por Gabriel Carneiro

A história alguns já sabem: em 22 de janeiro de 1917, era lançado nos cinemas o curta-metragem O Kaiser, de Seth, pseudônimo do cartunista Álvaro Martins. A charge animada, em que o imperador alemão Guilherme II é engolido pelo globo terrestre, se consagrou como a primeira animação brasileira. De O Kaiser restou apenas uma imagem, reproduzida nos jornais da época. Passados cem anos, o cinema de animação brasileiro ganhou espaço, primeiro por meio de esforços isolados e mais recentemente por causa da mobilização da classe, via Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), além de uma série de políticas públicas específicas. São pouco mais de 40 longas e uma infinidade de curtas. O Anima Mundi, principal festival desse gênero no país, atualmente em sua 25a edição, recebe cerca de 300 filmes nacionais anualmente, das mais diferentes propostas e técnicas. Obras infantojuvenis e adultas, experimentais, eróticas, cômicas, feitas em desenho no papel, stop motion, computação gráfica tridimensional, entre muitas outras.

Podemos ainda não competir comercialmente com as produções hollywoodianas em nosso mercado interno e tampouco no mercado externo, no qual disputamos com cinematografias de animação muito mais tradicionais, como a japonesa e a francesa, além da norte-americana. No entanto, o bom desempenho no exterior de filmes como Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, e O Menino e o Mundo (2013), de Alê Abreu, ambos vencedores do prêmio de Melhor Filme no mais representativo festival de animação, o Annecy, na França – e o último também indicado ao Oscar –, aponta que o caminho a ser seguido está certo.

Animação é coisa de criança?

Com a consolidação da Disney nos anos 1930 e a subsequente dominação do mercado mundial de animação, desenho animado passou a ser sinônimo de filme para crianças. No Brasil, a animação infantojuvenil domina a produção dos longas-metragens, provavelmente por ter mais apelo comercial.

O filme animado brasileiro mais antigo com cópia, Macaco FeioMacaco Bonito (1929), de Luiz Seel e João Stamato, sobre as peripécias de um macaco que foge do zoológico, tem traços e uma narrativa que remetem aos primeiros curtas do Mickey e do Gato Félix. Sinfonia Amazônica (1953), primeiro longa nacional de animação, foi um esforço quase solitário de Anélio Latini Filho, que fez cerca de 500 mil desenhos durante seis anos. Em preto e branco, o longa é protagonizado por uma criança, o índio Curumim, e busca relatar, de maneira didática e espirituosa, os folclores da Amazônia. Aspectos do folclore brasileiro também balizam produções como a série de curtas-metragens Juro que Vi (2003-2009), de Humberto Avelar, e o longa Piconzé (1972), do japonês Ypê Nakashima, que também demorou cinco anos para ser finalizado. Piconzé adapta o universo do faroeste para o cangaço e incrementa a narrativa com figuras fantásticas, como o saci, animais falantes e um dragão.

Nos anos 2000, ganharam as telas O Grilo Feliz (2001), de Walbercy Ribas, e Brichos (2007), de Paulo Munhoz. Protagonizados por animais das florestas, os longas trazem uma mensagem ecológica sobre a importância de preservar a natureza. São filmes que conversam bem com o público infantil, com traços em 2D que exacerbam as características de cada animal. Não à toa, ganharam continuação para o cinema e desdobramentos para a televisão.

O maior sucesso da animação brasileira é a Turma da Mônica, criada por Mauricio de Sousa para os quadrinhos. Desde 1982, foram oito longas para o cinema e diversos especiais para a televisão e o vídeo. O primeiro, As Aventuras da Turma da Mônica, é a maior bilheteria da animação nacional, ultrapassando 1 milhão de espectadores. O longa já anuncia um formato recorrente dos filmes da turma: a divisão em vários episódios, com histórias diferentes, como nos quadrinhos. Apenas A Princesa e o Robô (1983) e Uma Aventura no Tempo (2007) trazem uma única linha narrativa. Na busca por transpor o universo dos quadrinhos para o cinema, Mauricio de Sousa trouxe certa liberdade, por exemplo, ao quebrar a quarta parede e se inserir na narrativa.

Animação também é coisa de adulto

Apesar de muitas obras voltadas para o público infantojuvenil, as produções que mais têm se destacado no Brasil são os filmes que contemplam um público-alvo maior, em geral com propostas autorais, sem muita preocupação em relação ao mercado ou quanto a agradar à maioria dos espectadores.

Cineastas como Sávio Leite e Carlos Eduardo Nogueira trazem bastante erotismo a seus curtas. Leite, em Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica (2017), por exemplo, ilustra em rotoscopia um texto de Hilda Hilst com cenas gráficas de nudez e sexo. Nogueira, por sua vez, em computação gráfica tridimensional de aspecto bem marcante, parece se interessar especialmente por histórias passionais, envoltas de sexualidade. Em Yansan (2006), uma das animações mais fascinantes, Nogueira transpõe a história de Yansan e Ogum para o Japão moderno, referenciando o visual dos animes.

A partir do anime também, Luiz Bolognesi concebe a dramaturgia de Uma História de Amor e Fúria, em que retrata um casal através de quatro momentos da história do Brasil. O longa de ficção científica busca um revisionismo histórico que questiona os considerados heróis do país e traz uma mensagem ecológica contra o uso indiscriminado da água potável. Bolognesi foge do estilo cartum, em desenhos que se aproximam da realidade e com movimentação e expressão contidas dos personagens.

