Um mundo cheio de idéias

/ Entrevista

Um mundo cheio de idéias

Por Thiago Rosenberg

Uma idéia, seja ela simples ou brilhante, é comumente representada por aquela pequena lâmpada incandescente que se acende sobre a nossa cabeça. O insight, por sua vez, é a própria luz, capaz de se expandir sem limites, de modificar as convenções do passado e estabelecer as bases para as do futuro. Capaz de gerar uma inovação.

Mas o que é, afinal, uma inovação? Não se trata de uma mera novidade, algo que nunca tenha sido feito antes. A inovação é mais do que isso. Ela é responsável por mudanças significativas, positivas e duradouras no meio em que se insere. Algo como a invenção da roda, o desenvolvimento da eletricidade ou, pelo que nos lembra nesta entrevista o ciberneticista norte-americano Paul Pangaro, coisas mais modestas, como aqueles pacotes de alimentos que podem ser abertos sem tesouras. Assim como o também ciberneticista Dr. Wires, Pangaro busca explicações simples para teorias complexas. A seguir, ele associa inovação à idéia de emergência – tema desta edição da Continuum Itaú Cultural e da entrevista com Dr. Wires – e comenta as inovações no campo das artes. Otimista, Pangaro diz que “é sempre possível criar algo” e que vivemos em uma época de grandes insights – cujos benefícios, espera ele, podem ser sentidos em nosso “mundo complexo e difícil”.

O que é inovação?
Nesses últimos anos, escreveu-se muito sobre inovação. Raramente se apresenta uma definição, mas, para mim, trata-se de um insight que leva a uma mudança de valor positivo e real. Geralmente é necessário muita paixão – até obsessão – para encontrar o insight que destrava as possibilidades (papel do inventor). Depois, é preciso até mais paixão para seguir adiante com a mudança (papel do inovador), indo contra a resistência daqueles que têm um interesse velado no estado atual.

Não conheço uma definição melhor – uma que diferencie a inovação de apenas uma idéia, ou uma invenção, ou uma melhoria do que já está acontecendo. A inovação pode ser algumas ou todas essas coisas, mas, em minha opinião, essas, por si sós, não são o suficiente. A inovação pode acontecer em qualquer nível de uma organização, em relação a processos novos ou antigos, aspectos grandes ou pequenos. Mas, a não ser que haja um insight que provoque uma mudança de valor positivo, em minha opinião, isso não é uma inovação.

Como esse conceito se insere na discussão sobre emergência, tema desta edição da revista Continuum Itaú Cultural?
É possível reconhecer alguns poucos resultados inesperados, ou emergentes, no processo de inovação. Em grande parte, acredito que a emergência ocorra quando o inventor reconhece que há um problema a ser resolvido (algo que não está funcionando bem) e decide se aprofundar no problema e esperar por aquele lampejo de insight. Esse insight emerge das idéias que o inventor reuniu, mas não é possível prever qual será, ou quando ele irá ocorrer (se é que irá ocorrer!). Logo, ele é emergente.

A emergência também pode ocorrer depois que o trabalho do inventor, ou do responsável pelo insight, estiver quase pronto, e o trabalho do inovador, cuja obsessão o impulsiona para levar o valor da inovação ao mundo, começar. (Raramente o inventor e o inovador são a mesma pessoa, porque as habilidades e os tipos de criatividade são muito diferentes.) As interações entre a inovação e o mundo no qual ela se move podem gerar efeitos emergentes, não apontados com antecedência. E esses efeitos podem ser positivos ou negativos. A inovação do automóvel, por exemplo, realmente criou um valor positivo aos indivíduos, que se viram livres para morar mais longe do trabalho e aproveitar um estilo de vida mais rico. Porém, o conseqüente crescimento desenfreado das cidades, a poluição e o trânsito barulhento são todos efeitos emergentes negativos que não haviam sido previstos.

