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agosto setembro
2010


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Por Alex Sander Alcântara

Quando ainda estudava design industrial, as idéias fervilhavam na cabeça do jovem Daniel Beato. Tirou do papel uma que, à época, não foi levada muito a sério. A cadeira de pneus que construiu não despertou o mínimo interesse, crítica ou elogio do professor que avaliou a engenhoca. Não convencido, Beato persistiu no intento. Passou a peregrinar pelas ruas e borracharias de São Paulo à procura de pneus reutilizáveis que se transformariam em cadeiras, espreguiçadeiras, mesas, floreiras, criados-mudos. "Me transformei num borracheiro moderno." Desde 2003, Daniel Beato é um dos coordenadores do projeto Arte em Pneus Associação Artesanal, que se tornou oficialmente uma ONG em 2006.

Novas possibilidades
Projeto encurta a distância entre o design e as pessoas de baixa renda

Do meio acadêmico têm saído projetos pioneiros como o Design Possível, iniciativa de professores e estudantes brasileiros e italianos surgida em 2004. Eles desenvolvem produtos de design comercialmente viáveis, pautados na preservação ambiental, na sustentabilidade de recursos e na geração de renda para comunidades. Em 2006, o Design Possível lançou o concurso Design para Todos, cujo objetivo foi estimular o desenvolvimento de produtos de até R$10,00. "Eu brinco com os estudantes e alguns profissionais que se sentem um pouco deusign, que acreditam ter o poder de desenvolver qualquer coisa. Eles se esquecem de cooperar, e as soluções propostas não são as melhores por conta disso", afirma Ivo Pons, professor de design da Universidade Mackenzie, São Paulo, e um dos coordenadores do grupo.

O projeto Design Possível recebeu, em 2006, o Prêmio Planeta Casa com a Polt-Lona, poltrona feita com lona de banner reciclado. Trata-se do trabalho de conclusão de curso de duas estudantes, realizado simultaneamente na Universidade de Firenze, na Itália, e no Mackenzie, que utilizaram material reciclado e tecido fabricado por uma ONG.


O projeto redefine o conceito de que o pneu é apenas um resíduo sólido. Pelos traçados que faz com a borracha, Daniel e sua equipe transformaram o pneu, um inimigo natural quando descartado no ambiente, num produto artístico, lúdico e, principalmente, acessível. Mas há uma diferença, segundo ele, no método que utiliza: "Com a reciclagem, reprocessa-se material, gasta-se energia, gera-se gás carbônico. No reaproveitamento, economiza-se energia, não se deixa resíduo na natureza e a comunidade é inserida socialmente".

Pneu que vira mobiliário é apenas uma entre as várias iniciativas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo que reforçam a idéia de que o design é algo possível, sustentável e próximo da realidade das pessoas. Segundo artigo publicado na revista do Ontário College of Art & Design, do Canadá, 95% dos designers em todo o mundo desenvolvem produtos e serviços que atingem apenas 10% da população mais rica. Na contramão dessa tendência, surgem projetos que estimulam o design para os 90% excluídos.

Para a curadora e professora de história do design Adélia Borges, o design que ganha os holofotes da mídia é o que traz mais experimentações de linguagens e ocupa lugar em museus. Ela compara o design com a moda: "O que aparece nos desfiles da Fashion Week são roupas exclusivas, que não são feitas muitas vezes para vender. É difícil a mídia se preocupar com a coleção da C&A, das Pernambucanas ou da Marisa". Apesar disso, Adélia acredita que o design está se tornando cada vez mais democrático em todos os países, não por bondade dos empresários, mas porque o mercado competitivo e os consumidores exigem isso. "O design surge como um elemento de desempate", afirma.

Não é o que pensa o designer Flávio Barão Di Sarno, um dos sócios da Nódesign, empresa paulistana que desenvolve móveis, luminárias, utensílios domésticos e cosméticos desde 2001. Ainda estamos, acredita ele, muito longe do ideal em relação ao acesso. "Ainda não se percebeu que muitas vezes a classe baixa consome produtos de má qualidade por falta de opção. E não por falta de gosto." Outro ponto que o designer destaca é que existe uma limitação de materiais quando se trabalha com um produto popular. Mas ressalva: "Hoje, com o avanço tecnológico, isso não quer dizer poucas possibilidades. E muito menos má qualidade".

