Por Amanda Rigamonti

Assucena Assucena e Raquel Virgínia já percebiam que eram diferentes ainda crianças – desde a identificação com o universo feminino até o cruzar de pernas e o comportamento em geral oposto àquele esperado de meninos. Assucena conta que sempre imitou os gestos e o comportamento das mulheres de sua família, por ter um grande interesse nesse universo, mas foi muito repreendida. “Sempre houve a tentativa de construir um homem em mim, e eu acho que ela foi falida, porque não tinha jeito. É impressionante como o organismo social quer o tempo todo domesticar você. É muito sofrimento, pois a violência acontece desde criança”, diz.

Já Raquel relata que “desde que eu era pequena escuto falar que meu corpo era um corpo feminino, porque eu sempre tive bunda grande e coxas. Eu me lembro das minhas tias falando ‘Suas pernas são pernas de mulher’ e coisas assim”. Para ela e Assucena, isso passou a se relevar – e elas passaram a mostrar ao mundo – quando entraram na faculdade, em 2012.

O mineiro Rafael Acerbi, de Poços de Caldas (MG), sempre teve uma intensa relação com a música, mas isso se apagou nele após a morte do vocalista de sua primeira banda, em sua cidade natal. Quando Rafael, Assucena e Raquel se encontraram na Universidade de São Paulo (USP), aproximaram-se como amigos e por interesses culturais em comum – reuniam-se para discutir, assistir a filmes, ouvir música. A partir daí a afinidade musical foi se mostrando e os três começaram, juntos, a compor e pensar letras.

Rafael conta que acompanhou muito de perto o processo de transformação das companheiras. “Quando se fala de privilégio, eu sou um homem branco, de classe média, heterossexual, com duas parceiras que estão quase no completo oposto do que uma sociedade enxerga como digno. Então esse encontro foi muito rico, tanto nas questões artísticas quanto na questão de pensar mesmo em sociedade e no Brasil, na formação histórica deste país, nos privilégios se conformando.”

Os três compõem o núcleo que deu origem à banda As Bahias e a Cozinha Mineira – Assucena e Raquel como compositoras e vocalistas e Rafael como arranjador e guitarrista. Aqui você lê uma conversa com o trio sobre a formação do grupo, o processo criativo de Mulher e as questões de gênero que permeiam a vida pessoal e profissional delas e dele.

(Foto: Julieta Benoit)

 

Em 2012, quando vocês se encontraram na USP e começaram a ter diferentes conversas, isso foi compondo Mulher? Desde então vocês trabalharam nisso, de certa maneira?

Assucena – É exatamente isso! Desde que pensamos a primeira canção.

Raquel – Cada vez mais a gente foi se voltando para isso. E a gente passava madrugadas e madrugadas e dias também falando e construindo.

Assucena – E ouvindo toda a discografia da Gal Costa.

Raquel – A Gal foi a grande inspiração. Tanto que ela fala que é “joão-gilbertiliana”, porque a grande inspiração dela é João Gilberto, e nós falamos que somos “gal-costinianas”.

Por que a Gal?

Raquel – Nós duas estávamos vivendo um momento de depressão e muitas aspirações. Em meio a isso, cruzou nossos olhares um vídeo da Gal sentada, de pernas abertas, tocando violão e encarando a câmera, na década de 1970. Esse encontro nos levou, inclusive, ao vídeo de “Vaca Profana” e a tantos outros. No momento em que mais precisávamos nos alimentar artisticamente, a Gal trouxe para nós respiro, inspiração.

Isso se reflete no disco?

Raquel – Totalmente! Até para o que não se reflete a olho nu, inclusive as próprias liberdades que a gente foi se dando conforme ia percebendo que a Gal se deu certas liberdades – então quantas vezes eu não pensei “Se a Gal fez aquilo, então eu posso fazer isto”. Ela nos levou ao Caetano e a diferentes artistas da música popular brasileira que cantou ao longo de sua carreira.

O que vocês citariam como forte influência da Gal no disco? Do visível, do que ela suscitou no grupo.

Assucena – A narrativa da obra. Tanto que você percebe que a primeira música tem um direcionamento muito mais universal; a gente parte para uma mulher bastante universal e para uma relação entre o sagrado e o profano. E tem duas mulheres universais faladas aqui, a santa e a profana, mas todas são santas, independentemente de serem sagradas ou não.

