rodrigo garcia lopes: outras viagens
por Micheliny Verunschk

“Também não sou facilmente domesticável também não sou traduzível/ Solto meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo”

Walt Whitman

Rodrigo Garcia Lopes, poeta, tradutor e jornalista paranaense nascido em Londrina é autor de Solarium , Visibilia , Polivox e Nômada , este último finalista do Prêmio Jabuti edição 2005. Aos 17 anos realiza sua primeira tradução, o poema Uivo , de Allen Ginzberg. Um ano depois empreende viagem pela Europa e, sob influência do zen-budismo, num duplo movimento de introspecção e de abertura para novas culturas sedimenta sua escolha pela palavra poética.

Nessa senda, entre poesia e tradução, o poeta segue os conselhos de Ezra Pound em O ABC da Literatura , para quem o ato de traduzir é um ato de criação/recriação por excelência, manipulação da palavra-objeto que municia o artífice em seu trabalho de poeta. No segundo semestre de 2005, Lopes finaliza a primeira tradução para o português de Folhas de Relva , de Walt Whitman, para a Editora Iluminuras. Essa tradução é pioneira não apenas por ser a primeira em língua portuguesa, mas também por ser a primeira tradução da primeira edição desse livro.

A poesia de Rodrigo Garcia Lopes dialoga com outros meios como a música e as novas tecnologias especialmente em Polivox , que é livro, CD e espetáculo musical. Para ele, a música é nutriz da sua poesia e em Polivox há a cristalização da música, palavra poética e oralidade: “Dos rapsodos aos rappers não temos feito nada de novo”, diz a respeito do trânsito tradição-inovação. Sobre as novas tecnologias, uma nova avenida se abre nas veredas do poético: “Mudou tudo,dinâmica, hábitos de escrita, possibilidades de percepção, além da acessibilidade de informação.Hoje, podemos fazer poesia animada, manipulação de palavras com recursos digitais inimagináveis para os dadaístas e futuristas do começo do século XX, e redes de criação poética em tempo real.”

Segundo Lopes, o poeta é o “outro bárbaro”, aquele que diz algo em um outro patamar, que utiliza a palavra em um nível diferente de compreensão nem sempre apreensível pelo senso comum. Lopes dá destaque à etimologia da palavra bárbaro: “ barbaric - ou bárbaro vem do grego barbaros, uma palavra onomatopéica para referir-se aos estrangeiros cujas línguas os gregos não entendiam e interpretavam como bar bar bar (semelhante a 'blá blá blá' em português).” Desse modo, só o poeta pode responder à barbárie-selvageria da contemporaneidade.

No festival multimídia Outros Bárbaros , no Itaú Cultural , Lopes apresenta trecho de O Navegante ( poema milenar anônimo anglo-saxão) e o poema O Assinalado , de Cruz e Souza, entre outros.

* tradução de Rodrigo Garcia Lopes