marcelo montenegro: pequenos detalhes
por Thiago Rosenberg

“Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas/ Guidons enferrujados lá fora na chuva/ Deveria haver um orfanato/ Para estas coisas que ninguém mais quer”

Tom Waits, em epígrafe de Orfanato Portátil

Um bar chamado Juke Joint, não muito iluminado, uma parede de tijolos expostos e som de blues tocando ao fundo. 18h30. O poeta, magro, de cabelos lisos e um pouco despenteados, a barba cobrindo parte da face, acaba de ensaiar alguns textos musicados e, tranqüilo, um pouco resfriado devido ao clima frio do inverno paulistano, acende um cigarro. Detalhes...

É dos detalhes que Marcelo Montenegro retira a matéria-prima para muitos de seus trabalhos. Da beleza das coisas cotidianas, que muitas vezes passam despercebidas. Orfanato Portátil ( Atrito Art Editorial) , seu segundo livro de poesias, segue essa linha. Lançado em 2003, apresenta três poemas já publicados em uma obra amadora, de 1997. “Peguei os três poemas que prestavam e coloquei no novo livro”, conta, bem-humorado.

Tranqueiras Líricas, o nome do projeto a ser apresentado no programa Outros Bárbaros, provém da composição Buquê de Presságios , presente em Orfanato : “Sons de gotas na torneira da pia./ Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapatos./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio.”

A fusão da poesia com a música é, para Montenegro, uma forma de “amplificar a palavra”. Nas récitas musicais, praticadas há aproximadamente três anos, os tons dominantes são do blues e do jazz. “Mas, de qualquer forma, um poema lido numa mesa de bar pode ser mais vivo do que num show”, lembra.

Admirador das mais diversas formas de arte, o poeta considera-se um cinéfilo. Referindo-se ao norte-americano Paul Thomas Anderson, a seu ver “um dos maiores montadores”, cita o filme Magnólia como uma obra que, “mesmo sendo não convencional, não é hermética”. E tal hermetismo não se encontra, também, em seus poemas. “Dos anos 90 pra cá, há muita caretice na poesia, poetas que escrevem para poetas, para iniciados”, diz. “Gosto de escrever para todos.”

Montenegro também trabalha com o grupo de teatro Cemitério de Automóveis , cuidando da sonoplastia e da iluminação. “A última temporada ocupou bastante tempo, mas quando tenho uma brecha gosto de ficar em casa com a minha mulher e meus filhos.”