Já a segunda música tem o nome “Josefa Maria”, então a gente sai de um aspecto universal para um específico. A gente tenta construir uma relação dialética, porque essa mulher, Josefa Maria, tem nome, mas ela também é uma mulher universal. E eu acho que Josefa Maria tem o nome da sagrada família conformada numa mãe solteira – José e Maria. No Brasil, inclusive, a maior parte das mulheres negras são mães solteiras, deixadas tanto por seus companheiros negros quanto pelos brancos, então tem uma questão brasileira colocada.

E o disco, nessa narrativa, vai entrar num aspecto rural e urbano – essa mulher é uma retirante, uma nordestina filha da Paraíba vinda para São Paulo.

O que vocês podem falar da construção musical?

Assucena – Acho que o nome apresenta um pouco isso mesmo, porque temos as Bahias (apelido meu e da Raquel – ela é paulistana, mas foi para a Bahia ser cantora de axé e lá conheceu outros gêneros, como o afroaxé, então tem uma relação muito profunda com a Bahia), mas o que adensa o nome da banda, inclusive, é o tropicalismo, principalmente figurado na imagem de Gal.

A gente teve uma influência enorme do que significou a tropicália como movimento cultural, estético – como fundamento artístico mesmo. Musicalmente, você percebe que a sonoridade do disco vai construindo várias paisagens musicais, então não há um gênero conformado. A música popular brasileira vai, inclusive, se determinando por uma diversidade de gêneros musicais – e, além disso, entra o Rafa, a cozinha mineira. Ele é o arranjador do disco e vem do sul de Minas, trazendo toda a influência do Clube da Esquina.

Rafael – A música mineira me influencia demais, assim como a maneira como eles pensam a própria música, que é muito universal e se desprende de amarras para propor e pensar um universo em si, construindo a narrativa que a gente construiu pra esse disco. Então é um álbum de diálogo direto por meio das vanguardas da música nacional, flertando com a bossa, o xote, o pop, o rock, enfim, com muitos ritmos brasileiros e internacionais também. Na nossa visão é um disco de música popular brasileira com toda a liberdade que os tropicalistas e o Clube da Esquina propuseram.

Raquel – E a gente não teve medo de criar a linguagem, sabe? Isso é uma coisa que faz a gente ser muito filha deles, porque, se tem uma coisa de que o pessoal dessa época não tinha medo, era de inventar. Essa geração, não à toa, é um marco até hoje. Eu acho que a gente está numa fase em que tem aparecido um monte de pessoas inventando, mesmo. Tanto que, para nós que estamos vivendo esse momento, a sensação é de que está se formando uma cena. Porque aparece Jaloo de um lado inventando com a galera do Pará – que não tem medo de inventar e está propondo uma linguagem –; Liniker, que faz um soul dele; Rico Dalasam, trazendo um rap meio pop; Tássia Reis, com o rap-jazz dela.

O que há em comum nessa cena? É uma quebra de padrões de comportamento? De gênero, de sexualidade...?

Assucena – Sim! Está sempre puxando conceitualmente; inclusive a tropicália faz isso e a Gal fez isso. Então uma das linhas que a gente vê em nós e na Gal é a de respeitar nossa liberdade de corpo. E aí fazemos uma revolução comportamental com isso.

Raquel – Mas essa galera de que a gente falou... Uma coisa que eu acho é que a gente está brilhando, e sempre quiseram que as travestis, os gays, os gays negros, as travestis negras, sempre se quis que esse grupo fosse fosco – na verdade, que esse grupo fosse morto –, e a gente está brilhando! Então o que quiseram fosco está brilhando. E isso aí eu acho que é muito bafo, viu!

O que a capa do disco representa para vocês?

Assucena – Will Cega é o autor da capa. Eu acho que o triângulo é bem representativo, porque o triângulo para baixo é a representação do ventre. A ideia é trazer uma coisa minimalista para ser a capa, com um vermelho-sangue, de menstruação, batom, um vermelho que remetesse a uma polissemia. E esse triângulo que significa o ventre, a vagina, o cálice... Tem muita coisa aí! Muitos significados. E há a dimensão humana da arte abstrata, que pode ser um corpo aqui também.

Conceitualmente, o que vocês podem falar do disco?

