por Rita Palmeira

Desde a primeira versão do questionário que embasa o projeto Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, a questão estava lá: “Escritores que leu, estudou ou traduziu”. Essa pergunta, que, à primeira vista, poderia parecer ampla demais, visava ao estabelecimento dos autores mais mencionados por profissionais da literatura brasileira no exterior – alvo do mapeamento promovido pelo Itaú Cultural e que, neste fim de 2017, completa dez anos.

Como no início do projeto o questionário era enviado por e-mail como documento de Word aos virtuais mapeados, cabia a eles escrever o nome dos escritores que quisessem mencionar. Quando o Conexões enfim migrou para o mundo digital e o questionário passou a ser respondido on-line, a pergunta tornou-se de múltipla escolha: oferecia-se uma lista com alternativas (criadas a partir das respostas dadas pelos primeiros mapeados) e a possibilidade de indicação de nomes que não estivessem ali. A listagem, portanto, ampliava-se à medida que novas respostas chegavam.

É importante lembrar que o foco do Conexões em seu primeiro ano, ou seja, quando ainda não tínhamos resultados significativos para indicar mudança de rota, era a literatura brasileira produzida dos anos 1980 para cá. Não à toa, uma das perguntas do questionário indica esse caminho: “Tem interesse na literatura brasileira produzida a partir dos anos 1980?”.

A aposta, naquele momento, era de que autores contemporâneos fossem mais traduzidos no exterior, bem como mais pesquisados e ensinados em universidades estrangeiras. Fomos surpreendidos, no entanto, pelos dados que chegaram, e isso nos levou a considerar a literatura brasileira em seu amplo arco temporal. Entenda-se: os autores contemporâneos apareciam – e com força – na lista criada a partir dos primeiros questionários, mas não porque ocupassem o espaço do velho cânone. Em vez disso, pareciam com ele dividir o espaço, pois partilhavam as menções.

Além disso, dado o enorme número de autores em atividade – em um tempo em relação ao qual ainda não há distanciamento para a criação efetiva de um cânone –, os contemporâneos estão pulverizados no mapeamento. São muitos nomes, mas nem sempre há muitas menções a cada um deles.

Para que se tenha uma ideia, entre os dez escritores mais citados pelos participantes do projeto, há apenas três autores vivos: Chico Buarque, Rubem Fonseca e Milton Hatoum. No topo dessa lista estão Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, todos com mais de cem menções. Em seguida, vêm Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos. Só então aparecem Chico Buarque (empatado com Mário de Andrade), Rubem Fonseca e Milton Hatoum [1]. São esses os dez autores mais citados por um universo de cerca de 350 professores, pesquisadores e tradutores da literatura brasileira no exterior.

A observação desses dados impõe uma série de perguntas: haveria uma diferença geracional entre os que mencionam os autores do século XX e os autores ainda em atividade, ou seja, os contemporâneos? Ou haveria diferenças regionais, isto é, mapeados nascidos em determinados países teriam preferência por determinados autores? Propus-me a examinar essas variáveis e faço aqui alguns comentários a partir do que pude observar.

Se começarmos por uma comparação entre os contemporâneos, veremos algumas diferenças.

Chico Buarque é mencionado por 70 mapeados (20,2% do total), sendo 32,9% nascidos em países da Europa, 44,3% em países da América Latina (incluindo-se o Brasil) e 18,6% nos Estados Unidos [2]. Entre os que indicaram Rubem Fonseca, 38,8% eram europeus, 40,3% latino-americanos e 19,4% americanos, num universo de 67 mapeados – o que corresponde a 19,31% do total. Já entre os 64 mapeados que mencionaram Milton Hatoum, 50% são originários de países latino-americanos (com ampla prevalência de brasileiros e argentinos), 21,43% de países europeus e 22,86% dos Estados Unidos.

Asiáticos e africanos aparecem em número inexpressivo em todos os levantamentos do projeto, mas isso é revelador da composição geral do banco de dados do Conexões, que, apesar de nossos esforços, conta com poucos mapeados originários de – ou trabalhando em – países desses continentes. Ainda temos um número bastante maior de mapeados oriundos das Américas e da Europa do que de outras regiões. Apenas brasileiros e norte-americanos, por exemplo, respondem, juntos, por quase metade dos mapeados (42%).

Ao deslocarmos o foco para a geração dos mapeados, os dados tornam-se mais interessantes [3].

Tanto no caso de Chico Buarque como no de Rubem Fonseca, a maioria dos mapeados que os indicaram é formada por uma geração que nasceu entre os anos 1960 e 1970: 61,2% no caso de Rubem, 52,9% no caso de Chico. Embora haja aí uma distância de quase dez pontos percentuais, a diferença entre os dois aparece de forma mais visível em ocorrências nos extremos geracionais: comparativamente, Rubem tem mais menções entre os mais velhos (aqueles que nasceram nos anos 1950) e Chico entre os mais novos (nascidos nos anos 1980) [4].

Os números relacionados a Milton são um pouco diferentes. Uma parcela expressiva dos que o mencionaram nasceu nos anos 1950 (21,9%, contra 16,42% de Rubem e 14,3% de Chico). Ainda em comparação com os outros dois contemporâneos, tem-se uma diferença considerável, de 14 pontos percentuais, entre os nascidos nos anos 1970: apenas 20,31% dos que mencionaram Milton têm hoje entre 38 e 47 anos, ao passo que 34,3% dos que mencionaram Chico e Rubem estão nessa faixa etária. Ou seja, os mapeados que mencionaram Milton são, em geral, mais velhos do que os que mencionaram os outros dois autores. Haveria razões propriamente literárias para que Milton Hatoum seja mais lembrado pelos mais velhos do que Chico Buarque e Rubem Fonseca?

