Um Samba pro Infinito

macalé por outros

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quem sabe de tudo não fale.
quem não sabe nada se cale.

se for preciso eu repito,
porque hoje eu vou fazer,
a meu jeito eu vou fazer,

UM SAMBA PRO INFINITO.

“Para Ver as Meninas (Samba Infinito)” (Paulinho da Viola; Jards a interpreta no álbum 4 Batutas & 1 Coringa, de 1987)

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por que jards?

Pedimos a uma série de músicos que interpretaram ou fizeram versões de músicas de Jards para falar um pouco sobre os motivos que os levaram a escolher essas composições, o que lhes atrai no repertório de Macao, etc. As respostas seguem ao lado. Algumas das músicas estão na playlist que abre a seção.

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Seção de vídeo

Definição: Surpresa

Kiko Dinucci é músico. Faz parte das bandas Metá Metá e Passo Torto. Realizou também os projetos Bando Afromacarrônico e Duo Moviola.

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Cida Moreira sobre “Hotel das Estrelas”

“Tenho verdadeiro fervor pela obra musical do Macal, por suas irreverência, inteligência, qualidade e lucidez extremas. Um artista que não tem tempo. ‘Hotel das Estrelas’ está desde sempre em meu coração, e sempre me remeteu à solidão de um artista, à solidão de uma menina que queria desde sempre ser cantora – e continua assim… ‘Estrela vulgar a vagar, rio e também posso chorar!’. Não fiz uma versão: é meu jeito de cantá-la. As mudanças são da minha alma, e esta é diferente de tudo mais.”

[Cida Moreira é cantora.]

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o rappa sobre “vapor barato”

por Xandão

“Gravamos a música ‘Vapor Barato’ após assistir ao Terra Estrangeira [filme de 1996, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas], que nos fez entrar neste universo de Waly Salomão e Jards Macalé e nos deixou muito impressionados – não só com a poesia, mas também com os diversos movimentos político-sociais da época. Em meados de 1971, o AI-5 já tinha feito muitos intelectuais e artistas deixar o país. Foi aí que a música de Jards e Waly traduziu esse sentimento de cansaço e descrédito que uma ditadura militar pode causar nas pessoas.

Existe uma discussão sobre um duplo sentido da letra sobre drogas, hippies e até desilusão amorosa por causa das palavras vapor, barato, calças e casaco de general, honey baby. Mas como os próprios autores preferiram não esclarecer o assunto, quem sou eu para dar o veredito?

Essa forma de música/poesia como crítica à sociedade tem tudo a ver com o Rappa, que procura questionar valores e atitudes da vida atual como um todo. A pegada reggae/rock é mais a cara da banda, mas a versão original, apesar de mais lenta, também é forte, com timbres graves.”

[Alexandre Menezes, o Xandão, é guitarrista da banda O Rappa.]

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Ava Rocha sobre quatro canções de Jards

[Neste depoimento, a cantora e compositora Ava Rocha comenta quatro músicas marcantes do repertório de Jards. A primeira está incluída na nossa playlist.]

Sobre “Berceuse Crioulle”: “O Macalé me convidou pra participar do DVD dele, que também virou disco e filme, e já me disse que a música seria essa. É uma música de ninar, que só tinha sido gravada por Maria Bethânia. Fui até a casa dele, ele me mostrou um quadro que tinha um bebê, um anjinho, não lembro bem, e pediu pra eu ninar aquela figura enquanto ele tocava e eu cantava. Ficamos um tempo ali fazendo aquilo. Eu ia ninando o anjinho e cantando; ele tocando e me dando toques. A gravação também foi linda. Estar ali no estúdio, com um amigo e um mestre, foi muito emocionante. Agora ele sempre diz que chora quando ouve a gravação. Um presente. Amo o Macao com todas as minhas forças”.

Sobre “Movimento dos Barcos”: “Quando eu tinha uns 22 anos entrei em contato com a obra do Jards Macalé e não parava de escutar. Era inebriante. Um artista tão irreverente e tão virtuoso, um puta violão e uma puta voz. Enfim, toda aquela canção que ele estava fazendo com Torquato Neto, Waly Salomão, Capinam, os músicos. Enfim, eu me apaixonei por ‘Movimento dos Barcos’. Ficava horas e dias ouvindo aquela música. Como na época eu não cantava profissionalmente, não andava muito com músicos, passei a cantá-la a cappella, sem parar, e decidi que iria gravá-la quando fizesse meu primeiro disco. Promessa cumprida. Cantei para o Emiliano Sette (integrante da banda AVA, que realizou o CD Diurno) e ele bolou o primeiro arranjo, um lance mais aboleirado”.

Sobre “A Morte”: “‘A Morte’ é uma música do Gil, que o próprio Gil nunca gravou. Está no primeiro disco do Macalé e rolou um disco releitura pela nova geração: E Volto pra Curtir Jards Macalé (2013). Artistas como eu, Metá Metá, Leo Cavalcanti e Márcia Castro regravamos todas as músicas desse disco. Eu fui convidada para interpretar ‘A Morte’. Resolvi reconstruir a canção a partir de samplers da própria música como base. Chamei o Felipe Zenicola pra produzir e criar novos arranjos em cima da base sampleada e minha voz. Pra mim foi tipo dois em um. Gil e Macalé na mesma sintonia. E eu quis dar a minha saboreada naquilo”.

