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janeiro fevereiro
2010


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Por Marco Aurélio Fiochi

Faço, Desfaço, Refaço, título da peça teatral da artista plástica franco-americana Louise Bourgeois, encenada no Brasil por Denise Stoklos entre 2005 e 2006, descreve muito bem o processo criativo de Arnaldo Antunes. Músico, poeta, compositor e artista visual paulistano, ele poderia incorporar à lista de seus múltiplos talentos o de ser também um perspicaz editor. "A edição está em quase tudo o que faço. Tenho de escrever, olhar, cotejar, experimentar várias versões, salvar, imprimir, rascunhar, mudar a ordem das partes." Nesta entrevista, além de método de trabalho, música, poesia verbal e visual, Arnaldo fala de produções híbridas, da interação de linguagens artísticas, e afirma ainda ser necessária a classificação de obras pelo seu gênero, apesar de a arte estar cada vez mais sem fronteiras. "As linguagens precisam de certa compartimentação. Mas isso não significa que não haja liberdade de namoro entre elas."

Ao iniciar sua carreira-solo, você passou a elaborar projetos que envolvem música, literatura, artes visuais. Essa transcendência foi natural, uma conseqüência de suas referências, ou você arquitetou a mudança?

Tudo o que faço envolve o trabalho com a palavra, seja ela cantada, seja ela escrita e associada a sua materialidade gráfica, seja ela ainda em movimento na tela de um vídeo. O trabalho com a palavra é um lugar de onde me aventuro para outras linguagens. Desde que comecei a fazer música, fazia também poesia escrita, gostava de trabalhar com caligrafia. Meu primeiro livro chama-se Ou E (edição do artista, 1983), anterior ao começo dos Titãs, e já tinha a idéia de integrar a poesia às artes visuais. Ao mesmo tempo, fiz performance, na Banda Performática. Durante os dez anos em que participei dos Titãs, também publiquei livros de poemas, como Psia (Iluminuras, 1986), Tudos (Iluminuras, 1990) e As Coisas (Iluminuras, 1992), participei de exposições, fiz trabalhos visuais, sempre como uma atividade paralela. Quando saí dos Titãs, em 1992, quis juntar todas essas frentes em um mesmo projeto, o Nome, em que coloquei minhas ansiedades na área da poesia. Essas referências vieram a se encontrar numa terceira linguagem, com o vídeo, e na utilização dos recursos de animação digital. Com o projeto Nome, lancei simultaneamente um vídeo, um CD e um livro. Explorei a simultaneidade que se tem ao ler uma palavra em movimento e ao mesmo tempo ao escutar outra palavra, ao atritar as duas vias de recepção verbal. Estava muito seduzido pela inserção de movimento na escrita. Pude usar todos os recursos gráficos que aprendera em artes-finais de livros ou na poesia visual e ainda inserir movimento, a dimensão do tempo. A escrita tende para a música pelo fato de ocorrer não só no espaço, mas também no tempo. Depois de Nome, continuei a fazer música, livros, performances, intervenções, exposições. Muitas vezes essas coisas se encontravam, e se alimentavam umas das outras.

Você acredita que em suas obras as várias linguagens interajam para criar significados diferentes daqueles que se poderia obter caso cada uma delas fosse tratada isoladamente?

Em minha obra, o uso de elementos visuais ligados à poesia é em parte relevante e em parte não conta tanto. Há poemas que são mais verbais e não carecem tanto do tratamento gráfico. Há outros que estão estruturalmente ligados à maneira como eu disponho o corpo da letra, o tipo. Alguns são manuscritos, alguns fundem imagem e texto, alguns usam cor. Isso determina o ritmo da leitura, serve como pontuação. Às vezes, se quer imprimir uma leitura não-linear, mas fragmentária, ou oferecer muitas possibilidades de leitura. Pode-se imprimir determinado ritmo de leitura, dar sugestões de sentido que vão além do verbal. Muitas vezes, o poema é feito para ser lido de uma maneira que só um dado contexto visual ou gráfico pode dar. Em alguns casos, esses poemas acabam virando objetos tridimensionais.


Quando você tem uma idéia para algum trabalho, ela já vem com um formato definido?

Isso varia, às vezes crio um poema, mas vejo que vai ganhar força se for agregado a uma forma gráfica inusual. E, às vezes, o poema só existe porque foi pensado com determinado efeito de manuscritura, de objeto. Essa questão se colocou de forma intensa no vídeo Nome, pois estava começando a tomar contato com os recursos de programas de animação e de tratamento de imagem. Desde então, passei a criar poemas especialmente pensados para agregar determinados efeitos.

Em um trabalho híbrido o artista é mais criador ou mais editor?

No meu caso, a questão da edição está em quase tudo o que faço, não só em obras híbridas, mas em textos, canções. O procedimento de colagem surgiu com a modernidade, no começo do século passado. Os movimentos de vanguarda começaram a usar a colagem não só do papel, mas a escrita como colagem de informações fragmentárias, estilhaços de palavras, de várias formas, até a partícula mínima, que é a letra. Isso ocorre na literatura, nas artes plásticas e no cinema, que apresentou a possibilidade de decupar, usar a montagem como efeito de colagem seqüencial. Sinto-me um fruto dessa tradição. Transformo em matéria os rascunhos, os pensamentos. Tenho de escrever, olhar, cotejar. Os meios digitais são muito adequados a esse pensamento mais fragmentário. Quando faço uma arte-final, posso experimentar várias versões, salvar, imprimir, rascunhar, mudar a ordem das partes. Eu penso materialmente, penso olhando a obra. Trabalho tanto por adição, ao criar informações, como por subtração, ao eliminar sobras até chegar ao que realmente interessa. Esse é um processo que muitas vezes leva a um desvio. Inicialmente eu quero dizer uma coisa e acabo dizendo outra. Numa música, experimento caminhos, gravo vários tipos de melodia, ouço repetidas vezes, até sentir que está finalizada.


