INSTITUTO PROGRAMAÇÃO CONTINUUM ENCICLOPÉDIAS RUMOS OBSERVATÓRIO RÁDIO
revista do Itaú Cultural
programa de estímulo em arte e cultura
janeiro fevereiro
2010


edições anteriores


 
comente

envie seu trabalho

 
blog do itaulab
 
tamanho da letra    A-    A+

Por Augusto Paim

Ela está por aí, apesar de já não mais existir. Está na trilogia do filme Matrix, está na moda, na cultura como um todo. Deixou de ser contracultura para ser assimilada sem restrições. "Quando a perseguição fracassa na tentativa de esmagar uma contracultura ativa, a cultura dominante tende a assimilá-la", diz o crítico cultural norte-americano Ken Goffman, em seu livro Contracultura Através dos Tempos (Editora Ediouro, 2007).

A literatura cyberpunk nasceu quebrando regras, mas segue o que diz Goffman: está disseminada em formas culturais hegemônicas, misturada com o que veio depois, como ela mesma fez com os gêneros que a antecederam. Difícil precisar os limites de quando ela surgiu nesse mundo sem gêneros, cheio de mixagens e criações recombinantes. "Há toda uma rede de referências culturais ou contraculturais da qual o cyberpunk é apenas a ponta mais ostensivamente tecnológica", diz o jornalista e escritor Alex Antunes.

O gênero floresceu durante as décadas 1980 e 1990, graças a autores como Pat Cadigan, Paul di Filippo, Tom Maddox, James Patrick Kelly, Bruce Sterling, Lewis Shiner e John Shirley, entre outros. Eles foram gradativamente modificando estilos, de modo que hoje é praticamente impossível falar em uma "obra cyberpunk" em si, mas, sim, em "influências cyberpunk".

Mas é possível estabelecer um ponto X em meio ao turbilhão. E esse ponto é o romance Neuromancer (Editora Aleph, 2009).

1984, uma odisséia no (ciber)espaço
Esse foi o ano de lançamento da obra Neuromancer, marco do que se convencionou chamar de literatura cyberpunk. No Brasil, a obra de William Gibson foi traduzida pela primeira vez em 1991.

O romance não é bem o pioneiro do gênero, já que a literatura cyberpunk é derivada da ficção científica e sofreu influências tão variadas quanto as contraculturas beatnik e punk. Além de conter características do romance policial e do cinema noir. Neuromancer, portanto, resulta de uma mistura de gêneros, embora marque novos e específicos elementos. "Foi um trabalho tão importante que foi incorporado à lista dos 100 Maiores Romances Modernos da Time Magazine", comenta Lawrence Person, escritor de ficção científica e uma das referências mundiais no tema. Lúcio Manfredi, autor brasileiro de literatura cyberpunk, observa o alcance de Neuromancer na cultura pop ao comentar que a obra "foi responsável, por exemplo, pela guinada radical na carreira do U2, cujos álbuns Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993) estão encharcados pela estética cyberpunk".

O escritor Guilherme Kujawski descreve as características da literatura cyberpunk como sendo "conglomerados de cidades, couro e conexões diretas entre cérebros humanos e redes de computadores". Os autores cyberpunks captaram, no passado, o espírito da época em que vivemos atualmente, com o advento das novas tecnologias ligadas ao futurismo tecnológico, e o levaram para o "nível das ruas, dos indivíduos e dos cotidianos", diz Lúcio Manfredi.

Fábio Fernandes, também escritor, lista outras características do gênero: "A fusão político-econômico-tecnológica do velho e do novo, ou seja, o misto de tecnologias de várias épocas trabalhando em conexões nem sempre harmônicas mas da forma possível. Canibalização e sucateamento são palavras de ordem".

Pós-Tupinipunk?

Um dos gêneros que surgiu com a fragmentação da literatura cyberpunk é o steampunk, subgêneros da ficção científica com elementos cyberpunks. "Há muita sátira em cima", comenta Guilherme Kujawski. No Brasil, foi lançada, em julho deste ano, a primeira coletânea de contos brasileiros desse subgênero. Mais informações podem ser encontradas no site steampunk.com.br.

