A série Retratos e Duplos de Sofia Borges, que fez parte da exposição Fotonovela: Sociedade/Classes/Fotografia, levanta questões sobre tempo e representação na fotografia.

A fotografia digital mudou completamente a forma de fotografar. Nas palavras de Sofia Borges neste texto [http://revistanuestramirada.org/suenodelarazon/sofiaborges]:

“O advento do aparelho digital (por esse termo quero dizer o aparelho em toda a extensão: a câmera fotográfica, o computador e as diversas formas de visualização e propagação da imagem) colaborou para que a imagem fotográfica conseguisse se distanciar ainda mais de uma ‘imagem natural’”.

Assim, temos de fato uma imagem completamente construída, tanto antes quanto depois do click – e, por vezes, durante o click, já que o tempo de exposição pode variar de milésimos de segundo a minutos – afastando cada vez mais a fotografia de sua função inicial de registro. A ideia de documentação continua ali, só não é mais o foco principal, o tema. Isso favoreceu “um maior afastamento entre a fotografia e seu referente e reforçou a distância entre realidade e suas representações”.

A forma de construção dessas imagens – controle da exposição, da luz, da ação, do cenário escolhido – influencia na representação.

No Dicionário Michaelis, podemos encontrar duas definições, entre outras, para representação:

1 – ato ou efeito de representar; exibição, exposição.

2 – realização de uma cena, de um desenho ou de imagem que representa, reproduz ou simboliza um fato ou um objeto.

No trabalho de Sofia Borges, uma fotografia é composta de uma série de variáveis, entre elas o tempo de exposição, desconstruindo assim o tempo único do instante. Assim, é como se “por vezes, se aproximasse da construção arbitrária do tempo em uma pintura ou, ainda, uma obra literária”.

Na série Retratos e Duplos, “é como se sentíssemos o cheiro de uma vida normal, reconhecível, e que se dá em ambientes como um quarto, uma cozinha. Imagens que, embora falem (mas nunca revelem) da intimidade de quem as fez, terminam por dizer de todos nós”.
Representam todos nós, cotidianos, passagens, atos e/ou vazios.

Sofia Borges reforça ao dizer que: “Não há nenhuma intenção de tratar a fotografia como um registro, nem de demonstrar as coisas representadas enquanto fato. A construção artificial da luz e da cena permite à fotografia se libertar de uma função predominantemente documental”.

Nesse sentido, pense em como compor uma série fotográfica de seu cotidiano, escolha um lugar e, se possível, fotografe suas ações nesse mesmo lugar. Por exemplo: usamos a sala de casa para quais ações? Comemos, vemos televisão, dormimos e conversamos. Se conseguir juntar todas essas ações numa mesma foto, a perda do instante, da temporalidade, será mais percebida, uma vez que cada ação acontece em momentos distintos. Ela pode ser feita por meio de montagem, usando um programa de computador, ou em colagens manuais de fotos impressas.

Referências
Catálogo Fotonovela – realidade, simulacro, fantasia
http://revistanuestramirada.org/suenodelarazon/sofiaborges