Outro dado geracional curioso aparece quando observamos os números relativos a Carlos Drummond de Andrade. Percebe-se que, entre os mais novos (os nascidos nos anos 1980), é ele quem, entre os dez, tem mais menções (17,56%). Isso poderia nos levar à hipótese de que a poesia talvez atravesse de modo mais uniforme as gerações, já que o poeta também é mencionado por uma boa parcela de mapeados nascidos nos anos 1950 (17,57%).

Outra hipótese que poderia surgir – a de que os mapeados mais velhos tenham predileção por uma literatura que não a contemporânea – não se confirma. Machado de Assis, por exemplo, não é o mais lembrado pelos que hoje têm entre 60 e 70 anos. Entre os 161 que o mencionam, apenas 11,2% pertencem a essa faixa etária. Graciliano, por sua vez, tem entre os que o citam 22,5% nessa mesma faixa. Portanto, uma conclusão possível é de que não se pode inferir que quanto mais velho mais o mapeado gostará de uma literatura mais próxima de seu tempo.

Mário de Andrade, por exemplo, é citado por mais mapeados na faixa dos 28 aos 37 anos (17,14%) do que Rubem Fonseca (13,43%), que não só segue em atividade como faz uma literatura bastante urbana e contemporânea.

No que diz respeito ao país de origem, de modo geral, as porcentagens acompanham a distribuição do total de mapeados, como já referido. Em alguns casos, porém, isso não acontece, menos entre os contemporâneos e mais entre os que chamo aqui de autores já canônicos: Machado, Graciliano, Drummond etc. O poeta itabirano, por exemplo, é significativamente menos citado pelos mapeados nascidos nos Estados Unidos. Para que se tenha uma ideia, 23,6% dos que mencionam Graciliano nasceram naquele país. Entre os que mencionam Drummond, apenas 10,81% (ressalte-se que todos os outros autores aqui analisados têm entre os que os mencionam mais de 18% de norte-americanos). A que se deve esse número pouco expressivo de menções a Drummond nos Estados Unidos? Terá havido menos traduções de seus livros?

Vale frisar ainda que um autor como Machado de Assis, embora tenha uma distribuição de menções em geral parecida com a dos demais autores (isto é, quanto à porcentagem de citações de europeus, norte-americanos e latino-americanos), difere bastante deles quanto ao número de países em que é mencionado: 33. Para que se possa ter uma ideia, Rubem Fonseca é mencionado por mapeados de apenas 13 países; Chico Buarque, possivelmente por ser conhecido antes de tudo como compositor de sucesso, é quem mais se aproxima de Machado, tendo sido citado por mapeados de 23 países diferentes.

Outros cruzamentos de dados poderiam revelar ainda mais. Seria interessante, por exemplo, comparar os autores mencionados por quem respondeu ao questionário ainda no documento de Word e por quem respondeu ao questionário on-line, em que uma lista de nomes já estava à disposição. Há diferenças significativas? Minha aposta é de que haja – e de que, entre os mapeados mais antigos, os autores citados sejam aqueles com os quais efetivamente estivessem trabalhando no período.

Todos esses dados são uma pequena amostra da riqueza que o banco de dados do Conexões guarda. Pesquisas realizadas a partir das informações ali disponíveis podem contribuir para a criação de uma espécie de atlas da literatura brasileira; podem fornecer pistas de como e por que determinados autores “viajam melhor” por determinados continentes e regiões.

Como o mapeamento promovido pelo Conexões é feito de modo voluntário – depende da disposição do virtual mapeado para responder ao questionário –, não se pode tomar os números aqui apresentados como reveladores de um universo mais amplo. Eles são, contudo, bastante significativos no que revelam e no que ainda têm a revelar. Há muitas pesquisas por fazer com base nas informações reunidas nesses dez anos.

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Referências

[1] Machado de Assis, 161 (46,4%); Clarice Lispector, 144 (41,5%); Guimarães Rosa, 111 (32%); Jorge Amado, 94 (27,1%); Carlos Drummond de Andrade, 74 (21,32%); Graciliano Ramos, 72 (20,8%); Chico Buarque e Mário de Andrade, 70 (20,2%); Rubem Fonseca, 67 (19,31%); Milton Hatoum, 64 (18,44%).

[2] Deixo de indicar aqui regiões como Oceania, África e Ásia porque houve pouquíssimas menções provenientes de mapeados desses continentes. Houve também quem não indicasse seu país de origem, mas essas lacunas não vão além de três mapeados. Finalmente, não agrupei os países do continente americano em função da geografia, mas, antes, de certa proximidade cultural e linguística: América Latina e Estados Unidos/Canadá.

[3] Comento aqui sobretudo os resultados das gerações em que se encontra o maior número de mapeados, isto é, aqueles que nasceram entre 1950 e 1979.

[4] Há mapeados que nasceram antes de 1950 (nas décadas de 1930 e 1940) e depois de 1980 (no início dos anos 1990), mas as ocorrências são poucas.