| ricardo aleixo: reconfigurando espaços
por Micheliny Verunschk
“(...)Poetas dão de graça/
o ar de sua graça/
(e ainda troçam/
na companhia das traças/
de tal 'nobre condição')"
Ricardo Aleixo
O poeta mineiro Ricardo Aleixo, autor, entre outros, de Festim (1992) e Roda do Mundo (1996), em parceria com Edmilson de Almeida Pereira, desliza entre várias vertentes da linguagem artística, da poesia passando pela música (sua primeira forma de expressão) e em convergência com as artes plásticas. Desde 2000 essas linguagens encontram-se na Sociedade Lira Eletrônica Black Maria, grupo marcado pelo signo da pluralidade. Nesse trabalho performático, a palavra não predomina, mas integra-se e transita com a oralidade do hip-hop e do rap, com a força da expressão corporal e com as demandas das artes visuais.
Aleixo trabalha o contemporâneo ligando-o à tradição, dos gregos às culturas milenares africanas: “Eu só faço o que faço porque sei o que eles já faziam. É o presente, mas presente conectado ao antigo”. Sobre o papel das novas tecnologias, Aleixo afirma-se otimista quanto à ruptura da relação penosa do autor com o mercado editorial seja por meio dos blogs, ou de sites pessoais o que permite uma circulação transnacional da palavra poética: “Encontrei um dos meus poemas que foi traduzido para o inglês vertido para o espanhol num blog mexicano. Isso permiteao poeta, de certo modo,lidar com tudo e com todos de seu próprio tempo . ”
Aleixo recebe influências de poetas que trabalharam com a palavra numa dimensão pública, como Maiakovski e Oswald de Andrade e de nomes como Sebastião Nunes e Augusto de Campos. Sua poética busca “transcender o espaço da intimidade quando essa intimidade significa confinamento.”
Aleixo é curador da Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte/BHZIP prevista para setembro de 2006 e do encontro Zona de Invenção e Poesia (ZIP), evento que reunirá poetas mineiros e de outras regiões brasileiras e que acontece no período de 5 a 9 de setembro de 2005.
Sobre o espetáculo Outros Bárbaros , do Itaú Cultural , Aleixo ressalta o caráter pioneiro do evento, por ser esse o primeiro festival de poesia falada no Brasil. Citando Paul Zumthor (1915-1995), Aleixo conclui: “A voz é um ato de violência porque rompe o espaço do silêncio. O poeta reconfigura espaços nos quais antes não havia nada. Essa é uma violência sagrada porque é fundadora. Eu quero ser bárbaro com outra noção, com outros desejos.” |