Qual foi a última grande inovação da história da humanidade?
Essa é uma pergunta difícil de responder. Por duas razões. Primeiro, ela requer um entendimento de culturas do qual outras pessoas têm um maior domínio do que eu. Segundo, e mais importante, cada inovação é feita com base no que veio antes. Para que inventassem a roda, foi preciso obter a técnica de escultura em pedra. Para que o telefone fosse desenvolvido, foi necessário o conhecimento das propriedades elétricas e magnéticas dos cabos. E assim por diante. Talvez a rede world wide web (www) seja a grande invenção mais recente, mas o que queremos dizer com isso? Os computadores da rede precisam manipular dados digitais que são o cerne da rede; sem computadores, não há rede. A www se tornou possível pela inovação dos dados por comutação de pacotes, que possibilitam um roteamento redundante automatizado ao redor do globo; sem a comutação de pacotes, não há rede. E tantas inovações foram necessárias para criar a armazenagem de disco da rede e as telas dos monitores dos usuários (fui um dos primeiros beneficiários da inovação referente às telas coloridas de computadores, sendo que escrevi o programa para um dos primeiros modelos). Finalmente, o conteúdo da rede se torna disponível por meio de navegadores que utilizam padrões abertos e protocolos simples (tal como o HTML), o que incentivou a disseminação rápida de conteúdo e servidores, e, portanto, possibilitou a um grande número de usuários o acesso em um curto espaço de tempo.

Cada uma dessa peças são inovações necessárias para que a rede se forme com todo seu poder. Então, ao passo que acredito que a rede seja uma grande inovação, não tenho certeza onde ela começa e onde termina. E o mesmo se aplica a qualquer grande inovação.

Talvez a melhor resposta de todas seja uma pergunta: para quem a última grande inovação foi grande? Se especificarmos o beneficiário, podemos especificar com mais clareza a inovação e explicar por que acreditamos que ela seja a maior.

A internet representou uma inovação na área das comunicações?
Respondi sobre as inovações tecnológicas da rede, que se baseiam em grande parte na internet. Especificamente sobre a área de comunicações e a internet, sim, certamente a internet oferece inovações às comunicações: a entrega de e-mails e de conteúdo é muito mais rápida, simples e barata do que antes. Isso tudo é bom. Mas gostaria de fazer uma distinção entre a comunicação e a conversação. A “comunicação” empurra o conteúdo. A “conversação” necessita de uma troca recíproca e contínua entre os participantes, com base em um conhecimento geral, e é contínua devido a um acordo para se continuar (geralmente por haver metas compatíveis ou semelhantes). A conversação também implica a evolução do ponto de vista de um ou ambos os lados da troca; se não há evolução, ela se torna mera comunicação, isto é, a troca de mensagens já conhecidas como possíveis. A conversação é uma exploração do que ainda não é conhecido como possível (e, portanto, um excelente exemplo de sistemas emergentes).

À parte da velocidade e do volume de conteúdo, não creio que a internet seja – ainda – uma inovação na comunicação, já que não vejo os requisitos da conversação ter o suporte direto das interfaces do usuário. Um navegador, ou e-mail, ou blog, ou wiki (inclusive a Wikipédia), não são nada além de formas eletrônicas da mídia antiga – livros, cartas, jornais, reuniões de cidades – em um formato eletrônico elegante. Embora eu acredite que a internet venha a dar suporte à verdadeira conversação em seu design central, ainda não vejo isso acontecendo.

E o que poderia vir a ser uma inovação na internet?
Seguindo a mesma linha de raciocínio, acredito que uma abordagem conversacional às interfaces da internet – um navegador que ajude a criar, sustentar e desenvolver um relacionamento recíproco entre os participantes em uma verdadeira conversação – não apenas é possível, mas inevitável, porque a conversação é fundamental à vida. Espero presenciar esse evento na próxima geração, e talvez exercer alguma influência sobre isso.

