INSTITUTO PROGRAMAÇÃO CONTINUUM ENCICLOPÉDIAS RUMOS OBSERVATÓRIO RÁDIO
revista do Itaú Cultural
programa de estímulo em arte e cultura
janeiro fevereiro
2010


edições anteriores


 
comente

envie seu trabalho

 
blog do itaulab
 
tamanho da letra    A-    A+

Por Micheliny Verunschk

Viviane Mosé nasceu em Vitória, Espírito Santo, e se radicou no Rio de Janeiro há 17 anos. É poeta, psicóloga e psicanalista, mas se tornou conhecida do grande público pelo exercício do pensamento. Filósofa doutorada pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ), apresentou, entre 2005 e 2006, o quadro Ser ou Não Ser do programa dominical Fantástico, na Rede Globo, no qual discutia grandes temas filosóficos pela ótica do cotidiano.

Com diversos livros publicados, foi indicada em 2002 ao Prêmio Jabuti por Stela do Patrocínio - Reino dos Bichos e dos Animais É o Meu Nome (Editora Azougue), transcrições poéticas de depoimentos de uma interna da colônia psiquiátrica Juliano Moreira, a mesma onde viveu o artista plástico Arthur Bispo do Rosário, no Rio de Janeiro.

Nesta entrevista, Viviane fala sobre mundos paralelos, individualismo e coragem.

Numa época em que as relações são cada vez mais mediadas por interfaces, quais acepções podemos dar ao termo "mundos paralelos"?
Esse termo nasceu de uma visão equivocada de que existe apenas um mundo, e, por isso, existiria então um duplo desse mundo. Assim pensou Platão, por exemplo, e o cristianismo. Mas não existe um mundo, nem dois, o que existe é uma infinita multiplicidade em perpétua transformação. O mundo é apenas uma palavra que busca sintetizar essa complexidade, para nos dar algum alívio existencial, alguma tranquilidade, além de nos permitir exercer certo poder sobre essa instabilidade que nos esmaga. Hoje, com essas interfaces, estamos sendo obrigados a lidar com a fragilidade da realidade, e como não temos um banco de dados que nos permita interpretar dessa maneira, nos deixamos abater pelo niilismo e pela passividade.

No metrô, o rapaz ouve música no iPod; a seu lado, uma moça lê um livro; um pouco mais adiante, outro rapaz está envolvido com a programação da TV do próprio metrô. A marca da nossa geração seria o encapsulamento em mundos individuais?
O individualismo é um fenômeno muito mais antigo. No século XIX, um rapaz estaria, no bonde, absorto lendo poemas românticos, isolado da família e dos amigos. A solidão é própria das pessoas corajosas e criativas, ela é um bem, uma necessidade. O que predomina na modernidade, e que ainda reverbera hoje, é exatamente o contrário, a necessidade de publicidade a qualquer custo e de multidão. Um dos ganhos deste nosso mundo é exatamente o retorno da solidão, que nos faz valorizar os contatos, os encontros, e os faz ser próprios, intensos, verdadeiros. Estar junto não é o mesmo que conviver; um relacionamento exige doação, investimento, coragem, dedicação. O problema do nosso século é o susto, estamos perplexos, paralisados, passivos diante das frequentes mudanças de estrutura que vivemos. Precisamos acordar, voltar a criar; o mundo que desaba não era um paraíso, e precisava mesmo de mudanças, mas temos de interferir nessas mudanças para que resultem em um mundo menos desigual e mais justo.

Então não é prerrogativa da contemporaneidade essa necessidade de isolamento em mundos particulares?
Entre uma pessoa e outra existe sempre um abismo, uma descontinuidade. Não estamos em continuidade com os pais nem com os filhos, somos um, e isso nos angustia e nos impulsiona. Vivemos para romper esse abismo, o desafio é a aproximação e a convivência, o que não pode se dar a qualquer custo. A convivência é um desafio, mas precisamos criar outras modalidades de relacionamento, pautadas em valores mais amplos. Vivemos entulhados, pendurados uns nos outros, a maioria de nós é carente e se vende a qualquer tipo de encontro, mas na hora de pensar, raciocinar, isolam, fragmentam, segmentam. As pessoas querem se relacionar, anseiam, quase desesperadamente, por isso, mas elegem uma infinidade de valores excludentes para mediar essa relação. Não gosto de quem ouve tal música, não aceito que me digam isto ou aquilo, não admito tal situação etc. As pessoas não sabem lidar com a diferença, no fundo querem conviver consigo mesmas.