Uma das figuras mais marcantes do design brasileiro, o francês Michel Arnoult, morto aos 81 anos em 2005, defendia que o design tinha de ser vendido em lojas populares, como as Casas Bahia. Em sua busca pela "democratização do design" acima de qualquer vaidade criativa, foi o pioneiro no uso de matérias-primas como o eucalipto, de baixo custo e que favorece o desenvolvimento sustentável. "Não me interessa essa busca pela novidade", costumava dizer. Deixou, pouco antes de morrer, a Poltrona Pelicano, feita com eucalipto, leve, elegante, fácil de montar e desmontar: "Como o bico da ave é grande o suficiente para levar seus filhotes, pensei que seria confortável sentar dentro dele", explicou Arnoult em 2003, quando obteve o primeiro lugar na 17ª edição do Prêmio do Museu da Casa Brasileira (MCB), na categoria Móveis.

Outra grande defensora do design possível foi a arquiteta e designer italiana radicada no Brasil Lina Bo Bardi. Ela defendia que nossa indústria de objetos deveria ser pautada nas referências culturais brasileiras, tanto no artesanato como na linguagem.

A ascensão do consumo das classes C e D no país demonstra uma tendência que aos poucos está sendo percebida. "O design passa a ser o diferencial para essa fatia de mercado, em que inovação e tecnologia são pré-requisitos", reflete Barão. É isso que faz com que um simples ferro de passar ou mesmo um par de sandálias de borracha tragam em si um estilo, além da funcionalidade.

Barão já perdeu a conta dos inúmeros projetos nessa linha que a Nódesign desenvolveu, mas cita o Homem Elástico como exemplo. É um objeto esguio que aproveita a parede como um espaço funcional. Serve para colocar no banheiro, com escova de dentes e xampu, na cozinha ou no quarto. "De baixíssimo custo, usa pouca matéria-prima, resolve o máximo de funcionalidade possível, é lúdico e divertido", explica. Daqui a alguns meses, o Homem Elástico será vendido a um preço estimado em R$ 10,00.

Comunidades criativas
O design pode ser uma importante ferramenta de transformação social, acredita a designer Paula Dib. "Existe muito mais design num produto que cumpra uma função, que venha a suprir uma necessidade, do que num produto simplesmente estético. É uma forma de olhar." Recentemente, ela desenvolveu um trabalho de resgate com a tribo indígena fulni-ó, no interior de Pernambuco. "Aplicamos técnicas de pigmentação naturais, trazendo de volta as sementes que eles sempre utilizaram." Paula diz que, numa segunda etapa, a tribo desenvolverá alguns produtos. "Mas assegurando-se de que os elementos tradicionais continuem fortes." Já a designer de móveis Etel Carmona, que há 20 anos trabalha com mobiliário, aplica o conceito de responsabilidade socioambiental em seus projetos. Ela desenvolve oficinas em Xapuri, no Acre, e Valinhos, no interior de São Paulo. "Em Xapuri, as comunidades são envolvidas. Lá conseguimos a primeira floresta comunitária certificada do país."

O trabalho dos designers em comunidades pode abrir perspectivas de renda e de futuro. A intenção dessas iniciativas, segundo Paula, é fazer um resgate social e cultural, porque elas acabam mudando os padrões de comportamento, principalmente em cidades mais isoladas, onde as oportunidades demoram a chegar. "É sempre uma postura de troca. Não é uma intervenção de cima pra baixo." Segundo ela, os ganhos, subjetivos, são difíceis de mensurar: "Muita gente resolve voltar para a escola, é um pouco o acordar para o potencial que está ali adormecido."

A designer Fernanda Martins concorda com a idéia de que o principal papel do design é colaborar para as mudanças no planeta. Ela acredita que existem inúmeros campos de atuação para um design mais democrático. "O design que cria peças para o consumo do que não é necessário, gerando desejos, está próximo da publicidade", diz. E alerta: "Essa linha de atuação, ligada à geração de desejos, para gastar mais dinheiro com coisas de que não se precisa, é uma atuação equivocada. O planeta não agüenta".

Em Belém, Pará, ela coordenou um grupo de vendedoras de ervas, da Associação Erveiras Ver o Peso, na criação de uma identidade, uma marca para os produtos que vendiam, como banhos de cheiro e remédios naturais. Nesse processo também se desenvolveu, segundo ela, um trabalho de auto-estima, de melhoria da qualidade do produto e do serviço. "É um olhar muito moderno para a questão do design. O trabalho é visual, mas sempre se pensa o todo."
 


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