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Por Ricardo Aleixo
"Algumas passagens do invisível para o visível podem resultar em sons, uma vez que a produção humana mais importante é a linguagem. Pode-se dizer ainda que o som, que desaparece assim que se materializa, é um tipo de desenho." Joseph Beuys
Embora o termo sound design deva sua origem ao cinema (Star Wars, dirigido por George Lucas, em 1977, foi o filme que trouxe pela primeira vez a expressão em sua ficha técnica como forma de destacar o extraordinário trabalho de Ben Burtt na criação da complexa trilha sonora), há muito sua utilização é reivindicada por profissionais de outros campos artísticos e técnicos, se é que ainda tem alguma validade, no plano prático, a distinção entre arte e técnica. Esboço uma definição que tenta dar conta da dimensão interdisciplinar do design sonoro (DS): uma atividade baseada no uso de instrumentos teóricos, técnico-formais e tecnológicos que tem como fim a elaboração de projetos acústicos para cinema, vídeo, rádio, espetáculos de dança, teatro, multimídia e intermídia, mostras de artes plásticas e visuais, hipermídia, arquitetura, games, telefonia celular, eletrodomésticos, automóveis, alimentos etc.
Chamo a atenção, de saída, para um aspecto de grande relevância: interdisciplinaridade, no tocante ao DS, diz respeito não apenas à sempre crescente quantidade de áreas que demandam intervenções acústicas, mas principalmente à necessidade de se inter-relacionar, nas fases de elaboração e execução dos projetos, de forma não-hierarquizada, ferramentas, técnicas e suportes dos diversos campos que têm o som como matéria de estudo e/ou criação (da música à acústica, da lingüística à semiótica). Ao mesmo tempo, o designer sonoro busca estabelecer conexões teórico-práticas com as demais áreas do design (gráfico, de interiores, de produtos, de moda, de interface) para, com isso, instaurar a zona de fronteiras fluidas pela qual comporá sua "quase-música" com elementos como ruídos, silêncios, descontinuidades rítmicas, breves figurações melódicas e tramas tímbricas.
Nos recursos utilizados para compor o projeto reside, portanto, uma das marcas da diferença do papel do designer sonoro em relação à atuação de outros profissionais que exploram criativamente a materialidade do som. O que nos leva ao segundo traço distintivo da atividade. Tal como nas demais áreas do design, o "desenhista acústico" atua tendo a consciência de que opera entre dois pólos: o da liberdade, fundamento de qualquer ato de criação, e o do estabelecimento dos limites que decorrem do próprio processo criativo, uma vez que a "obra", ou melhor, o produto final tem como desígnio o atendimento das expectativas dos mais diversos tipos de clientes.
Mas o caráter funcional dessa atividade ainda tão pouco conhecida no Brasil, longe de ser um problema, pode significar para o designer sonoro uma rara oportunidade de, ao tentar responder às expectativas de terceiros, confrontar-se com seus próprios limites, hábitos cristalizados e preconceitos estéticos. Na medida em que se propuser a ultrapassar o mero uso da matéria sonora com o fim de "expressar idéias, sentimentos ou mensagens", o "projetista de sons" formulará novas estratégias de recepção dos elementos envolvidos no projeto acústico: considerados como partes de um todo coeso, emissor, receptor e espaço (quer se trate do palco, da tela de cinema, da sala de exposições, do saguão do edifício residencial, da rua) instaurarão um campo relacional permanentemente tensionado e aberto a contínuas transformações.
Próximo, por suas características gerais, de algumas das principais poéticas da escuta que se processam na contemporaneidade (sound poetry, radio art, sound art, improvised music), no rastro das revoluções sônicas desencadeadas ao longo do século XX, o DS tem como principal desafio afirmar-se, para além da nova modalidade do design que efetivamente é, como uma qualidade a ser observada em projetos de outras áreas criativas.
Num desfile de moda em que a trilha sonora resulte da incorporação e da alteração rítmica e tímbrica do som dos passos dos modelos pela passarela; num espetáculo de poesia (lembrar que Décio Pignatari já definiu o poeta como um "designer da linguagem") no qual a vocalização seja sugerida pela distribuição dos vocábulos na página e pelo tamanho das fontes usadas; numa exposição de artes plásticas que mobilize, por meio de sensores de movimento, sons correspondentes à posição de cada espectador diante das obras, o importante é o "desenho" que nos permite "ouver" (James Joyce via Augusto de Campos) os sons em pleno exercício de transformar e se deixar transformar pelos outros signos com os quais se relaciona.
Ricardo Aleixo é poeta, músico, artista visual/sonoro e ensaísta. É professor de design sonoro na Universidade Fumec (Fundação Mineira de Educação e Cultura), em Belo Horizonte. Atualmente, apresenta as performances intermídia Um Ano entre os Humanos e Nem uma Única Linha Só Minha e desenvolve o projeto do DVD-livro Modelos Vivos, com recursos do programa Petrobras Cultural.
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