Toda grande arte não deixa de ser criação de um mundo, correto? Quando a imersão nos chamados mundos paralelos pode ser considerada patológica?
Quando esse "mundo" é tomado como "realidade" e não como um alargamento de perspectivas, uma ampliação de possibilidades.

Estudos indicam que as crianças têm passado cerca de dez horas em frente de algum monitor, seja TV, seja videogame ou computador. É possível vislumbrar quais mecanismos de interação com o mundo essas crianças estabelecerão no futuro?
Acho tudo isso um exagero. As crianças continuam indo à escola, ao parque, fazendo judô, natação. Quando eu era criança, 40 anos atrás, passávamos a tarde toda vendo Sessão da Tarde, hoje eles ficam no computador, o que é mais criativo, mais instigante, mais interativo que a televisão. As inovações são sempre vistas como vilões e isso é muito chato, velho. Na minha adolescência, tínhamos um grupo que achava importante falar do meio ambiente, da necessidade de preservação dos recursos, e éramos vistos como loucos; não nos davam atenção, nem na universidade. Hoje as crianças discutem abertamente natureza, vida, cidadania, elas, sim, podem nos dar a expectativa de valores sociais mais amplos. O problema do mundo é a desigualdade social, a exclusão, a desvalorização da vida. Precisamos resgatar nossa fragilidade constitutiva, somos apenas pessoas que lutam para ir além de si mesmas. Viver é mais do que ganhar dinheiro, aparecer na televisão, ou coisas assim. O problema não está nas novas tecnologias; ao contrário, elas representam a possibilidade de nos livrarmos desses valores excludentes que nos caracterizam há séculos.

Os reality shows prometem ao espectador uma sensação de "a vida como ela é". A ficção, especialmente no caso de alguns seriados de TV, também promete uma aproximação da realidade. Já os noticiários parecem cada vez mais ficcionais. Como podemos compreender esse tipo de relação?
Os reality shows são a tentativa de redescobrir o valor da vida. Não valem mais histórias extraordinárias, fantasiosas, mocinhas pobres que se casam com homens nobres, mas a vida comum, que, em si, já é cheia de beleza e atratividade. Tudo é extraordinário, depende apenas da sensibilidade de quem vê. Já os noticiários, o jornalismo em si, ele, sim, parece estar surtado. Apavorados com audiência, tentam dar o que o povo quer, e avaliam, equivocadamente, que é ficção, quando não é. Vide a falência de grandes jornais e TVs pelo mundo afora. O jornalismo precisa se reinventar e oferecer um serviço à altura do que precisam e querem as sociedades.

Qual o sentido de viver a vida do outro, seja consumindo revista de celebridades, seja embarcando no universo da telenovela ou nos jogos de simulação da vida, como The Sims?
Esse não é um movimento recente. Grandes reinados se sustentavam nesse mesmo princípio: o povo vivia modestamente e se satisfazia com as festas no palácio, com as roupas belas da rainha. Viver é difícil, exige coragem, vontade, alegria, quem tem vive, quem não tem terceiriza, projeta.

Num mundo tão complexo, com uma infinidade de "universos paralelos" ao gosto do freguês, é possível falar em realidade? O que é o real?
Será que existe mesmo uma realidade ou diversas perspectivas que se encontram e convivem, sem, no entanto, resultar em uma síntese? A realidade é uma síntese natural que surge dos acontecimentos ou uma imposição de sentido que serve a alguns? Realidade sempre foi uma palavra abstrata e enganadora, a serviço de quem era capaz de impor determinada interpretação sobre as outras. Hoje sabemos, ainda bem, que só existem perspectivas. Os mais velhos, que se acostumaram a obedecer a padrões, estranham, mas estamos, como sempre estivemos, diante de uma vida que nos escapa.
 


localização contato newsletter imprensa trabalhe conosco itaú social banco itaú     
rss itaú cultural