Sobre “Rei de Janeiro”: “Também tem ‘Rei de Janeiro’, uma música que nunca gravei, mas pela qual tenho um afeto especial. Primeiro, porque é uma letra do meu pai [o cineasta Glauber Rocha], musicada pelo Jards; e, segundo, porque minha vó Lúcia adorava e a ela foram dedicados os versos daquela canção. Minha avó amava que eu cantasse ‘Rei de Janeiro’ pra ela. E eu fazia isso sempre!”.

“Mas amo todas as músicas do Macao e quero sempre cantar esse cara! E escutá-lo mais ainda!”

[Ava Rocha é cantora, cineasta e artista multidisciplinar.]

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Marcelo Nova sobre “Gotham City”

“Eu vi Jards pela primeira vez em um festival nos anos 1960. Eu era moleque, tinha uns 15, 16 anos. Ele tocou ‘Gotham City’ com Os Brazões, uma banda de negros tocando guitarra elétrica e baixo elétrico − o que era proibitivo pros brancos (havia até passeata contra!), imagine pros negros. Nesses festivais havia torcidas para o Edu Lobo, para o Chico Buarque, mas ninguém torcia pro coitado do Macalé. E ele estava apresentando uma canção fora dos padrões da época. As músicas ou eram da linha da esquerda festiva ou da MPB broxa, e Jards não fazia parte disso. Foi a primeira vez que eu vi uma performance incorporar uma vaia. As vaias vinham e ele gritava: ‘Cuidado! Há um morcego na porta principal!’; as vaias aumentavam e ele: ‘Cuidado! Há um abismo na porta principal!’. Incorporar e transformar a vaia num elemento da própria canção. Incorporação e devolução da vaia para o público. Nunca esqueci disso, a cena ficou martelando na minha cabeça. Quando fui gravar o segundo disco com o Camisa de Vênus [Batalhões de Estranhos, de 1984], decidi gravar essa música atemporal, do meu jeito, como faço todas as vezes. Se fosse fazer parecido nunca ia ficar tão bom. Só fico chateado com o Jards porque ele ganhou milhões pelos direitos autorais, passa os finais de semana em Miami e nunca ligou pra agradecer. Ha ha ha!” [Marcelo ri muito, mas muito mesmo, pelo telefone]

[Marcelo Nova é cantor e compositor, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus.]

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os brazões e jards (1)

Jards e o grupo Os Brasões interpretam a canção “Gotham City” (Jards Macalé e José Carlos Capinan) durante o IV Festival Internacional da Canção, em 1968 | imagem: Acervo Pessoal

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os brazões e jards (2)

Jards e o grupo Os Brasões interpretam a canção “Gotham City” (Jards Macalé e José Carlos Capinan) durante o IV Festival Internacional da Canção, em 1968 | imagem: Acervo Pessoal

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Boca Livre sobre “Gotham City”

por Lourenço Baeta, flauta, violão e vocal do Boca Livre:

“De certo modo, a ideia de gravar ‘Gotham City’ foi uma homenagem e um desagravo ao Macalé, que tinha sido impedido de cantar a música em 1969, durante a ditadura – tempos sombrios, tenebrosos, vampirescos. De morcego mesmo. Quando gravamos, em setembro de 1992, o país também estava num momento estranho, no meio de toda aquela movimentação pelo impeachment do Fernando Collor. Fazia o maior sentido lembrar o clima de 23 anos antes, com uma música tão enigmática. Lembro que conversamos sobre estranhas coincidências – o avião do PC Farias era conhecido como Morcego Negro. Além disso, essa música tem uma pegada pop meio rara em nosso repertório e acabou dando certo em grande parte devido à participação do Fernando Gama, que era do grupo na época, vinha do rock e nos trouxe essa experiência. E agora, quase 23 anos depois, o enigma dessa canção de Jards Macalé e Capinam, de certa maneira, continua nos céus de Gotham City. Dá o que pensar.”

por Mauricio Maestro, contrabaixo, violão e vocal:

“Tentando responder: pra falar a verdade, a escolha da música se deveu ao fato de aparentemente não ter nada a ver com o estilo Boca Livre. Seria um desafio inédito transformar aquela versão original com Macalé e Os Brazões em algo vocalizável, sem que perdesse a intenção original de criar impacto. Eu trabalhei durante um ano com Macalé e Naná Vasconcelos, e pude absorver um pouco da essência contracultural daquele repertório que incluía também ‘Hotel das Estrelas’, ‘Movimento dos Barcos’, ‘Soluços’, ‘Let’s Play That’, além do mega-hit ‘Vapor Barato’. Isso me fez lembrar dessa música, ‘Gotham City’, e sugerir ao Boca Livre cantá-la. Lembro que passamos (eu, Zé Renato, Lourenço Baeta e, na época, Fernando Gama) intermináveis ensaios tentando ajustar detalhes do arranjo para que soasse ao mesmo tempo estranho e musical, natural e impactante. Ficamos satisfeitos com o resultado. E acho que Macalé também!”

por Zé Renato, vocal e violão:

“A escolha de ‘Gotham City’(Macalé e Capinam) para um disco do Boca Livre pode, à primeira vista, parecer inusitada, mas o resultado demonstra que a música se encaixou perfeitamente na nossa sonoridade. Gostamos tanto que a regravamos em 1997 com a participação de Zé Ramalho.”