O senhor pode nos apontar exemplos de inovação no campo das artes?
Todo grande movimento nas artes é uma inovação: um grande insight que abre espaço para novas possibilidades e resulta em mudanças de valor positivo. Um movimento, uma vez iniciado, cria imensas oportunidades de exploração e experimentação. A arquitetura e a música são meus campos de arte favoritos, mas são apenas duas amplas categorias na qual a inovação ocorre há muitos, muitos séculos. Sempre que um problema é reconhecido e um insight resulta em sua mudança, segue-se a inovação. Um exemplo de inovação na música é o teclado, instrumento que pode ser tocado em qualquer escala musical, sem a necessidade de uma nova afinação (pense em O Cravo Bem Temperado, de Bach). Talvez uma métrica para a “escala da inovação” seja a exploração que vem a seguir: quantos projetos importantes e obras significativas se seguiram a um movimento artístico. Porém, mais uma vez, existe a subjetividade de decidir quem se beneficia com isso, e onde começa e termina uma dada inovação.

O senhor afirma que o processo de inovação deve gerar mudanças de valor positivo; ou mudar, para melhor, uma convenção. Quando falamos em inovação nas artes, esse valor positivo não se torna um tanto subjetivo? O que é melhor ou pior para as artes?
Essa questão atinge o cerne da diferença entre as artes e as tecnologias. As métricas para mensurar “o melhor” são perigosas devido à subjetividade que você mencionou. Mesmo no que se refere às tecnologias, a imposição de métricas resulta em julgamento, mas, em alguns casos, certas medidas são válidas. “Menor”, “mais rápido”, “mais barato”. Esses talvez sejam os exemplos mais famosos para a era dos computadores, referindo-se a uma perspectiva ligada à tecnologia.

Mas, nas artes, precisamos de uma perspectiva humana para medir o valor – se é que ele pode ser medido. Para mim, o valor da arte está na ressonância que uma obra tem sobre um indivíduo. Quanto mais forte a ressonância no cotidiano – quanto mais a arte aprofunda nossos sentimentos e enriquece nosso entendimento da vida, durante um período de tempo mais longo -, “mais importante” é a arte.

Portanto, nessa minha estrutura, o “melhor” para as artes é a inovação que provoca o impacto mais abrangente. Isso pode se dar imediatamente (como quando a bossa nova se espalhou pelo mundo de forma direta e na sua própria forma) ou anos mais tarde, como resultado de influências secundárias (a guitarra elétrica transforma muitos gêneros de música popular através de gerações de músicos). Com isso, não me refiro apenas à “arte popular”, mas a qualquer arte que aumente a experiência. “O pior” para as artes seriam as inovações (ou qualquer nova direção, inovadora ou não) que se afastassem da ressonância com o cotidiano. Mas acho que essa é uma opinião pessoal.

Em uma sociedade em que surgem coisas “novas” a cada instante e em que a obsolescência é quase instantânea, não é fácil inovar. Tudo parece já ter sido criado e nada mais surpreende. O senhor concorda com essa premissa? Se sim, como criar algo genuinamente novo? Isso é uma utopia? Algo novo precisa ser necessariamente revolucionário?
Concordo que seja surpreendente que é sempre possível ter mais inovação, mas essa é a própria natureza dos sistemas emergentes: obter aquilo que não é esperado. Geralmente me surpreendo com uma pequena inovação de algo que utilizo em meu cotidiano. Por exemplo, pacotes de alimentos que consigo abrir sem tesouras, e que ao mesmo tempo podem ser selados para manter o conteúdo sempre fresco.

Porém, também é verdade que a evolução de sistemas complexos é “pontuada” com fases curtas de grandes mudanças, seguidas por longas fases de pequenas mudanças. Talvez os termos “revolucionários” e “evolucionários” se apliquem a essas fases diferentes. As fases revolucionárias de mudança podem ocorrer apenas quando o novo insight tem um grande potencial inerente; quando ele “abre um novo espaço de possibilidades”.

É sempre possível criar algo. Mas algumas épocas oferecem mais oportunidades do que outras, dependendo do estado atual do conhecimento – das possibilidades para um grande salto – e daqueles insights raros e surpreendentes que criam mundos de valor. Temos sorte de viver em uma época de muitos grandes insights. Espero que tenhamos mais deles, e que tragam valor a um mundo complexo e difícil.

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