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Por Carlos Costa e Tatiana Diniz
Na internet, a arte está ao alcance de um clique e livre das amarras das instituições. Blogs, portais, plataformas de notícias, fóruns, comunidades em redes de relacionamento. Um sem-fim de espaços interativos delineia um novo panorama para a produção artística.
Ainda é difícil definir como esses territórios virtuais atuam e o que geram, mas diversas características já são percebidas por artistas, pesquisadores e pelo público.
Uma das principais novidades é a propagada democratização do acesso, que reitera um dos credos da arte contemporânea, a acessibilidade a todos. Aqueles que acessam a internet podem discutir, de igual para igual, com artistas que também navegam pela rede e acompanhar processos de criação em tempo real, opinar, comentar e - porque não? - produzir e exibir sua própria arte.
A enorme - e ainda em expansão - quantidade de blogs e sites sobre processos de criação reforça outro decreto da arte contemporânea, de que os relatos dos processos também são arte.
A pesquisadora Cecília Almeida Salles, especialista no estudo de processos criativos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), destaca essa mudança. "Encontramos muitos relatos de artistas sobre processos de criação na rede, muitas vezes com espaço para debate. Isso gera troca de experiências e informações ou não. É mais significativo perceber que as discussões sobre os processos, parte integrante da arte contemporânea, se tornaram muito comuns e que, caso não ocorra uma discussão crítica paralela, a exposição desses processos pode ser reduzida à curiosidade de bastidores", aponta Cecília.
Performances conectadas Duas performances correlatas da artista portuguesa Susana Mendes Silva, realizadas em 2002, 2005 e 2006, em quatro cidades - cronologicamente, Lisboa (Portugal), Rio de Janeiro (Brasil), La Coruña (Espanha) e Oklahoma (Estados Unidos) -, são representativas do fenômeno da conexão de redes virtuais: Artphone e Art_room.
Em Artphone, Susana disponibilizou o número do seu celular pessoal, durante um mês, para pessoas que quisessem falar com ela sobre arte contemporânea. O projeto evoluiu em remontagens e, com o nome de Art_room, recorreu a um videochat na internet para o mesmo propósito: a artista era um ponto de conexão de uma rede concebida como espaço de debate sobre a arte contemporânea.
Susana relata que decidiu realizar a performance depois de receber um e-mail, em 2002, do site rhizome.org sobre o anúncio do artista suíço Christoph Büchel, que vendia no eBay sua vaga para participar da Bienal Europeia de Arte Contemporânea de Frankfurt (Alemanha), a Manifesta 4. A artista americana Sal Randolph comprou e montou o Free Manifesta, multiplicando a vaga em um projeto que reuniu 225 artistas e grupos. Entre eles, Susana com o Artphone. "A conectividade é muito importante para a artista que me tornei", declara. Sobre o resultado da interação com o público, ela preserva a intimidade dos diálogos. "Não registrei os conteúdos das conversas para não quebrar a privacidade. Seria como alguém ouvindo nossas conversas", explica.
Susana frequenta plataformas de discussão e produção de arte on-line, como o citado Rhizome (iniciativa que existe há 13 anos e está vinculada ao New Museum, de Nova York), a lista de discussão portuguesa ARENA e a comunidade virtual Empyre, projeto baseado na Austrália e concebido para a última Documenta (Kassel, Alemanha), em 2007. "A web ajuda a estabelecer relações entre pessoas que não têm ligação geográfica. É uma estrutura muito importante, uma grande ferramenta de luta política, que tem uma tendência a ser igualitária e possibilita que as pessoas assumam seus personagens", avalia.
 Outras redes Na web outras experiências chamam a atenção, como o portal Axis, que se autodenomina a melhor fonte on-line para informação sobre arte contemporânea. Reúne perfis, entrevistas, discussões e trabalhos artísticos. A área Dialogue promove a interação entre os internautas, apresentando notícias e anunciando debates reais. Estão sediados em Londres, Inglaterra, e a produção da ilha é o foco principal.
Da Holanda vem o SOS Art. Tem como objetivo vender e expor obras de artistas dos quatro cantos do mundo, como uma galeria virtual que não cobra comissão. "Cobramos apenas uma taxa pelo espaço, que varia de acordo com o número de obras expostas e o tempo de permanência", explica Adriano Muredda, criador da página.
Ele defende a iniciativa, que está a 7 anos na rede, como uma ferramenta revolucionária, que permite ao artista driblar a dependência de intermediários, galerias ou marchands. "É uma forma de conquistar o mundo por meio da arte", aposta.
Muredda busca representantes pelo globo para ser curadores do site, selecionando e convidando artistas. "Tenho quase cem pessoas trabalhando comigo e já cobrimos todos os continentes", afirma. O site possui fóruns, nos quais artistas podem publicar biografias e divulgar eventos, e um chat. "Temos muitos projetos para o futuro, como a promoção de leilões", conclui.
Redes brasileiras No Brasil, as experiências também são diversas, em formatos e com propósitos e alcances variados. A pesquisadora da PUC Cecília Almeida Salles publicou um blog, em 2008, simultâneo e homônimo ao evento Redes da Criação, promovido pelo Itaú Cultural. Na página, Cecília apresenta uma série de iniciativas on-line relacionadas à criação cultural que refletem o que a conectividade trouxe de novo aos processos de criação.
Atualmente, ela e uma equipe de pesquisadores geram um projeto de espaço virtual para debates teóricos sobre processos em arte e design. Esse espaço seria ampliado, gradativamente, para discussões sobre processos de criação artística como redes.
No Orkut, rede de relacionamento do Google e a mais popular entre os internautas brasileiros, uma busca por comunidades relacionadas à arte contemporânea leva a 49 resultados. Mediados ou abertos, esses pontos de encontro virtuais proporcionam discussões com base em tópicos sugeridos pelos integrantes. Predominam debates conceituais em torno da produção artística, mas assuntos como comercialização, calendário de editais e propostas de coletivos também têm espaço.
Foi numa das comunidades do Orkut que os artistas Rodrigo Acosta, Arley Boullosa e Jorge Martins se conheceram, compartilharam impressões e trocaram releituras de trabalhos, iniciando um intercâmbio entre as cidades de São Bernardo do Campo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Novo Hamburgo (RS). "Acabamos enviando os trabalhos por correio para cada um de nós e depois também trocamos a materialização das releituras. Foi realmente interativo/virtual", conta Martins.
Para Rodrigo Acosta, as trocas por internet podem ser comparadas ao movimento da arte postal (mail art), que surgiu na década de 1960, era ligado às vanguardas, e consistia no intercâmbio de mensagens criativas por meio do sistema de correios. No Brasil, os maiores êxitos do movimento ocorreram durante o período militar, driblando a censura.
Nos tempos atuais, de mais liberdade e internet, outra certeza perceptível sobre os territórios virtuais é de que um progressivo número de mensagens multimídia criativas se propaga pela rede, garantido aos criadores, facilmente, seus 15 cliques de fama.
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