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Por Mariana Sgarioni | Ilustração Carol Rivello
Não tem jeito. Onde quer que existam pelo menos duas pessoas, mais dia, menos dia, haverá um conflito entre elas. Até porque, como já deve ter dado para perceber, é humanamente impossível dois seres concordarem em tudo.
Já que hora ou outra vamos nos estranhar mesmo, a questão passa a ser não mais o bate-boca, e sim a maneira pela qual vamos lidar com ele. O que a maioria responde neste momento é que o importante é dialogar até chegar a um consenso. Tem razão.
Porém, cá entre nós, essa resposta tem um baita cheiro de frase feita sem pensar - a verdade mesmo é que preferimos desprezar o "inimigo". Cortar relações, virar a cara, deixar a pessoa para lá, armar um clima. Convenhamos, é muito mais fácil do que tentar resolver a desavença, certo? Alguém o contrariou, disse algo indigesto? Simples: aperte o botão "delete" do computador, esqueça essa pessoa, finja que ela não existe mais. Arrume outro amigo, outro namorado, outro colega de trabalho. E, assim, como num passe de mágica, uma conexão que estava firmando sua base é quebrada.
Existem diversas razões para agirmos assim - entre elas a preguiça pura e simples, um pecado que, ao contrário de sua vizinha luxúria, nos traz perdas irreparáveis pela simples leseira de movimentos. Mas a razão mais preocupante fica por conta de um fenômeno social do sistema moderno, no qual estamos inseridos, que não valoriza a criação de vínculos sólidos. Para chegar lá, no entanto, é importante entender primeiro a maneira pela qual fomos construídos.
Precisamos dos outros Nosso caráter começa a ser moldado no momento em que começamos a interagir com tudo e todos ao nosso redor. Um recém-nascido é como um molde de argila bem flexível: tudo aquilo que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor suas ações no futuro. Conforme vai crescendo e interagindo com os adultos, a criança vai aprendendo o que pode ou não fazer. Começa a perceber que, ao chorar mais alto, por exemplo, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe, não ganha um afago e sim uma bronca. Sem contar que ela se depara com a realidade nua e crua, nem sempre agradável: mães por vezes cansadas, camas frias, fraldas sujas, situações em que ela precisa reagir. Ou seja, a criança vai se construindo, devagarzinho, a partir dos outros.
Sigmund Freud sustentava que o conflito aparece logo nos primeiros anos de vida, quando a criança começa a perceber que a mãe não é sua propriedade. Ela sente, aos poucos, a perda das atenções maternas, sua principal fonte de afeto, com a entrada de um terceiro elemento na história: o pai. Essa perda vem carregada de um sentimento de raiva. No desenvolvimento normal do indivíduo, esse conflito está na base da formação de uma personalidade capaz de limitar os impulsos instintivos. "Nascemos com um programa inviável, que é atender aos nossos instintos, mas o mundo não permite", dizia Freud.
Trocando em miúdos: somos seres sociais e, para estarmos vivos, precisamos sempre interagir com alguém. No momento em que ocorre essa interação é que surgem os conflitos.
Não fale mais comigo Se os estranhamentos são inerentes à nossa vida em grupo, por que então cortamos a conexão com quem nos incomoda? Isso é nada mais do que uma consequência das contingências do mundo atual - que podem vir desde a infância. "Crianças educadas como pequenos reis, que tudo podem, certamente terão baixa resistência a frustrações na vida adulta. Quem for contra aquilo que ela pensa deve ser jogado fora e substituído por outra pessoa que não a frustre", observa a psicóloga Mariângela Gentil Savoia.
Além disso, como salienta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos num tempo de pressa, em que as relações acompanham o modo de vida existente: o capitalismo, que tem "sede de consumo", adora tudo o que for descartável, rápido e fácil de ser trocado. Não vale a pena, portanto, investir tempo e energia em uma pessoa que está nos desagradando. Ele chama esse fenômeno de fluidez da existência contemporânea. "A vida numa sociedade líquido-moderna não pode ficar parada. Deve modernizar-se ou então perece. É preciso correr. Ligar-se ligeiramente é uma ordem. Não importa o que aconteça, propriedade, situações e pessoas continuarão deslizando e desaparecendo numa velocidade surpreendente", afirma, em seu livro Vida Líquida (Jorge Zahar, 2005).
Já que não dá tempo de nos aprofundarmos em nada, isso vale principalmente para os conflitos. Aprofundamento dá trabalho, requer calma, paciência e vontade. Coisa que não estamos mais acostumados a ter - em nenhuma esfera da vida. Fica tudo na superfície, como se provássemos as coisas (e as pessoas) aos pedacinhos. Já existe até um termo para isso: snack culture, ou cultura aos pedaços. "Ao descartarmos as pessoas o tempo todo, e não nos fixarmos em nenhuma relação, sofremos, pois precisamos de um grupo, de um lugar com o qual nos identificamos", diz Mariângela. "Até porque o conflito é uma oportunidade única de aprendizado, de entendimento de como o outro funciona."
Comunique-se melhor Os conflitos são, sim, inevitáveis e cada vez mais o mundo faz questão de descartar as pessoas. Qual é a saída, então?
Um caminho é tentar minimizar esses conflitos. Boa parte deles acontece, acredite, por causa de palavras malcolocadas - e malcompreendidas. Fulano diz algo, você entende outra coisa, e pronto. Está armado um desentendimento. Segundo o psicólogo americano Marshall B. Rosenberg, é na maneira pela qual falamos e ouvimos os outros que está a chave para o problema das discórdias. Ele, que desde a década de 1960 se dedica a promover o diálogo pacífico mundo afora, fundou em 1984, na Califórnia, o Centro de Comunicação Não Violenta. "A grande falha da comunicação está em apontar problemas nos outros em vez de olhar o que eles causam em nós. A comunicação começa quando expressamos nossos sentimentos. Não fazemos isso porque achamos que ficamos vulneráveis", afirma. "Mas só assim criamos um relacionamento baseado na sinceridade. A partir do momento em que as pessoas falam o que precisam, em vez de falarem o que está errado com os outros, o entendimento aumenta."
Rosenberg ensina uma boa tática. O primeiro passo é reformular a maneira pela qual falamos e ouvimos. Se aconteceu alguma coisa que afeta o seu bem-estar, procure dizer isso sem responsabilizar o outro. Por exemplo: se o seu colega de trabalho deixa a sua mesa bagunçada, em vez de bufar e armar um escândalo, você pode dizer a ele o quanto precisa de espaço e como fica incomodado. Repare: sempre o foco é você e não ele. Ao olhar um pouco mais para as suas próprias limitações e deixar de jogar o problema nas mãos alheias, tenha certeza de que a chance de entendimento será bem maior.
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