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janeiro fevereiro
2010


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A história Amor, substantivo feminino, enviado por Jesuane Salvador, de Poços de Caldas, Minas Gerais, foi escolhido entre os 224 relatos enviados à ação História de Cinema, divulgada pela Continuum em novembro e dezembro de 2008.

A Continuum Itaú Cultural agradece a todos pela participação e, agora, convida o público a enviar vídeos - realizados com filmadora, celular, câmeras digitais etc. - baseados nessa história. O autor do melhor vídeo receberá produtos do Itaú Cultural e ainda uma bolsa na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. Clique aqui para ler o regulamento. 

Amor, substantivo feminino
por Jesuane Salvador

Mariana ouvia Nana Caymmi, a voz que tornava tudo justificável. E, então, Canção da Manhã Feliz misturou-se a vozes femininas e, olhando sobre os ombros, ela avistou as outras mulheres que chegavam e tomavam seus lugares no fim da fila. Tapou o sol com as mãos sobre os olhos e, enxugando o suor da testa, pensou: "Já deve passar das 14h".

Desde as 11h ela esperava os portões se abrirem e, apesar da fome, não tocou na sacola de comida que levava para Daniel.

"Abre isso logo, gente! Pelo amor de Deus! Ô, desgraça!" - ouviu a mulher muito magra, de blusa de alças frouxas que deixava à mostra uma tatuagem malfeita, gritar com um cigarro preso no canto da boca.

Nana cantava agora No Analices e Mariana voltou os olhos para a frente, no portão, onde os policiais gritavam os números: 26, 27 e 28. Mais três mulheres entraram para a revista. No papel amassado entre seus dedos, 44. Ainda demoraria mais de meia hora.

Mariana sentou-se no meio-fio e refez, em pensamentos, o trajeto que em alguns minutos enfrentaria. Provavelmente entraria com a velha à sua frente e a mocinha que, logo atrás dela, lia baixinho trechos da Bíblia. Visualizou por um segundo a cena tórrida e silenciosa - três mulheres que caminhariam de cabeça baixa pelos corredores da carceragem enquanto portões bateriam, em som grave, atrás delas.

Elas entregariam as vasilhas com comida aos policiais, que esmigalhariam pães e, com uma colher, remexeriam com força as panelas transformando a comida em uma pasta homogênea.

Mariana, a velha e a jovem moça que rezava seguiriam, então, para a sala da revista. Entregariam, em gestos sonâmbulos, toda a roupa, sutiãs e calcinhas. Nuas, agachariam três vezes sem se entreolhar e, por recompensa, poderiam seguir para as celas e abraçar filhos, maridos, amásios e irmãos.

Um relâmpago chamou Mariana à realidade, anunciando uma chuva de verão. Todas as mulheres correram para perto do muro para evitar os pingos grossos que já começavam a cair e uma delas passou à frente e conseguiu entrar sem ter que ficar na fila.

Enfurecida, Mariana correu para o portão: "O que é isso, por que ela entrou? Ela chegou muito depois de mim", disse com a voz trêmula pelo cansaço.

"Como é que é? Tá com pressa? Vai agora para o fim da fila", mandou o policial. Mariana sabia perfeitamente o que aconteceria se respondesse a ele o que realmente desejava e seguiu resignada para o fim da fila enquanto gotas grossas lhe lavavam de novo o cabelo.

Nana então cantava Meu Silêncio
  


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