mimoSa e o rebanho tecnológico
Futuro criativo para a velha nova tecnologia
Por Ana da Cunha
O que você considera velho nos tempos de hoje? Qual é a sua leitura de uma “velha tecnologia?” O que você faz com seu lixo tecnológico, aquele seu arcaico computador de dois anos atrás? A mimoSa tem a solução!! A proposta segue as tendências de arte contemporânea que prima pela prática colaborativa e pelas trocas sociais para a construção do pensamento artístico. Através de oficinas que utilizam a metodologia da metarreciclagem os artistas criam uma máquina de multimídia móvel – intitulada de mimoSa, ou mídia móvel S.A - que é utilizada para recolher dados regionais em diversos pontos do globo.
A primeira mimoSa surgiu no ano de 2005, no Rio de Janeiro, com Giuliano Djahjah, Queops e Ricardo Ruiz. A partir de uma versão 3D de Alexandre Freire e Etienne De'lacroix criaram um modelo concreto da máquina de mídia móvel. Além disso, o projeto mimoSa inspirou-se nas propostas de Ricardo Zuninga1, no Neurotransmiter2, e no projeto murmur3 do Canadá que realizavam intervenções urbanas através de mídias móveis. Essas mídias coletavam dados que posteriormente eram disponibilizados na Internet. Dessa forma a ação mimoSa se construiu e iniciou suas ações com o objetivo de modificar a cena produtiva e repreensiva das mídias e gerar um espaço para a apropriação pública da tecnologia e da arte. Intitulou-se “máquina de intervenção urbana e correção informacional”4
A idéia é simples e se dá por meio de oficinas que são propostas com intuito de construir com sucata tecnológica e objetos do cotidiano uma máquina “técno-estética. Com câmeras, computadores antigos, cabides, carrinhos de feira etc. a máquina é construída, e posta nas ruas, intervém na paisagem urbana e coleta dados locais (costumes, músicas, fábulas, histórias, fotos de lugares pitorescos). Os dados armazenados são disponibilizados em um site como uma biblioteca de tradições e costumes regionais. Dessa forma, a proposta visa criar um espaço público que incite o aprendizado coletivo, cultural, tecnológico e social. Torna o participante em ser que atua na sociedade quando se apropria da criação artística e domina as ferramentas tecnológicas. O processo de construção da mimoSa pode ser considerado colaborativo, relacional, em rede e muitas vezes é considerado net art.
Apoiados pelo site norte americano turbulence.org e por parcerias realizadas com o New Radio and Performing Arts Inc e pela Andy Warhol Foundation os artistas que trabalham com a mimoSa (são diferentes em cada local de ação) já percorreram vários lugares do Brasil e do mundo como Barcelona, Manchester, Berlin, dentre outros. Com sua proposta curiosa e bem humorada os artistas agem de forma igualitária e não hierárquica na construção de suas obras. Todas as decisões são tomadas pelos criadores colaboradores que assumem posições importantes para o andamento do projeto, ora são estetas, ora mecânicos ou faxineiros (ao limpar os componentes sujos). A preocupação estética quanto a aparência da mimoSa é secundária e se dá privilegio a funcionalidade e capacidade de armazenamento de dados da máquina.
Outro ponto relevante das oficias da mimoSa é a utilização do open source , ou do código aberto. Isso significa que todos criadores da mimoSa estão aptos a realizar posteriormente oficinas para a construção de uma nova máquina. Dessa forma difundem e compartilham os conceitos adquiridos. Além disso, todos os softwares utilizados para as operações da mimoSa são livres.
Por ser parte de um processo que reúne de 8 a 12 pessoas que convive com a construção da máquina por cerca de quatro dias a mimoSa de certa forma se humaniza e passa a fazer parte do grupo criador. As “quinquilharias tecnológicas” transformam-se em um ser tecnológico que ganha vida e por possuir um nome brasileiro que em um de seus significados denota a espécie de um bovino a máquina ganha vários apelidos. Muitas vezes adornada por apetrechos que remetem as espécies das vacas, a mimoSa é alcunhada de vaquinha e através de suas ações pelo mundo arrebanha pessoas ao redor da arte em prol da subversão das tecnologias e das mídias.
