O projeto Luthiers do Cariri Cearense, contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2013-2014 e idealizado pelo professor e pesquisador em música pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) Márcio Mattos, mapeia e documenta os mestres luthiers da região. Por meio do registro fotográfico e audiovisual, Mattos conversou com dez mestres a fim de preservar esses saberes e fazeres musicais e difundir esse conhecimento.

(Foto: Hélio Filho)

 

Como surgiu e qual é a proposta do projeto Luthiers do Cariri Cearense?

Passei a morar no Cariri em 2010, para ser professor de música na universidade federal da cidade. Desde então, comecei a reparar nos grupos tradicionais locais. Vários deles constroem os próprios instrumentos: percussão, rabeca, sopro e outros mais inusitados – alguns bem refinados, com uma boa afinação e ótimo acabamento. Comecei a me interessar e a me envolver com essas pessoas, a conhecer esse trabalho mais de perto, e resolvi registrá-lo porque é um ofício que está acabando, mesmo lá, onde a gente ainda o encontra bastante. Hoje em dia, a facilidade de você comprar um instrumento barato vindo da China é muito grande, então esse trabalho está ameaçado.

Mas o que me chamou atenção mesmo são os materiais que eles utilizam para a construção desses instrumentos, que trazem uma sonoridade muito característica da região. A cabaça, a taboca para fazer o pífano e as flautas, até sucata eles usam. A madeira também é algo que contribui para a peculiaridade de seus produtos. A ideia é registrar isso: é um trabalho muito rico e existem poucos documentos desse fazer. Para não dizer que não existe, um dos luthiers entrevistados no projeto, o mestre De Freitas, Juazeiro do Norte, tem alguns registros, mas são poucos.

Como foi o processo de escolha dos dez mestres que participaram do projeto – quais foram os critérios?

Quando escrevi o projeto para o Rumos, deixei essa questão em aberto e aos poucos fomos lapidando-a, até que chegamos ao número final de dez mestres. A partir do momento em que isso estava definido, pensei em contemplar a diversidade dos instrumentos e dos fazeres. Então tem rabeca, pífano, violão, cavaquinho, bandolim – busquei registrar uma variedade grande. Dois desses dez me chamaram muito atenção: um que utiliza materiais inusitados, como ferro, isopor e plástico, produzindo o que ele chama de escultura sonora e trazendo a estética visual do Cariri para os objetos; e outro que faz um trabalho com crianças em escolas, constrói instrumentos com elas, com a intenção de transmitir o saber e o fazer do luthier.

(Foto: Hélio Filho)

 

No Cariri existe algum equipamento cultural que dialogue com seu projeto e que tenha a preocupação de preservar essa memória?

Por meio da pró-reitoria de cultura da Universidade Federal do Cariri [UFCA], fizemos parcerias com o Centro Cultural do Banco do Nordeste, com o Sesc e com a Fundação Casa Grande. E vale dizer que são poucas as universidades brasileiras que possuem uma pró-reitoria de cultura. Esse trabalho de preservação da memória tem sido feito além do registro também, com palestras nas quais debatemos o projeto. No próprio curso de música, percebemos que os alunos estranham e desconhecem esses instrumentos. Por incrível que pareça, a música tradicional na região tem perdido muito espaço nas rádios, na televisão e nas secretarias de Cultura, portanto é de extrema importância preservar e divulgar esse tipo de trabalho.

No curso de música, você trabalha esses instrumentos com os alunos?

Temos um núcleo de estudos chamado Centro de Estudos Musicais do Cariri [Cemuc] e lá fazemos esse trabalho de aproximar os alunos e os pesquisadores desses mestres. Tanto os mestres vão à universidade quanto os alunos fazem pesquisa in loco, conhecem o espaço dos luthiers. Fazemos essa troca de saberes. Então, mestres como Jony, De Freitas e Totonho, que participaram do registro feito para o projeto Rumos, já passaram pela universidade e deram oficinas, participaram de seminários – essa troca existe. Temos feito esse trabalho de envolver os alunos, mas sem a obrigatoriedade, e a resposta tem sido boa. É normal que os alunos mais novos que entram na universidade tenham interesse por guitarra, contrabaixo e saxofone, mas muitos se interessam pela música tradicional e se envolvem.

(Foto: Hélio Filho)

 

Trazendo a música e o fazer desses mestres para a vida cotidiana da região, o que você pôde perceber dessa relação?

A música é um elemento muito forte e muito presente na vida cotidiana dessas pessoas, e isso fica claro nas festas religiosas, quando ocorre a novena do município, a festa da padroeira, festa junina – Juazeiro do Norte, por exemplo, tem sete romarias durante o ano –, e essas manifestações fazem com que esse tipo de música ainda se mantenha. Uma produção musical que é feita por lavradores, por gente que trabalha na feira, e essa música retrata esse contexto social, esse dia a dia. Ao mesmo tempo, temos um choque muito grande com a urbanização: o processo de urbanização traz com ele a música massiva, a música que toca nas novelas e nas rádios, e as crianças deixam de ter interesse nessa produção musical mais tradicional.

Existe algum diálogo com as secretarias de Cultura da região? Como elas enxergam essas manifestações culturais e os saberes desses mestres?

Estou na região há cinco anos. Cheguei a uma realidade de esquecimento. Pelos relatos de pessoas que trabalham no setor da cultura, antes o diálogo era mais frequente. Não vou dizer que não existe; existe um apoio, mas é algo que ocorre quando os grupos ganham algum destaque na mídia e aproximar-se deles passa a ser de interesse do poder público – isso na esfera municipal. Há uma iniciativa da Secretaria Estadual de Cultura muito interessante e que merece destaque. Abre-se um edital pelo qual os mestres submetem sua candidatura. Os contemplados são diplomados e passam a receber uma renda vitalícia para que possam preservar e transmitir seus saberes.

(Foto: Hélio Filho)

 

Como funciona a materialização dessa musicalidade em CD, DVD ou disco? O mercado e a indústria fonográfica olham para isso?

De alguma maneira, essa musicalidade tradicional do Cariri já está presente no Brasil todo, e o grande responsável por isso foi Luiz Gonzaga. Desde a década de 1940, quando incorporou as referências da região em sua música, ele expandiu essa sonoridade para o país inteiro e passou a influenciar muitos artistas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Sivuca, Dominguinhos e Hermeto Pascoal. Se existe xote e baião espalhados pelo Brasil, devemos isso em grande parte a ele. Foi um processo de massificação da música tradicional da região, mas mesmo Luiz Gonzaga precisou adaptar essa sonoridade para gravar suas músicas, porque é um estilo que não se encaixa no formato de começo, meio e fim ou com a extensão de três a quatro minutos.