Por Rita Loiola | Fotos André Seiti
"Faça-se a luz!" E com essas palavras Deus criou o universo. O poder, na gênese do mundo, vinha do verbo. Na Bíblia, e em volumes antigos de retórica, literatura e ciência, os nomes estão cobertos de autoridade. Nos tempos modernos, essa força ganha outras cores. E os livros de auto-ajuda chegam repletos de conselhos lingüísticos para alcançar a felicidade. "As palavras são pensamentos e, logo, um poder invisível e invencível. Elas irão, por fim, se materializar na forma que lhes for dada." A lição 15 de A Chave Mestra, de Charles F. Haanel (Ed. Best Seller), não deixa dúvidas: as palavras têm poder. São elas as responsáveis por exprimir idéias e desejos. E, assim, criar realidades. Nomeando o que está em seu íntimo, o ser humano conseguiria não só visualizar, mas também construir seus desejos no mundo exterior. Prosperidade, sucesso ou relacionamentos bem-sucedidos, tudo é possível para quem domina os segredos dos vocábulos.
Nos manuais, as leis que regem essa mecânica ganham vários títulos: Lei da Atração, Lei da Intenção e do Desejo, Nova Psicologia Positiva, Lei do Sucesso. O homem é energia, os pensamentos emitem vibrações e a parcela mínima e visível dessa força são as palavras. Energia atrai energia e, por isso, é importante utilizar termos precisos, em linha organizada e coerente para conseguir as metas. A psicologia e a lingüística já haviam percebido que a transformação das idéias em unidades de linguagem é uma parte importante da mente humana. E o que os livros de crescimento pessoal fizeram foi unir saberes diversos em um programa neurolingüístico, com resultados práticos e, talvez, imediatos.
"É interessante perceber o apoio desse programa em teorias como a Gramática Gerativista Transformacional, de Noam Chomsky", diz Regina Maria Azevedo, pesquisadora de programação neurolingüística da Universidade de São Paulo (USP). "Entre outras coisas ela diz que, ao emitir enunciados, o homem traz para uma estrutura superficial o que estava em sua estrutura profunda. E é quando chega à superfície que as expressões ganham significado." Ou seja, as palavras fazem sentido a partir dos conceitos internos de cada um. "É a pessoa que dá a força às palavras, de acordo com suas vontades, desejos e expectativas", explica.
Quando pronuncia as expressões, o homem jogaria no universo a força atrelada a cada uma. É por isso, por exemplo, que algumas religiões proíbem a pronúncia em vão do nome de Deus. Conta-se que o mesmo acontecia com a capital da Itália no mundo antigo. Roma seria o apelido para o verdadeiro nome da cidade, tão poderoso que sua simples invocação seria capaz de causar resultados imprevisíveis. É por esse mesmo princípio que Jack Canfield e D. D. Watkins avisam que é melhor evitar as palavras negativas. "Manifeste seus desejos de forma positiva. Sua mente trabalha com imagens, assim se você disse 'não quero sentir raiva' estará criando a imagem e a vibração da raiva e responderá a essa vibração. Você deve concentrar-se no oposto do que não deseja. Neste caso, seria melhor dizer 'quero ser mais amoroso e aceitar as coisas do jeito que são' ", escrevem em A Chave para Viver a Lei da Atração (Ed. Objetiva).
Mas, afinal de contas, quem atribui o valor positivo ou negativo às palavras? Elas têm em si esse poder? "Isoladamente, as palavras não têm conotação", explica Mary Jane Spink, coordenadora do Núcleo de Práticas Discursivas e Produção de Sentidos da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP). "Elas adquirem sentido em seu contexto de uso, ancoradas nos repertórios lingüísticos pessoais", explica. Cada palavra representa coisas diferentes para pessoas diferentes. As imagens particulares de mundo dependem, por exemplo, da experiência pessoal, do contexto sociocultural ou da idade: para um ocidental e para um oriental a definição da palavra "amor" ou da palavra "família" pode alcançar significados diversos.
Há algumas correntes da lingüística dizendo que a mente humana só é capaz de conceber aquilo que consegue verbalizar. Ou seja, que a visão de cada um depende em grande parte de seu vocabulário. E talvez seja esse um dos "segredos" para compreender o poder mágico das palavras. Aumentando a lista de expressões, pensamentos e atitudes, o ser humano percebe que há outros caminhos e escolhas possíveis. "Quantas coisas já não deram certo para mim depois que comecei a pensar somente em coisas boas!", comenta a advogada Luciana Farah, leitora assídua de livros de crescimento pessoal. "Estou certa de que as palavras têm força e não me deixo abater. Sempre penso que após algo ruim virão acontecimentos maravilhosos. E funciona", diz.
A ciência já percebeu há anos que o enunciado de sentenças como essas pode ocasionar mudanças reais no comportamento humano. "A formulação das frases tem um poder importante no modo como as pessoas agem", explica José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Pesquisas neurológicas mostram que, em certos estados de sugestão, o cérebro assimila palavras e frases como realidade", diz. As provas são as expressões ditadas em sessões de hipnose e terapia ou as técnicas de mentalização aproveitadas pelos livros de desenvolvimento pessoal. "Por isso, os melhores manuais de auto-ajuda são aqueles ancorados em pesquisas com fundamentos científicos. Se trouxerem metodologia séria, eles realmente podem funcionar", avisa José Roberto. A prática de processos de auto-ajuda, meditação ou cura por meio de livros, entretanto, permanece controversa no meio científico. Há técnicas chanceladas por pesquisadores gabaritados, mas sua associação ao linguajar de "best-seller" e a métodos menos estudados provoca desconfiança entre os acadêmicos. Em meados de 2008, o sucesso de procedimentos orientais como a meditação mindfulness, budista e transcendental (que utiliza a repetição de mantras, sílabas ou palavras normalmente da cultura indiana) nos Estados Unidos levou pesquisadores, analistas freudianos e psiquiatras americanos a estudar a fundo esses processos e seus livros. Mas as evidências não mostraram resultados relevantes na mudança de comportamento. Cientistas canadenses concluíram que as novidades não tinham "efeitos confiáveis no tratamento de depressão e ansiedade", segundo artigo do New York Times.
Enquanto terapeutas e cientistas procuram chegar a um consenso, os livros nas prateleiras dos "mais vendidos" pregam a possibilidade de se enxergar as situações por perspectivas opostas, para que as experiências também sejam ampliadas. E o primeiro passo é colocar isso em frases. "Não seria boa idéia começar a usar em seu proveito as duas palavras mais poderosas, 'eu sou'? Que tal 'eu sou a receptora de todas as coisas boas', 'Eu sou feliz'?", pergunta Rhonda Byrne, autora de O Segredo (Ed. Ediouro). Mais que unidades mágicas, as palavras são construtoras de realidades. E aí é só acreditar nesse poder. Afinal, há quem diga que "no princípio, era o verbo... e tudo foi feito por ele."
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