Por um rebanho de identidades
As ações das oficinas da mimoSa não imbricam em muitas novidades. Desde a década de 60 muitas foram as propostas que envolviam o público como participantes e criadores de arte (como no Fluxus, por exemplo). A diferença da mimoSa e de algumas ações contemporâneas é que utilizam como facilitadores a internet e os adventos tecnológicos. Analógicas ou digitais todas essas iniciativas transformaram o contemplar do objeto artístico na construção de uma obra dinâmica que se corporifica e toma vida em cada ação dos participantes. A ação artística não possui um fim determinado e é alimentada de acordo com as trocas realizadas pelos participantes criadores.O processo sobrepõe-se a obra finalizada e enquanto há alimentação, há obra. Experimentar, participar de uma dessas ações é provar do gosto do “gênio artístico” e gozar de momentos inesquecíveis da criação de uma obra de arte.
Hoje em dia, essas espécies de propostas artísticas podem ser chamadas de mídia tática, net ativismo ou arte relacional e são alimentadas pelos processos em rede, que atualmente envolvem os mais diversos âmbitos de nossas vidas. Interessa a esses artistas unir pessoas, seja nos processos de redes analógicos ou digitais, em prol de juntarem as coisas que os participantes possuem em comum. Parafraseando Castells em sua obra Sociedade em Rede - a descentralização proporcionada pelos adventos das redes informacionais nos faz nadar em corrente contrária e procurar as associações mais primárias como as tribos e as religiões – que nos unem através das identidades mais primitivas.
Com a Internet, que nos liga ao mundo através dos computadores, promover encontros que une uns aos outros pelos nossos mais primordiais anseios tornou-se mais fácil. Os dados colhidos e dispostos no ciberespaço facilitam o acesso dos resultados da proposta artística da mimoSa. As tecnologias em rede viabilizam as ações em arte quando o intuito é juntar o maior número de pessoas interessadas em objetivo em comum. Dessa forma, mesmo que haja críticas quanto a democratização da arte e do conhecimento através da Internet (que se sabe estar longe de acontecer), há de se tomar consciência de que a rede de computadores facilitam a formação de grupos com o mesmo interesse. Concordando com Gilberto Prado em seu ensaio sobre as redes telemáticas os artistas contemporâneos são mais realistas. Hoje “quando experimentam com os novos meios de difusão, procuram menos esse grande público, quase mítico, e sonham por um público que tenha mais afinidades com suas idéias e propostas”.5
Utilizarmos as ferramentas de nossa época para produzirmos arte, implica em aproveitarmos o que elas têm de melhor para realizarmos associações produtivas e trocas substanciais. Se na sociedade em rede, a Internet e as tecnologias são o pasto que alimenta e facilita as relações entre pessoas de mesmo interesse devemos saudar o rebanho tecnológico e as ações artísticas como a mimoSa!
Mais informações em:
http://www.metareciclagem.org
http://www.turbulence.org/Works/mimoSa
http://www.ambriente.com
http://www.neurotransmitter.fm8
http://murmurtoronto.ca/
http://audacity.sourceforge.net/
Ana da Cunha é artista plástica licenciada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e mestranda em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em seu corpus de pesquisa estão as relações sociais na produção em arte contemporânea, a cibercultura e a estética relacional.
1 O artista percorria as ruas de Nova Iorque, EUA, com um rádio móvel acoplado a um carrinho de supermercado.
2 O projeto transmite uma rádio FM em baixa freqüência através de um aparato portátil, como uma mochila, por exemplo.
3 A ação grava dados locais da cidade de Toronto e os disponibiliza na Internet.
4 Informações extraídas do endereço eletrônico: http://turbulence.org/Works/mimoSa/mimoSa_port/index.html
5 PRADO, Gilberto: Experimentações Artísticas em Redes Telemáticas, 1997, p.2