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Rodrigo Vellozo sobre “Dente no Dente”

“Sempre gostei muito do trabalho do Macalé. Minha aproximação com a obra dele se deu talvez de uma maneira pouco comum, se considerada a geração à qual eu pertenço: sempre escutei muito samba de breque, sou apaixonado pela obra do Jorge Veiga, do Ciro Monteiro e do Moreira da Silva. E foi por essa óptica que, ainda jovem, conheci a obra do Macalé. Acho a maneira como ele aborda o samba absolutamente genial. Quando eu estava gravando meu primeiro CD, Samba de Câmara (um disco que apresentava uma forma de fazer samba com uma instrumentação camerística, reduzida, e em linguagem de contraponto), durante a longa pesquisa de repertório que realizamos, fui apresentado pelo Wilson Souto Jr. a essa música do Macalé em parceria com o Torquato Neto. A música só tinha sido gravada uma vez, pelo próprio Macalé, no disco O que Eu Faço É Música, que trazia composições (até então) inéditas do Macalé com parceiros como Vinicius de Moraes e Glaucia Rocha. A gravação era no melhor estilo Macalé. Violão e voz, num duelo sensacional rítmico entre melodia e harmonia, que, junto com a letra, me arrebataram completamente.

Antes disso, Macalé tinha apresentado ‘Dente no Dente’ no Fantástico em homenagem ao Torquato num registro um pouco mais próximo do que resultou a minha própria gravação. Foi muito orgânica a maneira como eu me aproximei da canção. E, embora a gravação seja diferente da original (Macalé gravou apenas com seu violão, na minha gravação temos piano, baixo acústico, bateria, percussões, violoncelo e bandolim), meu piano foi totalmente calcado no violão do Macalé. Eu escutei muito e tentei ir tocando em cima, bem intuitivamente. O arranjo (que escrevi junto com o Ítalo Peron) foi surgindo a partir do piano e tentei colocar um vocal simples, bastante rítmico, que ressaltasse a letra genial do Torquato Neto. Quando o disco saiu, entrei em contato com a produção do Macalé e consegui entregar uma cópia do CD pra ele, após um show que ele fez em São Paulo. Foi muito emocionante para mim saber que o Macalé ficou muito contente com a apresentação que fizemos da música no Programa do Jô. Além disso, a minha gravação também foi tema da novela Ribeirão do Tempo, da Rede Record, em 2010.”

[Rodrigo Vellozo é cantor e compositor.]

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Toni Platão sobre “Movimento dos Barcos”

“Tem um bom tempo já que fui apresentado ao primeiro disco do Jards. Ele havia acabado de ser lançado em CD, quando o CD era novidade, e Milton Montenegro, fotógrafo e meu primo, me emprestou com a recomendação de que era mais do que necessário ouvir aquilo. Esse CD ficou comigo pelo menos uns seis anos até eu devolver. Hoje tenho a nova edição em vinil. Já disse antes que acho esse o melhor disco de rock brasileiro e continuo achando isso. É uma obra-prima do Jards com Lanny Gordin e Tuti Moreno. Quando fui gravar o Negro Amor, sabia que uma canção desse álbum tinha de estar lá.

‘Movimento dos Barcos’ era perfeita. Não só pela canção, mas pelo fato de ela ser violão e voz no disco: eu poderia colocar minha banda ali, naquele terreno virgem, digamos assim, com mais facilidade do que fazer outro arranjo. Afinal, os arranjos desse disco do Jards são definitivos. Que power trio é esse?! Macalé, Lanny e Tuti! Hoje eu prefiro a minha versão ao vivo, registrada no meu DVD Pros Que Estão em Casa, do que a de estúdio, presente no Negro Amor. Mas é porque acho que o acordeom ficou em perfeita sintonia com a essência da canção.

Hoje sou um privilegiado por conviver e, principalmente, poder dizer que sou amigo desse gênio que é o Macalé.”

[Toni Platão é cantor e compositor.]

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aos vivos desejo vida (1)

Rascunho de uma das colunas de Jards para a Folha de S.Paulo | imagem: Acervo Pessoal

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aos vivos desejo vida (2)

Rascunho de uma das colunas de Jards para a Folha de S.Paulo | imagem: Acervo Pessoal

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aos vivos desejo vida (3)

Rascunho de uma das colunas de Jards para a Folha de S.Paulo | imagem: Acervo Pessoal