Entre Resplendor e Conselheiro Pena, cidades do interior de Minas Gerais, encontram-se, desde o início do século XX, os Krenak. As lutas vividas por esse povo indígena, do tempo colonial ao atual, transformaram-se em vídeo em 2017: o documentário Krenak reconta, em movimento e voz, a história dos últimos Botocudo do Leste – das “guerras justas” ao desastre de Mariana (MG). O trabalho, dirigido por Rogerio Correa e contemplado pelo Rumos Itaú Cultural, leva seus protagonistas para além: o título está presente na competição latina da 7ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (veja programação abaixo) e no Sembrando Cine 2018, festival peruano.

Conflitos pelo chão

Séculos de batalhas e perdas aglomeram-se assim, em cada um de um grupo tanto, nas pupilas alertas. Há um querer a terra que lhes é de direito. Os portugueses, quando a colônia se fazia Equador abaixo, depararam-se com os Krenak no fim do século XVIII. Na época, o território primeiro desses indígenas era a Mata Atlântica no Baixo Recôncavo Baiano. Expulsos pelos Tupi, mudaram-se para a Floresta Latifoliada Tropical Úmida da Encosta. Anos à frente, no início do centenário passado, o líder desse conjunto comandou uma separação dos Gutkrák, quebra realizada no Rio Pancas, no Espírito Santo. Cisão dada, os Krenak migraram novamente. Fizeram morada na margem esquerda do Rio Doce, onde, ainda hoje, continuam, porém em um contexto bem distinto: no término dos anos 1920 o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), programa da Fundação Nacional do Índio (Funai), colocou-os em uma reserva de 4 mil hectares junto a demais comunidades, como os Pojixá e os Gutkrák (aqueles de quem os Krenak haviam se apartado). Vítimas desde massacres carimbados por D. João VI, em 1808, até o rompimento da barragem em Mariana, em 2015, eis pessoas que se empenham em resistir. E existir – em um chão que lhes seja próprio.

Há de ser doce

Não como o rio hoje. Mas da forma que, em um ontem já distante, as águas ali foram. “A irresponsabilidade do Estado brasileiro contaminou o Rio Doce. É uma dor enorme ver tamanha negligência”, desabafa Rogerio Correa. Tal pesar é um dos esteios que impeliu o cineasta a produzir o documentário. A outra corrente de estímulo veio do desejo de contar uma narrativa ainda não abordada com profundidade no meio audiovisual: “Sempre quis realizar um filme sobre o período da ditadura militar. Em 2011, comecei um processo de pesquisa e achei algumas reportagens sobre os Krenak, nada detalhado”, recorda o diretor. Desse modo, teve certeza da história a ser relatada. Descobriu um mestrado na área de sociologia sobre o povo focalizado e, a partir dessa dissertação, iniciou a sua imersão no universo indígena.

O estudo empenhado de Rogerio se deu até 2016, data em que viu no Itaú Cultural uma possibilidade de parceria. O vídeo piloto tornou-se real em dezembro de 2016 e, após mais filmagens em fevereiro de 2017, o longa ficou pronto em setembro. “Tive uma liberdade tão grande, autonomia mesmo, tanto do instituto quanto do Ministério Público Federal de Minas Gerais”, pontua o artista. E completa: “Foi uma obra prazerosa. Tive também colaboração da família de Douglas Krenak: eles me mostraram o seu território e a sua cultura”. Correa criou laços de amizade com muitos dos locais, afeto que o ajudou a fortalecer a empatia e a admiração por esse grupo. “Quero mostrar a riqueza cultural e a aptidão comunitária que há neles. Que respeitem essas pessoas que, ao longo da trajetória nacional, foram bastante maltratadas. E que recuperem o rio, rio que não só faz parte da vida indígena, como também de populações ribeirinhas”, explica o documentarista. Há de ser doce, deve ser doce, tem de ser doce: uma doçura que é, acima de tudo, decência no trato com gente tão rica.

 

Rio Doce | divulgação

Apaixonado, apaixonado

Esse é o termo que define a relação de Rogerio Correa com o cinema: apaixonado. Aos 15 anos, esse amor nasceu: em 1969, com um super-8, bem no princípio da explosão do formato tido como a evolução da película 8 mm, o adolescente despertou-se para o gravar. Ao lado de um amigo e munido de uma câmera pequena, começou. Logo no primeiro feito percebeu que o encanto o havia tomado. Cursou a graduação de audiovisual na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e, no mestrado e no doutorado, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), deteve-se no campo de artes visuais na cinematografia. “É uma paixão absoluta, um projeto de vida”, resume o diretor. Krenak é resultado de um fascínio múltiplo: pelo ofício e pelos encontros diante e atrás das telas. 

Programe-se

O documentário compõe a competição latina da 7ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (veja programação abaixo) e o Sembrando Cine 2018, celebração no Peru. “São ótimas oportunidades para que o trabalho chegue a públicos mais amplos”, comemora o cineasta. O evento brasileiro possui quatro sessões de Krenak em São Paulo, sendo duas delas seguidas por debates. Confira as informações:

Centro Cultural Banco do Brasil
sexta 1 de junho de 2018
às 16h30
Krenak (Brasil, 74 min) –  competição latina
Sessão seguida por bate-papo com os realizadores 
Rua Álvares Penteado, 112
Telefone: (11) 3113-3651

Centro Cultural Banco do Brasil
segunda 4 de junho de 2018
às 15h
Krenak (Brasil, 74 min) – competição latina
Rua Álvares Penteado, 112
Telefone: (11) 3113-3651

Circuito Spcine Olido
quinta 7 de junho de 2018
às 19h30
Krenak (Brasil, 74 min) – competição latina
Avenida São João, 473
Telefone: (11) 3331-8399

Circuito Spcine Centro Cultural 
sábado 9 de junho de 2018
às 19h30
Krenak (Brasil, 74 min) – competição latina
Sessão seguida por bate-papo com os realizadores 
Rua Vergueiro, 1000
Telefone: (11) 3397-4002

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