Chico Liberato, o mais original animador brasileiro, debruça-se sobre o sertão nordestino e o sertanejo, a arte popular e as crenças, retratando histórias como a de Boi Aruá (1984) e as de Antonio Conselheiro e Lampião, em Ritos de Passagem (2012). O cineasta e artista plástico se utiliza da estética da xilogravura dos cordéis e de cores vibrantes, que alternam entre o fantástico do misticismo e o real do cotidiano miserável.

A maioria das animações adultas parece se atrelar ao humor. Em filmes despudorados, politicamente incorretos, com humor negro, físico e polêmico, cineastas como Otto Guerra e Allan Sieber fizeram carreira. Guerra é um dos animadores mais longevos do país. Procura criticar o moralismo e as verdades absolutas em tramas contraculturais, como Rocky & Hudson, os Caubóis Gays (1994) e Até que a Sbornia nos Separe (2013), codirigido por Ennio Torresan Jr. O espírito de Sieber é próximo ao de Guerra, de quem foi aprendiz, em filmes com uma animação mais rudimentar. Fernando Miller, no curta Furico & Fiofó (2011), abusa da ironia, do sarcasmo e da espirituosidade para narrar as desventuras de dois garotos de rua, emulando a estética das animações dos anos 1920. A série de curtas coletivos Engolervilha (2003-), capitaneados por Marão, traz episódios bem curtos, transgressivos e libertários, que questionam o que é bom gosto.

O humor está sempre presente em Marão, que desenha tudo à mão, muitas vezes abdicando de cenários. Em especial nos curtas em que relata experiências insólitas muito particulares (com narração dele mesmo), caso de O Anão que Virou Gigante (2008) e Até a China (2015). Por sua vez, Cao Hamburger, nos curtas Frankenstein Punk (1986), codirigido por Eliana Fonseca, e A Garota das Telas (1988), apoia-se no humor pitoresco e absurdo em suas tramas de stop motion. Já Stil, alcunha de Pedro Ernesto Stilpen, preferia um humor entre o bonachão e a zombaria, em curtas cartunescos, sem narrativa definida, como Faz Mal 2: Super-Tição (1984), em que brinca com crendices populares, próximo ao que Fábio Yamaji fez, anos depois, com expressões idiomáticas em O Divino, de Repente (2009).

Outra vertente explorada é a experimental, bastante influenciada pelo animador escocês Norman McLaren (1914-1987). Todo filme tem, em maior ou menor grau, alguma experimentação, seja estética, seja narrativa. Há, todavia, os que partem do desejo de seus autores de pesquisar formas, cores, processos, movimentos sem ter de atrelar a isso uma narrativa. É o que fazem, por exemplo, a dupla Rubens Francisco Lucchetti e Bassano Vaccarini, no Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto, entre 1960 e 1962, e Roberto Miller, com mais de 70 estudos ao longo da carreira. São filmes curtos, com desenhos e pinturas abstratas diretamente na película, sem o uso de câmera. Destaque para Voo Cósmico (1961), de Lucchetti e Vaccarini, e para O Átomo Brincalhão (1964), de Miller. Atualmente, quem tem se dedicado a fazer filmes sistematicamente explorando formas, movimentos e texturas é Diego Akel, em curtas como Fluxos (2014), feito em stop motion. Podem também ser caracterizados como produções experimentais os curtas Animando (1983), de Marcos Magalhães, e Passo (2007), de Alê Abreu, que traduzem para o espectador um pouco do processo de feitura de uma animação.

Alguns filmes com temáticas mais adultas talvez consigam conversar com o público infantojuvenil por apostarem num tratamento lúdico de narrativas. Meow! (1981), de Marcos Magalhães, cria uma história bastante simples sobre um gato esfomeado que é alimentado com Coca-Cola. Enquanto o gato cria imediata empatia com o público jovem, Magalhães faz uma profunda crítica ao mundo globalizado que começa a se intensificar naquele momento. Menina da Chuva (2010), de Rosaria, problematiza preconceitos e normatizações. O longa O Menino e o Mundo acompanha a jornada de um menino que deixa sua casa em busca do pai e perpassa o cenário trágico do trabalhador oprimido e obsoleto, sem nunca perder o encantamento pelas imagens, pelos sons, pela natureza, pelas cores, pelo desenho que aos poucos toma forma. Viagem na Chuva (2014), de Wesley Rodrigues, bastante influenciado pelo cineasta japonês Hayao Miyazaki, segue caminho semelhante. A animação em stop motion Tempestade (2010), de Cesar Cabral, sobre um marinheiro em mares selvagens, e o desenho rascunhado a lápis no papel de traços marcantes de Rosana Urbes, em Guida (2014), assim como O Menino e o Mundo e Viagem na Chuva, abdicam de falas e apostam essencialmente na imagem e na sonoplastia ambiente e musical para compor jornadas deslumbrantes visualmente. Estes talvez encampem melhor a ideia de um cinema lúdico para todas as idades. Tem funcionado nos festivais; o desafio, agora, é realmente chegar ao público. Capacidade para a animação brasileira não falta.

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Meow!

"Meow!", criado em 1976, refilmado em 1981, ganhou notoriedade ao receber o prêmio especial do júri em Cannes. O curta atraiu os olhares para a animação nacional, uma prima pobre do cinema brasileiro – que é majoritariamente voltado para dramas e comédias, quase sempre acompanhados de uma mensagem social.