Difícil não tê-lo escutado. A música dele está ali, nas entranhas de canções-marco, na base de memórias que são de um alguém e, ao mesmo tempo, de uma gente toda. Raphael Rabello aparece em cerca de 600 faixas, gravadas no Brasil e no exterior, como “O Meu Guri”, composição de Chico Buarque, e “Cinema Novo”, da dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil. Desse modo, ainda que não se reconheça de pronto a participação do violonista em certa criação, ele é peça importante no conjunto de obras que, há décadas, dão o tom de tantas fases, de tantas vidas.

O jornalista Lucas Nobile, na juventude, foi um dos que não desvendaram, logo em um piscar, as cordas de Rabello. Curioso e apaixonado por samba, choro e MPB, porém, desenvolveu o hábito de olhar as fichas técnicas das coletâneas que o encantavam. Por procurar com insistência, encontrou: em muitos dos sons amados, as harmonias do artista se faziam presentes. A descoberta, assim, tornou-se fascínio, sentimento que impulsionou Lucas a escrever a biografia do músico. Raphael Rabello: o Violão em Erupção, projeto selecionado pelo programa Rumos 2015-2016, é resultado de mais de 130 entrevistas e análise dos 25 discos do instrumentista. Para comemorar o lançamento, no dia 3 de maio, às 20h, o autor do livro recebe Zuza Homem de Mello (musicólogo, jornalista e produtor musical), que fez o prefácio, e Rogério Caetano (violonista, compositor e arranjador) em um bate-papo sobre o trabalho do homenageado. A mediação fica a cargo de Edson Natale (gerente do Núcleo de Música do Itaú Cultural), responsável pela orelha do volume.

Raphael Rabello e o seu instrumento-extensão | foto: Henrique Sodré 

Quando fala o violão
Aos 13 anos, Raphael foi convidado para substituir Dino 7 Cordas, o mestre do então menino. O garoto conduziu tudo à altura de um homem crescido e, já nessa circunstância, mostrou que nele crescia talento de nascença. Coincidentemente, em idade análoga, Lucas Nobile começou a tocar cavaquinho (após breve namoro com o piano clássico), paixão que o acompanha até hoje, um dos frutos de ter crescido em família ouvinte de trilhas nacionais. Tal bagagem, de Alcione a Francisco Alves, também levou Lucas a investigar os diversos profissionais envolvidos nos álbuns que o cercavam. Dessa forma, descobriu Rabello, nome do qual não mais se esqueceu.

Quando criança, acompanhado pelos pais, assistiu a um show do violonista, experiência que prenunciava encanto. Em outubro de 2012, quando o músico completaria meio século, o agora jornalista sugeriu a feitura de uma matéria-homenagem. E foi a partir da apuração para a pauta que um dado se sobressaltou: havia pouco material sobre o artista, informações dispersas na internet e, por vezes, conflitantes, errôneas. Estava posta a faísca que faltava: por que não contar, em papel, a história do instrumentista?

De lá para cá, Nobile envolveu-se em outras produções, como Dona Ivone Lara – a Primeira-Dama do Samba (2015), mas não se desvinculou por inteiro da trajetória do petropolitano morto aos 32 anos. Quando ficou pronta a biografia da cantora de “Sonho Meu”, o pesquisador foi contemplado pelo Rumos, apoio financeiro que lhe possibilitou custear viagens ao Rio de Janeiro para conversar com parentes, amigos, colegas de profissão, todos aqueles que, de alguma maneira, tiveram contato com o personagem central. “Às vezes, o convívio de uma tarde pode gerar um bom relato. Quis ouvir todo mundo que fosse possível”, pontuou o biógrafo.

Em mais de 300 páginas, Nobile narra uma vida que, apesar de curta, se fincou em intensidade exacerbada. Potência de um inventor que, falecido em 1995, transitou entre o popular e o erudito e revolucionou o violão, especialmente o de sete cordas, ao criar uma nova linguagem e colocá-lo como instrumento solista. Um violão que parece ter voz própria.

Veja também:
>> Ocupação Dona Ivone Lara

O equilíbrio burilado
Como explicar um gênio? Eis o questionamento que permeou o processo de elaboração do livro. “Como descrever a gravação de ‘Luiza’, de Tom Jobim, feita por Raphael Rabello?”, pergunta-se Lucas Nobile. Segundo ele, o desafio maior foi formular um compilado que não soasse hermético para quem não é íntimo do universo retratado e tão pouco fosse raso aos olhos do grupo que possui conhecimento prévio.

“A minha principal preocupação foi redigir um material voltado para um público amplo”, afirma. No fim, depois da leitura de uma existência inteira, há a discografia completa de Raphael, bem como fichas técnicas e uma catalogação das contribuições dele em discos de outros artistas. A vontade última do biógrafo é simples até: que as pessoas ouçam, ouçam mais, aquele cuja obra é esteio de melodias, letras, sentimentos, sentidos vários – e segue a constituir descendências.

Lançamento do livro Raphael Rabello: o Violão em Erupção [com interpretação em Libras]
Bate-papo com Lucas Nobile, Zuza Homem de Mello e Rogério Caetano e mediação de Edson Natale
quinta 3 de maio de 2018
às 20h
[duração aproximada: 75 minutos]
Sala Itaú Cultural – 224 lugares

Entrada gratuita

distribuição de ingressos
público preferencial: duas horas antes do espetáculo | com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do espetáculo | um ingresso por pessoa

[livre para todos os públicos]

Clique aqui para saber mais sobre a distribuição de ingressos.

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