por Um Por Todos - Anna Muylaert

Soube recentemente que, entre tantas interpretações do famoso símbolo do olho de Hórus egípcio, uma das primeiras seria a de que cada um dos seis traços que o compõem se refere a um dos nossos cinco sentidos e mais um sexto traço referindo-se ao que se considerava o sexto sentido: a nossa capacidade de pensar e todas as capacidades decorrentes, como conceituar, medir, calcular, premeditar, narrar e imaginar. Isso indicaria que, naquela época, a faculdade de pensar era considerada apenas mais uma de nossas capacidades para interagir, sobreviver e lidar com a vida na Terra.

Com o passar da história, porém, o pensamento foi tomando frente sobre os outros sentidos do homem. No século XVII, com a famosa frase “Penso, logo existo”, do filósofo francês René Descartes, a cultura europeia passou a se identificar cada vez mais com a chamada “mente racional” e seus subprodutos, como a ciência e a tecnologia, que lhe conferem controle sobre os outros homens, sobre os animais e mesmo sobre as forças naturais do planeta.

No Oriente, no entanto, muitas filosofias e teologias veem o pensamento como algo valoroso mas também muito perigoso. “A mente é um bom vassalo, mas um péssimo senhor”, diz um provérbio zen. Várias escolas orientais entendem que a mente conceitual tem um limite de atuação, e, por sua capacidade de criar e imaginar realidades que não existem, o homem passa a correr o risco de se perder na própria memória, ansiedade ou imaginação. Para evitar esse labirinto mental, os orientais criaram toda sorte de meditações, artes marciais e vários tipos de ioga – todos com o objetivo de equilibrar o corpo e a mente. “O pensamento, obviamente, tem seu espaço, mas ele não está relacionado ao amor de modo algum. O amor é um estado de ser onde o pensamento não está […]”, diz o pensador anglo-indiano Jiddu Krishnamurti, que passou a vida estudando o funcionamento do pensamento e acredita que precisamos vigiá-lo como se vigia uma cobra venenosa quando ela se aproxima.

Mas isso mais parece papo de hippie ou de místico, já que a nossa cultura global caminha a passos largos no sentido oposto. Através de nossa mente racional, de nossa memória e capacidade de planejamento, conquistamos cada vez mais conhecimento e, a partir dele, inventamos, criamos e produzimos um número cada vez maior de máquinas que podem estender nossos corpos e, consequentemente, fazer-nos ver mais longe, ouvir de mais longe, ir mais longe, trabalhar mais – com menor esforço físico.

 Nada foi tão impactante no nosso modus vivendi como a popularização dos computadores. Os computadores, junto com os smartphones, vieram ao mundo para estender nossos cérebros, ou seja, para nos ajudar a pensar cada vez mais rápido e com quantidades cada vez maiores de informação. Fascinados pela nossa própria capacidade de pensar, de imaginar e de acreditar nos mundos que imaginamos, começamos a consumir realidades virtuais cada vez por mais tempo e começando cada vez mais cedo. A cada ano que passa, gastamos mais e mais horas seja nos computadores, nas redes sociais ou nos grupos de WhatsApp. A cada ano que passa, produzimos mais informações, consumimos mais informações, passamos mais e mais tempo com a cabeça abaixada olhando a tela do celular – atitude parecida com a dos viciados em crack, que estão sempre olhando o chão da calçada em busca de uma pedra perdida. Nosso cérebro não para de se divertir com tantos likes e com tanta informação, mas nosso corpo está virando um acessório.

Parece que estamos esquecendo que a realidade que existe na internet não é a realidade: são apenas informações sobre a realidade. A realidade que é o corpo. A realidade que é a experiência. Então você vê uma foto das Cataratas do Iguaçu ou até um vídeo das Cataratas do Iguaçu, mas você não pode se molhar pela internet. Isso parece óbvio, mas infelizmente não é. 

Na sociedade contemporânea, muitas confusões desse tipo estão acontecendo, principalmente no que se refere às crianças e aos adolescentes. As novas gerações começam a mexer em tablets ainda de fraldas. Os jovens ficam tanto tempo imersos em realidades virtuais que muitas vezes acabam perdendo os limites entre o real e o virtual. Um exemplo disso é um surpreendente problema que os alunos de ensino médio vêm enfrentando. As escolas estão tendo que chamar a atenção deles para que evitem o uso excessivo de pornografia, já que muitos desses usuários acabam sofrendo de impotência quando saem do sexo mental e partem para o sexo real. Além disso, há hoje uma alarmante onda de suicídio entre jovens no Brasil e no mundo. Parece que, para muitos deles, a vida é um grande game, e morrer ou não morrer já não tem mais tanto significado, como se existisse o direito a uma nova vida após o game over.

Terríveis ataques recentes como os de Suzano e da Nova Zelândia – em que foi usada linguagem de game para o cometimento de crimes reais – são prova dessa confusão. É claro que os jogos não são os “culpados” dos ataques, mas, quando um ser humano doentio resolve “jogar o jogo na vida real”, não podemos fingir que ele não tenha ido buscar a inspiração, a prática e a tática para isso no “jogo virtual”. E o australiano ainda filmou tudo em tempo real numa live do Facebook. Os “15 minutos de fama” de Andy Warhol nunca custaram tão caro.

Lembro-me de uma matéria de anos atrás que questionava: “Qual o melhor momento da sua vida?”. Várias personalidades respondiam a essa pergunta, e o que chamava atenção nas respostas era que ninguém falava em glórias ou bravatas; ao contrário, todas as respostas tinham um cheiro de Rosebud, o brinquedo de infância de Cidadão Kane: um momento com os pés na areia, uma chuva de verão na cara, um pôr do sol em cima de uma montanha. Os melhores momentos da vida das pessoas eram sempre momentos singelos e, de alguma forma, ligados ao afeto e ao corpo – seja pelo tato no ato sexual ou no parto, seja pela visão de um mar verdejante ou de um arco-íris no céu, ou pelo cheiro de terra molhada, pela audição de uma sonata de Mozart ou pelo sabor de um arroz com feijão bem temperado na casa da avó…

Os sábios do Egito antigo não estavam errados ao equiparar a importância de nossa capacidade mental aos cinco sentidos do corpo. Na base da força desse símbolo havia, com certeza, um ideal de vida no qual o corpo e a mente estivessem em equilíbrio rumo a uma consciência de si cada vez maior. Certamente esses homens da Antiguidade ficariam horrorizados se pudessem ver como estamos vivendo hoje – a supremacia cada vez mais forte da mente sobre o corpo. Do pensamento sobre a experiência. Da pornografia sobre o sexo. Da foto sobre o fato.  

Os computadores e os smartphones podem nos fazer trabalhar mais e mais rápido, podem nos fazer ver mais e mais vídeos, postar mais e mais fotos, ter mais e mais amigos virtuais, ficar mais e mais cultos ou famosos, mas nenhuma dessas (falsas) glórias poderá apagar a linha que separa o objeto da representação do objeto, ou seja, a linha entre o eu real e o eu virtual. Afinal, por mais interessante e atraente que seja o labirinto da rede, o corpo não cabe nem nunca caberá na internet.  

Veja também