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Amizade e rio, eis os significados de Luedji, palavra de origem tchokwe que também nomeia a rainha do Reino Lunda, considerada mãe de Angola e cuja história é o cerne de um romance de Pepetela (Lueji – o Nascimento de um Império, 1990). Luedji Luna, portanto, carrega, já na alcunha, algumas das linhas que tecem a sua identidade. Nascida em Cabula, bairro soteropolitano, a cantora lançou, em 2017, o seu primeiro álbum, Um Corpo no Mundo, coletânea de canções autorais fomentada por uma campanha de financiamento coletivo e um prêmio cultural. O projeto ganha uma energia ainda mais direta no palco, cujo show contará, no Auditório Ibirapuera, com a participação de Zé Manoel, cantor, compositor e pianista pernambucano.

Colaborar com outros artistas é experiência da qual Luedji muito se alimenta. O disco, por exemplo, foi construído a várias mãos. A produção musical é assinada pelo sueco Sebastian Notini e o leque sonoro é amálgama grande: cada músico trouxe referências calcadas em seus universos íntimos. Ritmos angolanos, sons da Bahia, inspirações de Cabo Verde, reggae e soul são pulsações presentes no trabalho de estreia. A falta de recorte específico é proposital e tal escolha está em conformidade com a essência do álbum: “Queríamos um disco que falasse sobre o não lugar”, explica a intérprete.  Um espaço que não se acha (ou que é encontrado a duros pesares) não acompanha influência única.

Sentir-se sem representação nas ruas é um desconforto conhecido pela baiana. Ao vir para São Paulo, na época com 27 anos, sofreu enorme impacto em razão da ausência de corpos negros na cidade. Uma solidão dupla a tomou: sozinha por não conhecer ninguém na metrópole; sozinha por não se enxergar na capital paulista. “Ser estrangeiro no próprio país é ter de legitimar a própria existência o tempo todo. O povo negro foi formador dessa nação, construímos seu patrimônio, mas não gozamos dessa riqueza”, afirma a compositora.

Concomitantemente, porém, em meio à multidão estranha, Luedji descobriu uma ressonância do seu não pertencer: imigrantes haitianos que circulavam pela Barra Funda. Estrangeiros de fato – os quais, apesar de compartilharem de angústia comum, sentem e pensam em idioma distinto, o que dificulta o diálogo, a troca. O choque dos passos iniciais na Pauliceia originou a faixa “Um Corpo no Mundo”.

A partir da canção-título, a artista resgatou composições antigas e escreveu outras tantas. A internet foi o canal responsável pela visibilidade primeira de uma voz que é, antes de tudo, um jeito de existir.

Desde criança, Luedji canta. Mas a criação recebida apontava, para ela, direções como cientista ou funcionária pública, o que implicou em um laço inicial de negação com a música. “Não existia encorajamento: nem da minha parte nem do meu contexto”, lembra. Aos 25, criou coragem. Com o dinheiro de um estágio em direito, matriculou-se em aulas de canto. Momentos depois, já no Sudeste, delineou o seu estopim profissional – não sem ter uma crise pela escassez de representatividade de mulheres negras compositoras no rol da MPB. Hoje, contudo, os conflitos de naturezas heterogêneas vividos por Luedji Luna são transformados em arte.

Luedji Luna [com interpretação em Libras] | INGRESSOS ESGOTADOS
domingo 22 de abril de 2018
às 19h
[duração aproximada: 70 minutos]

ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)

[classificação indicativa: 12 anos]

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