por Alexandre Ribeiro e Nayra Lays

Em tempos em que um prefeito utiliza de ração humana e fortalece seu argumento com ideias de que “pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”, é mais do que necessário contar outra história.

Nkonsonkonson, símbolo de unidade e relações humanas

Nesta semana saiu o resultado do Prêmio Jabuti, e o Prato Firmeza – guia gastronômico das quebradas de São Paulo – conquistou o sexto lugar. O Alê e eu somos coautores desse guia, um projeto muito lindo, complexo e profundo. Para saber mais, nós recomendamos os links abaixo:

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Mas a questão no momento não é simplesmente uma premiação, uma publicação ou como o que é feito de nós para nós é incrível. O assunto vai muito além do prato. Por isso, procuramos a ajuda do Guilherme Petro* e este texto conta com a colaboração dele e com alguns áudios do nosso papo para aprofundar o tema.

A comida une as pessoas:


Passado o processo, olhando para trás, entendemos: mais do que se tratar de refeições, o alimento promove encontros. Quanto a gente valoriza os encontros? Foi preciso se reconectar com o que sempre existiu dentro de nós – e com o cuidado de quem no agora consegue entender. Comer é alimentar o resgate de nossas histórias profundas e deliciosas. É assim que não morremos de fome da gente. E, da mesma maneira que a comida na mesa tem o poder de juntar pessoas e promover conversas, o Prato Firmeza tem esse poder de reverberar. É uma batalha orgânica que possibilita ampliar encontros. Entre humanidades e histórias, entre costumes e culturas.

Alimentação é direito básico:

Alimentar-se é a principal maneira de se fortificar como humano. Alimentação é muito mais que suprir a fome, viu, prefeito? É uma questão afetiva, biológica e sentimental. E muito mais complexa que farinata. Quando a gente nasce, o primeiro contato que temos com nossa mãe é através da amamentação. E, se você não tem ao menos isso, esse fato se torna determinante para diversas outras questões da vida. A alimentação define cultura.

Entender as nuances e as histórias do alimento é um direito básico e um benefício para uma vida toda. E isso não é um papo hippie ou colonizador de mentes. É só refletir sobre o impacto dos alimentos no nosso corpo. Ver como a gente fica mais disposto se come uma coisa mais saudável, reparar como não dá vontade de fazer nada depois de comer mais do que devia. É um olhar para si mesmo que o mundo vai tirando da gente. A gente não precisa se preocupar com o que vai comer porque não dá tempo. Nós estamos tão marginalizados que até o direito de comer bem nos é tirado. Um “lanche podrão” de 2 reais faz um eco muito maior do que o grito que a azia vai gerar no seu estômago.

Assim o comer vai perdendo a importância; vai ganhando conservantes, aditivos e tudo isso que está nas embalagens, mas ninguém nota.

E quem valida o quê?
 

No final, o que é melhor do que o quê? O sexto lugar em um prêmio define se um projeto é bom ou não? Nós não acreditamos nisso. Existe um abismo entre as premiações e a vida. O mundo na rua é totalmente diferente. A força, a inspiração e o poder de mudança de ações vêm muito antes de alguém legitimar.

A frase do Gui que abre o livro do Prato Firmeza sintetiza muito bem a ideia para que nós sigamos mudando nossas realidades sem precisar de validações: “Afinal, qual o valor de uma, duas ou três estrelas do Michelin perto das milhares que brilham no céu das nossas bocas ao comer aquele prato que a gente tanto ama?”.

*Guilherme Petro é formado em gastronomia pelo Mackenzie. Foi cozinheiro e garçom e fez gestão até de cozinhas universitárias. É gastrólogo, sommelier, bartender, fotógrafo e técnico em informática. Formado em jornalismo pela Escola de Jornalismo Énois, é coautor e coordenador do Prato Firmeza.

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