos dos filhos na bolsa levada pelo menino-bandido que corre. Que some como um inseto. Que desaparece como um rato virando a esquina no escuro da noite. Até por ele pode ser. Pelo menino. Ou pelo homem que pede dinheiro no intervalo rápido entre o vermelho e o verde. Malabarismos com fogo sobre a faixa de pedestres. Número sem aplausos. Nariz de palhaço e chapéu vazio estendido para o público do outro lado dos vidros blindados. Por qualquer um deles pode ser. Por isso, eu não desisto. Por isso, eu saio descendo a rua mais uma vez. Em mais uma noite de busca. Eu não me canso. Porque pode ser pelo executivo, no carro, diminuindo o volume do rádio. Ligação para a mulher, avisando sobre o atraso. Secretária ainda na memória. Perfume de outra na gravata. Traição refletida, ainda há pouco, no espelho do teto. Por ela também pode ser. Pela jovem no ponto de ônibus. Maquiagem retocada no pequeno espelho trincado. Batom vermelho. Lápis no olho. Pó. Ou pelo garoto que também espera, sentado sobre o banco de cimento pichado. Desenhos eróticos e palavrões. Violão encapado nas costas. Partitura repassada na mente, enquanto o Lapa não vem. Será por ele? Ou pela menina que volta para casa? Enjoo no estômago, depois da primeira vez escondida. Pernas moles e medo do tapa do pai. Pavor do castigo da mãe. Por ela também pode ser. Ou pelo casal que escolhe o filme na entrada do cinema. Ele, americano, explosões e tiros. Ela, europeu, silêncio e poesia. Discussão em frente à bilheteria. Cada um para um lado da avenida. Será por um deles? No café, a moça sozinha. Bebida forte e sem açúcar para uma sexta-feira amarga desde cedo. Há dias impossíveis de ser adoçados, ela sabe. No orelhão, o rapaz promete. Foi sem querer. Não vai fazer de novo. Junta os pés e jura. Claro que ama. Na mesa da calçada, os amigos esperam. Garrafas vazias. Copos pela metade. Risadas e gritos contaminando a noite. Atrapalhando o silêncio dos vizinhos. Pode ser por eles também. Por qualquer um. Desse prédio. Do outro. Do seguinte. Daquele e daquele outro até o infinito. Pode ser por quem dorme com a televisão ligada. Com a revista aberta caída sobre o peito. Pode ser por quem se revira na cama à espera do efeito do punhado de comprimidos. Por quem sua na febre. Se encolhe no choro. Ou por quem enrosca os pés nos pés do outro debaixo das cobertas. Por qualquer um deles pode ser. Por isso, eu não desisto. Tanta gente. Por isso, eu saio por mais uma noite. Em mais uma busca. Eu não me canso. Deixo o apartamento e caminho sozinho pela cidade cinza porque tenho certeza. Pode ser por qualquer um desses. Pelo velho estacionado na esquina. Carro importado e proposta para a prostituta tingida. Balas de hortelã, canivete e camisinhas na minúscula bolsa que gira. E gira. Pode ser por ela também. Ou pela outra encostada no poste em frente à boate de letreiros coloridos. Ou pelo garoto que passa no ônibus. Cabeça apoiada no vidro. Os olhos na primeira frase de um livro. Certa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama metamorfoseado em um monstruoso inseto. Pode ser por ele também. Pelo garoto. Ou pelo outro, que deixa o bar quase vazio. Cabelos coloridos, calça justa, tatuagens. Esbarrão, sem querer, no homem parado no meio da calçada. Música alta nas orelhas. Vontade de dividir os fones compartilhando o gemido sofrido de um solo de sax com qualquer um. Pode ser por esse homem. Ou pelo outro que me olha com cara estranha. Que me observa descendo a rua por mais uma noite. Eu não desisto. Não me canso. Por isso, eu saio. Deixo o apartamento vazio, caminhando pela cidade. Tentando montar meu quebra-cabeça incompleto. Atrás da última peça. Sabendo que o caminho até ela pode começar por um desses. Por isso, eu não desisto. Pode ser por qualquer um. Apenas seis passos. Apenas seis casas a ser andadas sobre o tabuleiro depois dos dados lançados. Seis obstáculos a ser saltados. Seis fios de uma longa teia. Seis degraus até a chegada ao topo. Seis muros a ser derrubados. Seis graus de separação. Por isso, não adianta. Você pode correr. Fugir. Se trancar no cômodo escuro. Se esconder debaixo da cama. Se enfiar entre a multidão. Não adianta. É comprovada a ligação. Apenas um punhado de gente. Apenas seis apertos de mão. Por isso, eu não desisto. Não me canso. Por qualquer um desses começa a nossa conexão. Pode ser pelo velho na esquina. Pela moça indecisa na janela. Pela menina que enfia os pés na poça, sem querer, depois da chuva. Tanta gente. Pode ser pela noiva que sai da igreja. Pelo menino-bandido que corre com a bolsa, como um rato, até sumir na virada da esquina. Pela mulher de vidro aberto. Pelo malabarista que ilumina a noite sobre a faixa de pedestres. Pelo garoto na primeira frase de um livro. Pelo homem que me olha com cara estranha, descendo a rua mais uma vez. Caminhando sozinho pela cidade cinza. Tentando achar a última peça. Sabendo que o caminho até ela pode começar por qualquer um desses. Repetindo como reza cochichada pelo canto da boca: Quantas noites ainda? Quantas vezes mais a rua percorrida? Tanta gente. Qual boneca russa guarda o que procuro? Qual dessas devo escolher? O velho? A moça? O malabarista? Qual dessas porcelanas devo quebrar até chegar ao que desejo? Pode ser por qualquer um. Por esses que estão na rua. Nos carros. Pelos que passam nos ônibus. Pelos que bebem nos bares. Pelos que se espremem entre as luzes coloridas das pistas de dança. Pelos que espiam pelas frestas das infinitas janelas acesas. Pelos que se escondem no escuro. Pelos outros que também procuram. Tanta gente, mas eu não desisto. Somos fios ligados de uma teia. Por isso, eu saio. Deixo o apartamento em mais uma noite de busca com a certeza de que, por um desses, eu ainda chego até você.
Eduardo Baszczyn é jornalista e escritor. Seu primeiro romance, Desamores (7 Letras, 2007), foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e, na categoria Melhor Livro do Ano - Autor Estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura. Mantém o blog Coisas da Gaveta e uma contra no Twitter.
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