Segundo ele, o meio acadêmico já acolheu a literatura cyberpunk, tirando-a da exclusão que a literatura convencional a colocou. Há uma extensa literatura acadêmica produzida no exterior.  No Brasil, já começam a surgir estudos dedicados ao tema. O interesse se dá principalmente por uma questão histórica. É William Gibson quem cunha em Neuromancer a palavra "ciberespaço", um conceito fundamental para se entender a cibercultura como um todo. Lawrence Person diz ainda que esse interesse acadêmico foi maior que o despertado por outras formas de ficção científica, especialmente "em relação a como a natureza midiamente saturada do cyberpunk se inseriu em muitas teorias literárias sobre o mercado de massa".

O Tupinipunk
"O cyberpunk chegou ao Brasil com dez anos de atraso", diz Manfredi. O que não impediu que passasse pelo antropofagismo típico da cultura brasileira, transformando-se num gênero próprio. O crítico e escritor Roberto de Sousa Causo apelidou-o de tupinipunk. Segundo Fábio Fernandes, o termo "foi escrito num artigo publicado em fanzine, num contexto demeritório". O tupinipunk chegou a ser chamado de cyberbarroco pelo poeta Wally Salomão.

Há apenas quatro autores de literatura cyberpunk no Brasil: Fausto Fawcett, com Santa Clara Poltergeist (1992), e Guilherme Kujawski, com Piritas Siderais (Editora Francisco Alves, 1994), são os autores publicados em livro. Lúcio Manfredi e Fábio Fernandes, que escreveram respectivamente O Fantasma na Máquina e O Inimigo Interno, tiveram seus trabalhos editados em fanzines entre o fim da década de 1980 e o início de 1990. Diz Fernandes: "Tanto a minha história quanto a do Lúcio prestam homenagem a autores clássicos do movimento cyberpunk, como William Gibson e Bruce Sterling, nossos 'mentores cibernéticos' daquela época".

O próprio Fernandes comenta que o caso de Fawcett é diferente: "Numa entrevista concedida a mim para um livro que permanece inédito, Fawcett disse que não havia lido esses autores, mas que simplesmente tinha se inspirado no espírito da época. Fawcett fez algo bem brasileiro, carnavalizando, como disse o linguista russo Mikhail Bakhtin, com um clima carioca, muito sexo e ainda alta tecnologia dos implantes cibernéticos e das conexões neurais". Guilherme Kujawski diz também que, eu seu livro, "adaptou de forma "subliminar" o gênero". Sobre o texto de Kujawski, Fábio Fernandes arremata: "A diferença é que Piritas é uma obra bem filha de São Paulo. Além de ser um livro satírico, espécie de filho tecnofílico-xamanístico-candomblecista de Oswald de Andrade com Juó Bananere. Divertido e até um pouco profético, porque Kujawski prevê os blogs. Não por acaso, ele acabará sendo um dos primeiro blogueiros brasileiros".

Morreu porque ficou
"Nos Estados Unidos, o movimento cyberpunk foi declarado morto e enterrado ainda nos anos 1990, e tudo o que veio depois já é pós", diz Fernandes. Pós-cyberpunk é qualquer história que exiba as marcas da influência cyberpunk mas, ao mesmo tempo, se afasta de alguma característica essencial. Um livro clássico dessa assim chamada literatura pós-cyberpunk é Snow Crash (Nevasca, em português, Editora Aleph, 2008), de Neal Stephenson.

Segundo Manfredi, "o cyberpunk deixou de existir como um movimento organizado, em parte porque sua influência foi assimilada pela ficção científica. Por outro lado, porque a própria realidade adquiriu características marcadamente cyberpunks. O mundo que a literatura cyberpunk descrevia é aquele que vemos hoje ao olhar pela janela".

Apesar disso, no prefácio da edição que comemorou os 25 anos de Neuromancer, William Gibson comenta como nem ele nem nenhum de seus contemporâneos previram a existência do celular. "Nada incorpora tão completamente a ideologia cyberpunk quanto os smartphones e, no entanto, a ideia passou batida por todos os autores do movimento", diz Manfredi.

 Fawcett enxerga a literatura cyberpunk como "o último grito de contracultura, esse verniz filosófico dado aos movimentos de perturbação das ordens estabelecidas, perturbações dos costumes, hábitos e mentalidades consagrados e não questionados". E completa: "A contracultura está, como todas as manifestações humanas, dissolvida na matéria em movimento das encruzilhadas culturais. O cyberpunk foi a sua última moda".

"Eu acho que a cultura inteira tem um pouco de cyberpunk hoje", diz Ken Goffman, citado no início desta reportagem. "Cyberpunk está em toda parte e, portanto, em lugar nenhum."
 


localização contato newsletter imprensa trabalhe conosco itaú social banco itaú     
rss itaú cultural