Que linguagem você ainda não usou e gostaria de usar?

Gostaria de criar objetos que tivessem movimento na escrita, mas que não fossem vídeos, e sim objetos mecânicos. Nunca trabalhei com holografia, mas desejo fazê-lo. Gostaria de lidar com cinema, mas é uma linguagem de um custo muito alto. E tenho desejo de escrever alguma prosa. Tenho um projeto antigo, mas que não encontro tempo para fazer. Não é nada híbrido, é uma volta para algo muito primário da escrita. Fora isso, há um projeto em que venho trabalhando há muitos anos, o registro de placas de ruas, anúncios de lojas, sinalizações, escritas da cidade. A toda cidade onde vou, fotografo dizeres, e quero fazer uma fotonovela, uma história em quadrinhos em que use essas palavras.

Uma das interações entre linguagens mais conhecidas é a existente entre música e letra. Esse "casamento perfeito" está ameaçado ou ainda será duradouro?

Não vejo ameaça nenhuma! A canção é uma linguagem que existe há séculos e está ligada à expressividade da fala. Sempre surgem novas formas de fazer canção. O rock não é só a melodia e o ritmo, é também a timbragem, os planos dos instrumentos. O rap trouxe novos elementos que possibilitaram outro tipo de casamento entre texto e música. Cada vez mais temos a liberdade de atritar informações de várias áreas, de gêneros diferentes. A música que me interessa não tem uma classificação, não se pode dizer que é rock, reggae, funk, baião, samba. Esses gêneros estão a tal ponto interligados que pouco interessa o que são.

Então, a separação entre o que é cinema, música, literatura, teatro também se transforma? Como definir literatura, se ela também tem sonoridade, e se na música também há literatura?

Talvez haja uma crise dos gêneros, que acaba resultando em uma crise de linguagens. Claro que essas denominações são funcionais. Vai-se ao cinema para assistir a um filme do Spielberg, do Godard ou a um documentário. Cada um deles tem uma linguagem diferente, mas são denominados cinema porque existe uma maneira de as pessoas se comportarem naquele lugar. Casos como esse mostram que as linguagens precisam de certa compartimentação. Mas isso não significa que não haja cada vez mais liberdade de namoro entre elas. A divisão existe até para determinar como exibir a obra. Essa questão se apresentou quando lancei Nome. Na época, houve uma dúvida se o melhor lugar para esse produto seria a loja de disco, a locadora de vídeo ou a livraria... Era um produto de difícil compreensão.


É possível que essa separação funcional um dia chegue a ruir?

Não dá para prever isso. Sempre surgem novos nomes, por exemplo, instalação, site specific, denominações que abarcam obras em que a mistura se dá de um jeito novo. As pessoas são muito apegadas a nomear gêneros, estilos, linguagens, para identificar certas obras com outras. Mas a definição pode ser redutora do potencial dessa obra. Para mim, o que é claro é que os novos meios não vão substituir os antigos. Pode haver vitalidade tanto nos meios tradicionais quanto nos novos meios. Não é porque se faz poesia utilizando-se os meios digitais de distorção de letra, de inserção de movimento, de redução de imagem, que vai se perder o interesse pela poesia que está nos livros. Por outro lado, existe uma precariedade na idéia de especialização. Na área das artes plásticas, então, nem se fale! Porque os materiais e suportes se pulverizaram tanto, em tantas possibilidades de escolha... Na música também. Quem faz música hoje em dia está necessariamente envolvido com várias linguagens: tem de pensar no clipe, na capa do disco, na atitude, no comportamento, na visualidade, na performance ao vivo, no figurino, no cenário, no gesto, na dança. Tudo isso faz parte da música popular. Não é só gravar e ter uma voz afinada!

Se há uma fronteira entre as áreas de expressão artística, qual é?

Eu acho que a arte é um território sem fronteiras, e ao mesmo tempo um território para questionar as fronteiras, derrubar muitas delas. Falamos de fronteiras entre gêneros, linguagens, mas há também fronteiras entre repertórios, entre o popular e o culto, o sofisticado e a cultura de massa. A arte põe em xeque todas elas. Em termos de circulação de informação artisticamente expressiva, eu acho que estamos em um território de liberdade, que possibilita o convívio com a diferença, o enriquecimento por meio de informações novas, de outros povos. Os campos do conhecimento vêm se hibridizando também. Por exemplo, as conferências e os textos de Buckminster Fuller [filósofo, designer, arquiteto, artista, engenheiro e inventor norte-americano] são ao mesmo tempo arte e ciência. Para mim, é uma referência para pensar o mundo sem fronteiras geográficas. Em um de seus textos, ele escreveu "a Terra é um útero", como se seres humanos fossem as células que estivessem se preparando para um nascimento grupal. É um pensamento muito interessante. Creio que me inspirei nele ao fazer o verso "Dentro da placenta do planeta azulzinho", da canção Tribalistas.


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