Raquel – Eu acho que tem uma homenagem e um lance de colocar em evidência o que a gente chama de trabalho feminino, trabalho de mulher. O que a gente foi entendendo é que certas figuras e certos trabalhos são apagados. Por exemplo, o tempo todo se fala de [Oscar] Niemeyer e de Lucio Costa. Nesse disco a gente não homenageia os candangos – a gente homenageia os candangos também. A música “Comida Forte” fala “candango come comida forte pra construir a capital Brasília”, e isso vira um mantra da música, ela fica repetindo isso. A homenagem é à mulher, que fazia a comida forte para o candango construir Brasília.

Assucena – O olhar é diferente. Não é o olhar para os idealizadores de Brasília ou para uma construção direta de homens fortes, que também são louvados, mas existia também a comida, e quem fazia essa comida? A mulher.

Discutir gênero é um viés do trabalho de vocês ou é a proposta de fato?

Assucena – De início não se pretendia uma discussão política, e sim um disco artístico.

Raquel – Porque nós somos artistas bem do nosso tempo, há certas pretensões que tínhamos que já não conseguimos... Uma das nossas pretensões, que a gente inclusive achava que era muito política, era ser travestis e não falar sobre isso; a gente ia só falar sobre o disco. Isso era algo que tínhamos decidido antes do lançamento, mas aí fomos conversando e sendo convencidas de que era importante, sim, que a gente falasse, trouxesse isso à tona e debatesse, por todas as questões.

Por ser um país em que há invisibilidade, pelo trabalho de alta qualidade que a gente está fazendo e para assim romper com a visão bizarra que se tem das travestis, como se travesti não pudesse produzir nada de qualidade, quanto menos obra de arte. Como a Assucena disse, queríamos fazer uma obra de arte, mas já estávamos tomadas por tudo isso.

Rafael – E tem a questão de que, a partir do momento em que a gente faz esse disco, ele não é mais nosso: as pessoas o tomam para si e o interpretam com base na sua realidade. Então de repente nosso disco virou um trabalho encorajador para as pessoas. Acompanhando os comentários nas nossas páginas, eles são muito íntimos, de enxergar no protagonismo das duas uma questão do espelho de espaços onde essa pessoa nunca poderia estar, e de repente há um lance de representatividade muito forte acontecendo, inclusive nessa cena toda. Não raro nos shows pessoas trans correm atrás delas para dar um abraço, agradecer.

Vocês são travestis ou mulheres trans?

Assucena e Raquel – Nós somos travestis e mulheres trans.

Assucena – A gente entende como autoidentificação. Inclusive é pouco usado travesti, porque é uma questão de classe e de marginalização da mulher transexual que se prostitui, então eu acho que muitas travestis não se consideram mulheres trans por não se acharem dentro dessa condição. Isso tem de ser desmistificado, aliás. Eu ouvi algumas travestis falando: “Não, eu não sou mulher trans, sou travesti porque eu me prostituo”. O mais importante das palavras é que ambas se unem pelo principal, a transgeneriedade – que é sair do que considera seu corpo como a naturalização de um homem e quebrar esses padrões –, então a gente também é mulher trans.

Raquel – Já me falaram quando eu disse que era travesti: “Não, você é mulher trans! Travesti é pesado”, porque travesti é pesado, sim! Ser travesti é pesado! Então é justamente este o nosso trabalho – a gente está tentando dar outro significado.

No disco vocês falam muito sobre a mulher negra e a mulher nordestina, mas não sobre a mulher trans. Está nas entrelinhas? Isso é proposital?

Assucena – A música mais direta é “Jaqueta Amarela”. A pretensão mesmo foi uma narrativa lírica. E isso é engraçado, porque as pessoas esperam de nós, também, sempre uma questão muito enfática sobre a questão da transgeneriedade, e de repente vem uma coisa lírica – “Mas como assim a travesti faz uma poesia?”. Tanto que muitas vezes duvidam que eu e a Raquel somos as compositoras das canções. As pessoas têm um preconceito arraigado de que a gente não teria essa capacidade.

Eu acho que [o disco] fala muito sobre nós, tanto que o nome dele é Mulher. Então ele é um espelho mesmo. Funciona como um espelho. E o reconhecimento do ser mulher, independentemente do corpo. Ele transcende isso. Inclusive, esse álbum foi feito durante o processo da nossa revelação de o que a gente entende como nossa identidade de gênero. Então não é à toa que o nome do disco é Mulher.

Raquel – Tanto que a gente vai para a Lua, para o Sol, para a Terra, para a face rachada da Terra.

Assucena – Para onde os poetas vão, né?

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