O primitivo efeito do susto

/ Reportagem

O primitivo efeito do susto

André Seiti

Lagarto gigante invade a cidade de Nova York. Alienígena em nave espacial extermina tripulação. Garota endiabrada retorce o pescoço e vomita em padre. Extraterrestres em discos voadores ameaçam destruir a Terra. Ser monstruoso que se camufla na selva dizima soldados. Para alguns, personagens assustadores que se tornam ainda mais tenebrosos com a pirotecnia sem limites dos efeitos especiais hollywoodianos. Para outros, criaturas que estão longe de dar frio na espinha, ainda mais se comparadas ao terror primitivo, em todos os sentidos da palavra, de um dos mais antigos − e ainda assim atuais − personagens do gênero, a Monga, ou a mulher-macaco.

Há mais de um século espalhando medo e pânico em circos e parques de diversão de todo o Brasil, a atração parece não sofrer as intempéries cronológicas. “Trata-se de um clássico do terror, como Frankenstein, Drácula e Lobisomem, que adotaram diversos formatos ao longo da evolução do tempo”, explica Juan Espeche, dono da Indiana Mystery, empresa responsável pelo espetáculo no Playcenter, parque de diversão de São Paulo. “Quando algo mexe com o emocional, você jamais esquece dele.” Assim como os famosos personagens de terror, a Monga recebeu uma versão mais atual, devidamente adaptada para os dias de hoje. Mas o medo e a pelugem continuam os mesmos.

Novos tempos, velhos medos
São menos de 15 minutos de duração. As sessões estão sempre lotadas. O ambiente escuro muito lembra o de um cinema, principalmente quando um filme começa a ser exibido. Nele é contada a história de Julia Pastrana, renomada bióloga mexicana especialista em gastar a fortuna do pai em pesquisas. Em uma de suas investidas científicas, ela descobre algo que nem Charles Darwin imaginaria: criaturas africanas − os famigerados mongas − capazes de alterar o código genético humano com uma simples mordida. Julia reúne sua trupe e parte em uma expedição para o berço da humanidade. Sua equipe é capturada por uma tribo hostil, os sunacos, e oferecida em ritual de sacrifício aos mongas. Como não poderia deixar de ser, a bióloga consegue escapar, não sem antes receber uma mordida que a transforma em mutante. Eis então que é feito o convite ao público para que se dirija à outra sala, onde, vinda diretamente da África, está Julia.

“Vamos embora daqui, eu não quero ver isso”, a súplica de retirada, feita por um garoto à amiga, logo após assistir ao vídeo, é comum. Muitos, prevenidos, desistem de arriscar a pele. Os mais destemidos seguem adiante por um corredor que desemboca em outra sala escura. Lá, enjaulado e acorrentado, está o malfadado macaco gigante que, após receber uma injeção de uma droga chamada Trix 50, se transforma em mulher. Mesmo adequadamente trajada com blusa e camisa brancas, shorts e botas, como uma verdadeira expedicionária (as versões mais tradicionais a apresentavam apenas com um biquíni, uma vestimenta não muito científica), Julia causa frisson nos hormônios do público masculino. Alguns, talvez confundindo medo com sentimentos mais carnais ou esquecendo do imenso perigo que está à frente, arriscam elogiar as formas físicas da garota. Mal sabem eles que o efeito do Trix 50 é passageiro e a transformação da formosa fêmea em aterrorizante símio é iminente. Por meio de efeitos visuais repletos de luzes e de sombras, que dão inveja aos maiores estúdios cinematográficos, o primata dentro de Julia volta a se manifestar e, sem hesitar, quebra corrente e jaula e avança sobre o público. Em questão de segundos a sala escura está vazia.

A bela e a fera
Sempre seguindo um roteiro simples (e infalível), a atração continua a despertar a curiosidade e a fascinação de milhares de pessoas por dia. “A magia da Monga está na velha fórmula da bela e a fera”, conta Espeche. “O público se solidariza com a moça bonita ao mesmo tempo que a teme. É um contraste grande.” No entanto, solidariedade foi o que faltou para com a verdadeira Julia Pastrana, a mulher que inspirou a atração da Monga. Provavelmente descendente de índios mexicanos, Julia nasceu em 1834. Portadora de uma doença rara, a hipertricose, que fazia nascer pêlos por todo o corpo, a garota foi “descoberta” pelo comerciante Theodor Lent, que a exibia em circos de horror pelos Estados Unidos e pela Europa, na primeira metade do século XIX. Julia morreu aos 26 anos devido a complicações no parto. Seu filho, que também sofria da doença e era fruto do casamento com o comerciante, sobreviveu apenas três dias. Mas isso não foi problema para o espírito empreendedor e nada oportunista de Lent: ele mandou mumificar a esposa e o filho para prosseguir com seu espetáculo. Hoje, as múmias estão no Instituto Forense de Oslo, na Noruega. (Em tempo: Lent morreu em 1880, em um hospício.)

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A atração e o alvoroço chegam ao fim, mas ainda é possível ouvir alguns poucos gritos de pavor − misturados com outros de ansiedade do público, em sua maioria estudantes, que aguarda do lado de fora uma das 50 apresentações diárias da Monga. Pessoas que não mais buscam ver anomalias humanas, mas, sim, uma alegoria tipicamente latino-americana. Pessoas que querem ver algo belo que se transforma em algo feio. Pessoas que estão à busca de sustos efêmeros − para o deleite da atriz Ana Sampaio, que interpreta a bióloga Julia e que confessa sentir “certa satisfação em ver o medo nos olhos do público”. Pessoas que sabem que não viverão experiência semelhante em outro lugar, como numa sala de cinema. Afinal, que atire a primeira pedra quem já viu os espectadores fugir amedrontados de uma sala de projeção após assistir ao filme do Lobisomem…